EDIÇÃO 02 - SETEMBRO DE 2007
     

Um utilitário esportivo de 150 mil reais ilustra o fundo de tela do computador do empresário Luís Gustavo Franceschi. “É um lembrete diário do que posso conquistar se eu batalhar para isso”, explica. Comprador de livros de administração, Franceschi está acostumado a buscar motivação em obras de auto-ajuda. “O Monge e o Executivo, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas e Pai Rico, Pai Pobre são livros que me ajudaram e me ensinaram muito”, ele conta, “mas leio sempre com senso crítico, não concordo com tudo o que um livro diz.”
O empresário é um dos 250 mil brasileiros que leram o livro O Segredo, da australiana Rhonda Byrne, no primeiro mês do lançamento no Brasil. O best-seller, que nos Estados Unidos já vendeu mais de 6 milhões de cópias desde janeiro, ensina que tudo em que focarmos nossa mente, com afinco e credulidade, se torna realidade. Um sorvete, um livro, um grande amor, a cura de uma doença e o carrão almejado se tornarão reais desde que sejam cultivados em nossos pensamentos.
Livros de auto-ajuda que visam o sucesso financeiro existem há tempos. A própria Rhonda se inspirou numa obra de 1910, A Ciência de Ficar Rico, de Wallace D. Wattles, para criar a sua teoria. A novidade é que ela pegou carona em duas áreas da ciência ainda embrionárias e detentoras de mistérios que fascinam a humanidade: as neurociências (o estudo do cérebro) e a física quântica. Em 2005, o documentário canadense Quem Somos Nós?, de William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente, buscou traçar relações entre as recentes descobertas da física quântica e os possíveis poderes atribuídos à mente, mostrando que a realidade, da forma como a percebemos, é ilusória, que nós é que a criamos e, portanto, podemos mudá-la com nossos pensamentos.
Foi o gancho que Rhonda Byrne precisava para produzir o filme O Segredo, que
daria origem ao livro. Revestidos de caráter científico, ambos falam da “lei da atração” como uma teo-ria da física – tão natural quanto a lei da gravidade –, partindo do princípio de que semelhante atrai semelhante, ou seja, “quando você tem um pensamento, está atraindo pensamentos semelhantes para si”, acredita a autora. “Quando você pensa, os pensamentos são emitidos para o Universo e, magneticamente, todas as coisas semelhantes se atraem”, declara a otimista Rhonda.
Uma vez vendida com aparência científica,
a obra dispensa o mote espiritual de outros livros que procuram aplicar práticas religiosas na obtenção de sucesso profissional. Ilustram como exemplos dessa linha O Monge e o Executivo e O Lapidador de Diamantes, baseados nas filosofias cristã e budista, respectivamente.

O Poder da mente
A ciência tem descoberto por que a motivação e o bem-estar estão por trás do sucesso de muita gente. Quando estamos motivados, o cérebro produz substâncias que influenciam diretamente o modo como pensamos, sentimos e agimos. “O humor e o comportamento otimista têm relação com a produção de endorfina, serotonina, dopamina e noradrenalina”, explica o neurologista Jayme Maciel Júnior, professor de neurologia clínica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “As endorfinas estão relacionadas à sensação de prazer; a serotonina influencia nosso lado mental, como pensamos e interpretamos o mundo; e a dopamina e a noradrenalina se relacionam à execução das tarefas”, detalha o médico.

Em um quadro depressivo, o paciente é mais sensível à dor, pois produz menos endorfina. Ele enxerga a vida de um modo triste, devido à falta de serotonina, carece das substâncias relacionadas à ação – a dopamina e a noradrenalina – e por isso tende a não reagir à doença.
Mas existe alguma comprovação científica de que o pensamento positivo é um poderoso meio de se elevar a qualidade de vida? O psiquiatra Erik J. Giltay, do Psychiatric Center GGZ Delfland, na Holanda, constatou que os otimistas têm 55% menos chances de morrer, independentemente da causa. Sheldon Cohen, psiquiatra da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, provou que, mesmo quando contraem vírus, os bem-humorados têm bem menos chances de apresentar sintomas.

Otimistas, graças a Deus!
Já a depressão tem efeito contrário. Um período longo de estresse faz as glândulas supra-renais liberarem cortisol, um hormônio inibidor do sistema imunológico. Além disso, pessoas capazes de acreditar em um céu azul mesmo em dias cinzas são mais preparadas física e psicologicamente para enfrentar problemas e, por isso, acabam sendo bem-sucedidas.
É a ciência mostrando que pode estar na mente o poder mais almejado por qualquer pessoa: a capacidade de ser feliz.
 Num mundo corporativo que valoriza cada vez mais os perfis ativos, não é de se estranhar que os otimistas acabem conquistando mais espaço. Quem possui a capacidade de olhar o lado bom geralmente também tem os motivadores químicos que o fazem agir. Por isso, enfrentar as angústias e encontrar motivação pode afetar não só o nosso olhar,  mas também a nossa ação sobre o mundo.
O psicólogo Crispim Antonio Campos concorda, mas faz uma ressalva: “Como o estímulo é feito somente sobre o indivíduo, a pressão após uma derrota também recai só sobre ele,” afirma. Portanto, é preciso manter sempre o senso crítico para que as angústias sejam trabalhadas.
Responder às angústias humanas é justamente o foco da literatura de auto-ajuda. Para a editora Raíssa Castro, da Verus Editora, nesses livros “muita gente acaba encontrando material para suas angústias, com respostas e orientações que lhes trarão um pouco de clareza em meio a todas as responsabilidades e confusões provocadas pela vida moderna”, acredita.

Muitos textos, antes catalogados no campo do sobrenatural, são hoje vendidos nas prateleiras de administração e de gestão profissional. Seria o espiritual adquirindo contornos pragmáticos? Seria a ciência validando o poder da velha fé na mente? Ou seria o mundo material que se apropria dos dons do espírito a fim de acumular riquezas mundanas? A nova literatura de auto-ajuda baseada nos poderes mentais está mexendo com a vida de muita gente.
Que seja para melhor, uma vez que ela já provou ser um poderoso estimulante.Com isso, esses livros mostram que têm o seu espaço e a sua importância. Mesmo que sirvam simplesmente para manter o ânimo ou aumentar ainda mais a motivação de quem os lê. ©