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Paulo
Gaudencio: “Amigo não é
quem põe no colo, é quem fala
a verdade” |
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uando
se fala em crise, a primeira idéia que vem à
cabeça é a de sofrimento. Para o médico
psiquiatra Paulo Gaudencio,
entretanto, crise é uma coisa boa. É um processo
de ajuste interior que permite, ao indivíduo, acompanhar
as mudanças que ocorrem constantemente em sua vida.
Acontece quando a idéia caminha e a estrutura fica
para trás.“
O homem tem
idéias de profissão, de amor, de vida. Para
concretizá-las, precisa de uma estrutura que lhe dê
sustentação. Eu me formei, tinha uma idéia
de profissão, abri um consultório. Comecei a
trabalhar, aprendi, minha idéia caminhou e a estrutura
ficou defasada. O que vai acontecer? Vai haver uma desestruturação,
uma reestruturação e um período de paz
até a idéia caminhar de novo e eu ter uma nova
crise e criar novos alicerces. Crise é para sempre”,
afirma o terapeuta, que hoje dirige o Instituto Paulo Gaudencio,
presta consultoria a empresas, realiza seminários,
palestras e tem vários livros
publicados: Minhas
razões, tuas razões,
Mudar e vencer,
Manual do prazer,
Manual do prazer
para mulheres,
Men at
Work – Como o
ser humano pode se tornar e se manter produtivo.
Baseado em sua experiência
clínica de mais de 40 anos, ele constata que as pessoas
reagem de forma diferente às crises. “Alguns
caminham com a idéia, outros se mantêm estruturados.
Quem caminha com a idéia eu chamo de jovem, sem critério
de idade. Tenho 72 anos e me considero muito jovem, estou
desestruturando tudo para reestruturar. Quem é estruturado
eu chamo de velho, também sem critério de idade.
Conheço tantos velhos de 30 anos que já chegaram
à verdade final, não têm mais dúvidas,
não querem mudar nada no seu relacionamento afetivo,
na profissão.”
Nas empresas, que vêm
passando por transformações numa velocidade
incrível, essas discrepâncias são bastante
visíveis, conforme ressalta o psiquiatra. Suas estatísticas
indicam que 30% dos profissionais aceitam as mudanças,
30% não querem mudar nada e 40% ficam em cima do muro.
Se ganhar a mudança, os indecisos aderem, 10% dos que
eram contrários se convertem e 20% acabam sobrando.
“Crise é um impasse constante entre a minha parte
jovem, que quer fazer um monte de mudanças, e a minha
parte velha, que reluta em desmontar coisas que foram construídas.
E não é fácil mesmo, pois a gente ama
as coisas que construiu”, admite. “Mas também
não é sofrimento; é uma mudança,
que sempre traz consigo uma oportunidade e um risco.”
Dar ou não um passo à
frente... Até que a decisão seja tomada, o processo
gera angústia e ansiedade, não há como
evitar: “Fico angustiado quando o impulso pede uma coisa,
a consciência manda outra e eu não escolho. E
enquanto não tomo a decisão fico meio dividido,
ansioso. É o medo normal que a gente sente antes que
algo aconteça. Sentir um pouco de ansiedade e angústia
é coisa do ser humano. Ninguém vai morrer por
causa disso. Ser maduro, nesse momento, é agüentar
a ansiedade e a angústia até que se tenha elementos
concretos. Tomar uma decisão precipitada acaba com
a ansiedade, mas pode trazer arrependimento.”
Paulo Gaudencio observa que
as crises podem ser decorrentes de fatores internos ou externos.
“São internos quando percebo que tenho de mudar
alguma coisa na minha forma de trabalhar ou nas minhas relações
afetivas, por exemplo. A maneira como estou agindo não
dá mais certo, e eu percebo isso dentro de mim. De
repente, as pessoas descobriram que há um estilo gerencial
mais eficiente – em vez de berrar, criar condições
para o operacional produzir cada vez melhor –, e isso
implica abandonar a estrutura antiga e aprender um outro jeito
de me relacionar com os subordinados. O convívio com
meu filho ou com minha mulher não está legal.
Primeiro impulso: a culpa é deles. Mas o que eu estou
fazendo para não deixar que seja legal? O que tenho
de mudar para que volte a ser legal?”
Por outro lado, existem as crises
que a gente não pediu, que “caem no nosso colo”,
como ele diz. Quando se perde o emprego ou alguém que
se ama, por exemplo. “Não fui eu que caminhei
com a idéia; aquilo simplesmente aconteceu. Um fato
desses desmonta uma estrutura. E agora? Ou afundo em sofrimento
ou desestruturo e reestruturo para encontrar a paz por um
período – até a idéia caminhar
e eu ter mais uma crise lá adiante. Primeiro passo
para a reestruturação: não ficar parado.
O burro de Buridan atravessou o deserto, seguiu no oásis
morto de cansaço, fome e sede e estancou indeciso exatamente
na metade da distância entre a comida e a bebida. E
de pensar morreu o burro. Não fique parado. Conscientize-se
de que, durante um período, terá de agüentar
a ansiedade e a angústia e procure enxergar as oportunidades
que se abrem. Se você foi mandado embora, quem sabe
não encontrará um trabalho mais compensador?”
“Quando se perde uma pessoa
querida, é fundamental fazer o luto”, alerta.
“A dor é muito grande, mas não adianta
se anestesiar, pois ela virá um dia mais tarde. Sinta
essa dor, não finja que não aconteceu. Não
se banhe de endorfina, discuta aquilo, trabalhe a perda, o
luto. Além disso, você terá de lidar com
a culpa de continuar vivo. O outro morreu e eu estou vivo,
sujeito a prazeres sensíveis como comer, beber, ter
uma nova vida afetiva e sexual, um trabalho de que eu goste.
Algo dentro de mim diz ‘que bom que eu estou vivo’
e me faz sentir culpado, apesar da dor pela perda. Trabalhe
também essa culpa. Eu perdi, mas estou vivo e tenho
o direito de recompor as coisas.”
Para os receosos, o terapeuta
garante: “Crise é a coisa mais saudável
do mundo. É sinal de que você está vivo.
Se não tem crise, morreu. A idéia não
caminhou, você não tem mais dúvidas, chegou
à verdade final. Durante a crise eu tenho ansiedade,
um pouco de angústia, mas tenho um objetivo. Vou perder
algumas coisas, porém vou ganhar outras. Se parei,
não ganho mais nada.” O problema da depressão,
segundo ele, não decorre da crise, e sim de não
saber lidar com a agressividade e colocar limite no seu espaço
vital. “Há uma linhada que não vale uma
briga, aí há outra e mais outra e, no fim, você
está todo amarrado e deprimido por linhadas que não
valiam uma briga. Você não entra em depressão
quando engole um sapo, você entra em depressão
de tanto girino que engole. A agressividade é fundamental,
entretanto, é preciso usá-la de forma adequada.
Tem que ser duro na bola, não na canela.”
Ser companheiro em tempo de
crise, a seu ver, é incentivar o outro a dar um passo
à frente. Essa campanha que muitos fazem para impedir
que o outro entre em crise nada mais é que “um
truque para fugir da própria crise pessoal”.
O apoio afetivo é importante, e mostrar que você
não concorda com a forma de agir do outro não
significa que você esteja contra ele. “Amigo não
é quem põe no colo, é quem fala a verdade.
Se estou errado, amigo é quem fala para mim, inimigo
é quem fala de mim, o resto não importa.”
“Se eu quiser me arrumar
por fora, preciso de um espelho para poder enxergar”,
diz Paulo Gaudencio. “Se eu quiser me arrumar por dentro,
preciso ainda mais de um espelho, ou seja, de um amigo que
espelhe para mim a minha maneira de agir, me ajudando a ver
em que ponto meu comportamento é adequado ou inadequado.
Quando você está em crise, não consegue
enxergar mesmo. Portanto, procure pessoas para conversar,
para ouvir uma opinião sincera. Mas, pelo amor de Deus,
não peça conselhos sobre como você deve
agir. Cada um tem de ser dono do próprio destino. Enfrente
a crise e não tenha medo de se desestruturar, pois
certamente você vai se reestruturar sempre melhor. Crise
é o prenúncio de uma nova vida.”

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