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FILHO DE PEIXE
“Ser filho de escritores me fez crescer com
a idéia de que essa era uma profissão normal. Sem dúvida, mais influência positiva do que negativa. As pessoas geralmente me perguntam quando ‘descobri’ que era escritor, ou quando ‘decidi que era isso que queria fazer’, como se tornar-se escritor fosse quase como sair do armário, profissionalmente. Nada. Sou careta, como um dentista filho de dentistas...”
O INICÍO
“Quando tinha uns 14 anos escrevi uma crônica sobre a casa da minha infância, que seria demolida para a passagem da Avenida Nova Faria Lima. Dei para minha mãe e minha irmã lerem e fui tomar banho. Quando saí as duas estavam chorando. Opa, mulheres chorando por causa de um negócio
que eu escrevi? Gostei daquilo. Dei o texto, escrito em lápis de cor verde, para uma bailarina por quem me apaixonei no primeiro colegial. Ela perdeu o texto e nem se apaixonou por mim. Mau começo.”
LER E ESCREVER
“Eu lia desde pequeno, mas nunca fui um leitor exageradamente voraz. Não sou
um autor que escreve por influência da literatura. Escrevo porque quero falar da vida, interferir na vida, dizer o que eu penso das coisas. Das primeiras coisas que li, lembro-me de Ruth Rocha, João Carlos Marinho, Tintim, Asterix, Turma da Mônica, Stella Carr, Lígia Bojunga Nunes,
a coleção Para Gostar de Ler e muitas outras coisas. Quando a gente elenca nossas influências, o que fazemos é dizer quem gostaríamos de ser quando crescermos. Poderia falar de Cortázar, Machado,
Millôr, Veríssimo, Cervantes, Campos de Carvalho e tantos outros. Sem falar na poesia: Drummond, Pessoa, Bandeira, Leminski & grande elenco. Mas será que eles marcaram minha escrita mais do que Os Simpsons, a professora de português da segunda série ou a bailarina por quem fui perdidamente apaixonado aos 15 anos de idade?”
VIOLÊNCIA DO DESPERTADOR
“A escrita é uma aprendizagem solitária.
A gente aprende lendo, escrevendo e vivendo. Nunca tive muita disciplina, mas como sempre tenho de entregar coisas, a rotina acaba se impondo, o que é bom. Fico aflito quando não estou produzindo. Ao contrário da maioria das pessoas, adoro rotina. Claro, adoro porque posso fazer meus próprios horários. Aliás, acho que a melhor coisa de ser escritor é poder acordar a hora que quiser. O despertador é uma violência que ainda não recebeu a devida atenção dos críticos da contemporaneidade (com o perdão pela palavra). Por que Foucault não escreveu nada sobre isso? Já queimaram sutiãs e a bandeira americana em praça pública, já quebraram as máquinas das fábricas, como é que o despertador, esse ditadorzinho nefasto, esse caudilho autoritário que arranca a humanidade dos sonhos e a joga na labuta, todo dia, com seu estridente discurso, chegou incólume até aqui?”
VIAGEM DE FORMAÇÃO
“Fomos Chico Mattoso, Paulo Werneck, Zé Vicente da Veiga e eu para uma viagem por cidades do sertão do Ceará, do Piauí e de Pernambuco, com um projeto de fazer uma fotonovela. Fazíamos parte do Universidade Solidária, um trabalho muito legal que manda estudantes de graduação para essas cidadezinhas. Criávamos o roteiro com os adolescentes, depois eles se fantasiavam, tirávamos as fotos com polaróide e fazíamos uns painéis, que ficavam lá. No fim de tudo escrevemos o livro, Cabras. Foi maravilhoso. Tínhamos 21, 22 anos e passamos 40 dias viajando, escrevendo e conhecendo lugares e pessoas incríveis. Foi formador.”
PRIMEIRO LIVRO SOLO
“Havia acabado de sair de um emprego como editor de uma revista, que tinha me dado alguns caraminguás e uma certeza:
eu não podia ter emprego e ser escritor
ao mesmo tempo. Teria que dedicar tempo
e esforço a ler e escrever. Então salvei tudo o que tinha escrito até então (estava com
23 anos) e fui para um sítio. Fiquei lá
umas semanas, selecionando, reescrevendo, criando coisas novas. Quando achei que estava bom, publiquei Douglas e Outras Histórias (Azougue Editorial).”
CONTOS, CRÔNICAS, UM ROMANCE
“Sempre escrevi contos e crônicas, misturados. Nos meus três livros, Douglas, As Pernas da Tia Corália e O Inferno atrás da Pia, a seleção para publicação aconteceu depois. Quando achei que já tinha um bom punhado de coisas bem escritas, publiquei. Como são escritos de uma mesma fase, acabam por ter uma unidade, mesmo que involuntariamente. Atualmente, estou escrevendo um romance. Estou gostando e acho que pode ficar bom, mas me vejo essencialmente como um cronista. Até agora, foi crônica
o que escrevi de melhor. Mas, publicar é fácil. Difícil é ser lido. Às vezes escrever é um inferno, não funciona, você reescreve, descobre que não é nada daquilo. Mas, quando dá certo, ah, que bom que é!”
ESCOLHA SOLITÁRIA
“Tem alguns amigos próximos, que também são escritores, para quem mostro meus livros quando acho que estão prontos. Chico Mattoso, Paulo Werneck, Fabrício Corsaletti. Também mostro para minha mãe e meu pai. É interessante. Quando duas ou três pessoas apontam um defeito, costumo mudar. Mas sempre tem um que acha algo péssimo e outro que diz que aquilo é a melhor parte. Ou seja, no fim das contas, as escolhas são sempre solitárias.”
MINHA OBRA?!
“Imagina se eu tenho uma obra! Tô começando. Um escritor de 29 anos é como um jogador com 16. (Esqueça Rimbaud, que parou aos 19, ele só serve para nos deixar angustiados!) Vou estar bom mesmo é um dia antes de morrer, o que espero que aconteça lá pelos 123 anos. Essa é uma vantagem da literatura sobre, por exemplo, o futebol.
A cada dia que passa, o Ronaldo é menos Ronaldo, e eu sou mais Antonio (isso talvez seja pura inveja do Ronaldo, além do que, ele foi muito mais Ronaldo do que, provavelmente, eu serei Antonio). Hoje, quando leio meus livros, vejo que mudei muito, que melhorei e que não escreveria nada daquilo atualmente, mas de maneira nenhuma me arrependo. Aquilo era o melhor que eu podia fazer naquela época. Não tenho essa visão preciosista da literatura.”
EU NA CHINA
“Foi uma experiência incrível. Uma espécie de `Cabras Reloaded´, só que mais intensa: sozinho e na China. O projeto Amores Expressos mandou 16 escritores para 16 cidades do mundo e cada um de nós escreverá uma história de amor que se passe lá. Não vou falar ainda sobre ele porque os americanos podem roubar a idéia e filmar em Hollywood antes que eu acabe de escrevê-lo. A grande coisa que aprendi na China é que não entendi bulhufas. São muito diferentes da gente. Uma cultura de cinco mil anos, que passou o século 20 numa ditadura maluca e agora se escancara para o capitalismo. Fiquei lá um mês olhando, conversando com as pessoas, conhecendo os lugares, comendo a comida,
e voltei sem saber que apito eles tocam.
E, quanto menos eu entendia do que acontecia ao meu redor, mais introspectivo eu ficava e melhores coisas escrevia.”
AS LEITORAS
“Escrevo na Capricho há seis anos. É muito bom. Foi escrevendo para essas meninas que me tornei cronista. Elas me escrevem e, como são adolescentes, não têm papas na língua. Isso é bom, porque, se eu vacilo, elas caem de pau. ‘Kra??? Q q rolô? Tua última crônica tá nd a vê!!!’.”
CULTURA É... “Cultura é tudo aquilo que nos diferencia de mexilhões, samambaias e tamanduás. (Tirando a respiração e a primeira mamada, o resto é cultura – a segunda mamada já deve ter alguma malícia. E malícia é cultura). Cultura é tudo isso que criamos para ocupar os pensamentos, assim que nos demos conta de que um dia iríamos morrer. Cultura é a invenção de uns magrelos feiosos para roubar as moças dos guerreiros fortões. Cultura é tudo aquilo que nós entregaríamos de bom grado em troca de uma nadadora olímpica.” © |