ABRIL -  2006     N 142
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Abril 2006 - Nº 142

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uando se fala em crise, a primeira idéia que vem à cabeça é a de sofrimento. Para o médico psiquiatra Paulo Gaudencio, entretanto, crise é uma coisa boa. É um processo de ajuste interior que permite, ao indivíduo, acompanhar as mudanças que ocorrem constantemente em sua vida. Acontece quando a idéia caminha e a estrutura fica para trás.“

O homem tem idéias de profissão, de amor, de vida. Para concretizá-las, precisa de uma estrutura que lhe dê sustentação. Eu me formei, tinha uma idéia de profissão, abri um consultório. Comecei a trabalhar, aprendi, minha idéia caminhou e a estrutura ficou defasada. O que vai acontecer? Vai haver uma desestruturação, uma reestruturação e um período de paz até a idéia caminhar de novo e eu ter uma nova crise e criar novos alicerces. Crise é para sempre”, afirma o terapeuta, que hoje dirige o Instituto Paulo Gaudencio, presta consultoria   a    empresas,     realiza     seminários,     palestras
e tem vários livros publicados:   Minhas   razões,   tuas razões,

 
  Paulo Gaudencio: “Amigo não é quem põe no colo, é quem fala a verdade”
 

Mudar e vencer, Manual do prazer, Manual do  prazer para mulheres, Men at Work – Como o ser humano pode se tornar e se manter produtivo.

Baseado em sua experiência clínica de mais de 40 anos, ele constata que as pessoas reagem de forma diferente às crises. “Alguns caminham com a idéia, outros se mantêm estruturados. Quem caminha com a idéia eu chamo de jovem, sem critério de idade. Tenho 72 anos e me considero muito jovem, estou desestruturando tudo para reestruturar. Quem é estruturado eu chamo de velho, também sem critério de idade. Conheço tantos velhos de 30 anos que já chegaram à verdade final, não têm mais dúvidas, não querem mudar nada no seu relacionamento afetivo, na profissão.”

Nas empresas, que vêm passando por transformações numa velocidade incrível, essas discrepâncias são bastante visíveis, conforme ressalta o psiquiatra. Suas estatísticas indicam que 30% dos profissionais aceitam as mudanças, 30% não querem mudar nada e 40% ficam em cima do muro. Se ganhar a mudança, os indecisos aderem, 10% dos que eram contrários se convertem e 20% acabam sobrando. “Crise é um impasse constante entre a minha parte jovem, que quer fazer um monte de mudanças, e a minha parte velha, que reluta em desmontar coisas que foram construídas. E não é fácil mesmo, pois a gente ama as coisas que construiu”, admite. “Mas também não é sofrimento; é uma mudança, que sempre traz consigo uma oportunidade e um risco.”

Dar ou não um passo à frente... Até que a decisão seja tomada, o processo gera angústia e ansiedade, não há como evitar: “Fico angustiado quando o impulso pede uma coisa, a consciência manda outra e eu não escolho. E enquanto não tomo a decisão fico meio dividido, ansioso. É o medo normal que a gente sente antes que algo aconteça. Sentir um pouco de ansiedade e angústia é coisa do ser humano. Ninguém vai morrer por causa disso. Ser maduro, nesse momento, é agüentar a ansiedade e a angústia até que se tenha elementos concretos. Tomar uma decisão precipitada acaba com a ansiedade, mas pode trazer arrependimento.”

Paulo Gaudencio observa que as crises podem ser decorrentes de fatores internos ou externos. “São internos quando percebo que tenho de mudar alguma coisa na minha forma de trabalhar ou nas minhas relações afetivas, por exemplo. A maneira como estou agindo não dá mais certo, e eu percebo isso dentro de mim. De repente, as pessoas descobriram que há um estilo gerencial mais eficiente – em vez de berrar, criar condições para o operacional produzir cada vez melhor –, e isso implica abandonar a estrutura antiga e aprender um outro jeito de me relacionar com os subordinados. O convívio com meu filho ou com minha mulher não está legal. Primeiro impulso: a culpa é deles. Mas o que eu estou fazendo para não deixar que seja legal? O que tenho de mudar para que volte a ser legal?”

Por outro lado, existem as crises que a gente não pediu, que “caem no nosso colo”, como ele diz. Quando se perde o emprego ou alguém que se ama, por exemplo. “Não fui eu que caminhei com a idéia; aquilo simplesmente aconteceu. Um fato desses desmonta uma estrutura. E agora? Ou afundo em sofrimento ou desestruturo e reestruturo para encontrar a paz por um período – até a idéia caminhar e eu ter mais uma crise lá adiante. Primeiro passo para a reestruturação: não ficar parado. O burro de Buridan atravessou o deserto, seguiu no oásis morto de cansaço, fome e sede e estancou indeciso exatamente na metade da distância entre a comida e a bebida. E de pensar morreu o burro. Não fique parado. Conscientize-se de que, durante um período, terá de agüentar a ansiedade e a angústia e procure enxergar as oportunidades que se abrem. Se você foi mandado embora, quem sabe não encontrará um trabalho mais compensador?”

“Quando se perde uma pessoa querida, é fundamental fazer o luto”, alerta. “A dor é muito grande, mas não adianta se anestesiar, pois ela virá um dia mais tarde. Sinta essa dor, não finja que não aconteceu. Não se banhe de endorfina, discuta aquilo, trabalhe a perda, o luto. Além disso, você terá de lidar com a culpa de continuar vivo. O outro morreu e eu estou vivo, sujeito a prazeres sensíveis como comer, beber, ter uma nova vida afetiva e sexual, um trabalho de que eu goste. Algo dentro de mim diz ‘que bom que eu estou vivo’ e me faz sentir culpado, apesar da dor pela perda. Trabalhe também essa culpa. Eu perdi, mas estou vivo e tenho o direito de recompor as coisas.”

Para os receosos, o terapeuta garante: “Crise é a coisa mais saudável do mundo. É sinal de que você está vivo. Se não tem crise, morreu. A idéia não caminhou, você não tem mais dúvidas, chegou à verdade final. Durante a crise eu tenho ansiedade, um pouco de angústia, mas tenho um objetivo. Vou perder algumas coisas, porém vou ganhar outras. Se parei, não ganho mais nada.” O problema da depressão, segundo ele, não decorre da crise, e sim de não saber lidar com a agressividade e colocar limite no seu espaço vital. “Há uma linhada que não vale uma briga, aí há outra e mais outra e, no fim, você está todo amarrado e deprimido por linhadas que não valiam uma briga. Você não entra em depressão quando engole um sapo, você entra em depressão de tanto girino que engole. A agressividade é fundamental, entretanto, é preciso usá-la de forma adequada. Tem que ser duro na bola, não na canela.”

Ser companheiro em tempo de crise, a seu ver, é incentivar o outro a dar um passo à frente. Essa campanha que muitos fazem para impedir que o outro entre em crise nada mais é que “um truque para fugir da própria crise pessoal”. O apoio afetivo é importante, e mostrar que você não concorda com a forma de agir do outro não significa que você esteja contra ele. “Amigo não é quem põe no colo, é quem fala a verdade. Se estou errado, amigo é quem fala para mim, inimigo é quem fala de mim, o resto não importa.”

“Se eu quiser me arrumar por fora, preciso de um espelho para poder enxergar”, diz Paulo Gaudencio. “Se eu quiser me arrumar por dentro, preciso ainda mais de um espelho, ou seja, de um amigo que espelhe para mim a minha maneira de agir, me ajudando a ver em que ponto meu comportamento é adequado ou inadequado. Quando você está em crise, não consegue enxergar mesmo. Portanto, procure pessoas para conversar, para ouvir uma opinião sincera. Mas, pelo amor de Deus, não peça conselhos sobre como você deve agir. Cada um tem de ser dono do próprio destino. Enfrente a crise e não tenha medo de se desestruturar, pois certamente você vai se reestruturar sempre melhor. Crise é o prenúncio de uma nova vida.”

 
 
 
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