EDIÇÃO 02 - SETEMBRO DE 2007
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JORNALISTA RESPONSÁVEL:

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Setembro 2007 - Nº 02

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A estranheza surge principalmente quando as moças do tempo anunciam as previsões do dia seguinte: vai fazer sol em “Roráima”. Ou será em “Rorãima”?
Até algumas décadas atrás, parecia não haver dúvida: era “Rorãima” que se aprendia na escola e se pronunciava em quase todo o Brasil.
A partir de determinado momento, no entanto, as autoridades e a população roraimense passaram a seguir a prática dos índios da região. Os macuxis, taurepangues, ianomâmis e uapixanas, principais tribos do norte do país, chamam a região de “Roráima”, com som aberto, por terem impossibilidade de articular sons nasais.
É um fenômeno semelhante ao de algumas partes do Brasil em que, por influência indígena, se diz, por exemplo, “gránde”, em vez de grande, “bacána”, em vez de bacana, “bánána”, em vez de banana etc.
Como essa pronúncia não é a do restante do país, cria-se uma falsa impressão de “erro”, quando o que se tem são meras variações.
Ex-correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Boa Vista, o jornalista Plínio Vicente informa que os professores Dorval Magalhães e José Ferreira pesquisaram o assunto, e seus estudos dos costumes indígenas locais foram decisivos para a adoção, no estado, da pronúncia “Roráima”. Chegou-se até a cogitar, na Assembléia Legislativa roraimense, a votação de uma lei que oficializasse essa maneira de falar.
Como proceder, então? Do ponto de vista formal do idioma, a pronúncia “Rorãima” parece ser a predominante, mesmo porque na língua portuguesa as vogais que antecedem m e n adquirem, normalmente, o som nasal dessas consoantes. É o que ocorre em andaime (“andãime”), paina (“pãina”), Bocaina (“Bocãina”), Rifaina (“Rifãina”), polaina (“polãina”), plaina (“plãina”), comezaina (“comezãina”), Elaine (“Elãine”) etc.
O dicionário Houaiss não se define sobre o assunto, mas observa: “No início do século 20, a pronúncia ainda alternava Roraíma/Rorãima/Roráima”. Já o Aurélio, no verbete “roraimense, toma partido e inclui, entre parênteses, a indicação ãi.
De qualquer maneira, é preciso levar em conta a respeitável opinião do filólogo Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras. Para ele, a presença de m ou n na sílaba seguinte pode ou não nasalar as vogais anteriores, o que autoriza tanto a forma “Roráima” como “Rorãima”.  A conclusão é a de que quem quiser seguir a tendência regional pode falar em “Roráima”. E quem ficar com a preferência nacional deve dizer “Rorãima”.
Seria bom se esse fosse o único problema do gênero no idioma. As pessoas que acompanham o noticiário da TV e do rádio, porém, podem, com toda a justiça, hesitar entre as pronúncias “recórde” e “récorde”. Vale lembrar, no caso, que a palavra, originária do latim, consolidou-se no francês (recorder) e foi importada pelo inglês, idioma no qual sofreu aclimatação. Por isso, não há nada a estranhar que se diga “récorde” em inglês e “recórde”, como os dicionários registram, em português.
Um pouco diferente é o caso de quatro vocábulos terminados em uito na língua portuguesa. Por mais que se ouçam “gratuíto” e “gratuítamente” até nos anúncios oficiais, não há engano possível: é gratuito e gratuitamente (“úi”) que se deve enunciar.  Mas nem sempre os desvios de pronúncia são tão facilmente explicáveis. Por exemplo, “biótipo” virou “biotipo” na linguagem popular, enquanto outras palavras da família são, por exemplo, “protótipo” e “estereótipo”. A oscilação de pronúncia já aparece em monotipo, fenotipo, genotipo e logotipo, alternativas populares das eruditas fenótipo, genótipo, logótipo e monótipo. Só para concluir: o gás, para você, é “neon” ou “néon”? O Aurélio só registra a grafia tradicional, néon, mas o Houaiss e o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras já autorizam o uso de neon. Menos mal para nós que os dicionários também se atualizem.   ©

 
 
 
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