Mudar
e vencer,
Manual
do prazer,
Manual
do prazer para mulheres,
Men
at Work – Como o ser humano pode se
tornar e se manter produtivo.
Baseado em
sua experiência clínica de
mais de 40 anos, ele constata que as pessoas
reagem de forma diferente às crises.
“Alguns caminham com a idéia,
outros se mantêm estruturados. Quem
caminha com a idéia eu chamo de jovem,
sem critério de idade. Tenho 72 anos
e me considero muito jovem, estou desestruturando
tudo para reestruturar. Quem é estruturado
eu chamo de velho, também sem critério
de idade. Conheço tantos velhos de
30 anos que já chegaram à
verdade final, não têm mais
dúvidas, não querem mudar
nada no seu relacionamento afetivo, na profissão.”
Nas empresas,
que vêm passando por transformações
numa velocidade incrível, essas discrepâncias
são bastante visíveis, conforme
ressalta o psiquiatra. Suas estatísticas
indicam que 30% dos profissionais aceitam
as mudanças, 30% não querem
mudar nada e 40% ficam em cima do muro.
Se ganhar a mudança, os indecisos
aderem, 10% dos que eram contrários
se convertem e 20% acabam sobrando. “Crise
é um impasse constante entre a minha
parte jovem, que quer fazer um monte de
mudanças, e a minha parte velha,
que reluta em desmontar coisas que foram
construídas. E não é
fácil mesmo, pois a gente ama as
coisas que construiu”, admite. “Mas
também não é sofrimento;
é uma mudança, que sempre
traz consigo uma oportunidade e um risco.”
Dar ou não
um passo à frente... Até que
a decisão seja tomada, o processo
gera angústia e ansiedade, não
há como evitar: “Fico angustiado
quando o impulso pede uma coisa, a consciência
manda outra e eu não escolho. E enquanto
não tomo a decisão fico meio
dividido, ansioso. É o medo normal
que a gente sente antes que algo aconteça.
Sentir um pouco de ansiedade e angústia
é coisa do ser humano. Ninguém
vai morrer por causa disso. Ser maduro,
nesse momento, é agüentar a
ansiedade e a angústia até
que se tenha elementos concretos. Tomar
uma decisão precipitada acaba com
a ansiedade, mas pode trazer arrependimento.”
Paulo Gaudencio
observa que as crises podem ser decorrentes
de fatores internos ou externos. “São
internos quando percebo que tenho de mudar
alguma coisa na minha forma de trabalhar
ou nas minhas relações afetivas,
por exemplo. A maneira como estou agindo
não dá mais certo, e eu percebo
isso dentro de mim. De repente, as pessoas
descobriram que há um estilo gerencial
mais eficiente – em vez de berrar,
criar condições para o operacional
produzir cada vez melhor –, e isso
implica abandonar a estrutura antiga e aprender
um outro jeito de me relacionar com os subordinados.
O convívio com meu filho ou com minha
mulher não está legal. Primeiro
impulso: a culpa é deles. Mas o que
eu estou fazendo para não deixar
que seja legal? O que tenho de mudar para
que volte a ser legal?”
Por outro
lado, existem as crises que a gente não
pediu, que “caem no nosso colo”,
como ele diz. Quando se perde o emprego
ou alguém que se ama, por exemplo.
“Não fui eu que caminhei com
a idéia; aquilo simplesmente aconteceu.
Um fato desses desmonta uma estrutura. E
agora? Ou afundo em sofrimento ou desestruturo
e reestruturo para encontrar a paz por um
período – até a idéia
caminhar e eu ter mais uma crise lá
adiante. Primeiro passo para a reestruturação:
não ficar parado. O burro de Buridan
atravessou o deserto, seguiu no oásis
morto de cansaço, fome e sede e estancou
indeciso exatamente na metade da distância
entre a comida e a bebida. E de pensar morreu
o burro. Não fique parado. Conscientize-se
de que, durante um período, terá
de agüentar a ansiedade e a angústia
e procure enxergar as oportunidades que
se abrem. Se você foi mandado embora,
quem sabe não encontrará um
trabalho mais compensador?”
“Quando
se perde uma pessoa querida, é fundamental
fazer o luto”, alerta. “A dor
é muito grande, mas não adianta
se anestesiar, pois ela virá um dia
mais tarde. Sinta essa dor, não finja
que não aconteceu. Não se
banhe de endorfina, discuta aquilo, trabalhe
a perda, o luto. Além disso, você
terá de lidar com a culpa de continuar
vivo. O outro morreu e eu estou vivo, sujeito
a prazeres sensíveis como comer,
beber, ter uma nova vida afetiva e sexual,
um trabalho de que eu goste. Algo dentro
de mim diz ‘que bom que eu estou vivo’
e me faz sentir culpado, apesar da dor pela
perda. Trabalhe também essa culpa.
Eu perdi, mas estou vivo e tenho o direito
de recompor as coisas.”
Para os receosos,
o terapeuta garante: “Crise é
a coisa mais saudável do mundo. É
sinal de que você está vivo.
Se não tem crise, morreu. A idéia
não caminhou, você não
tem mais dúvidas, chegou à
verdade final. Durante a crise eu tenho
ansiedade, um pouco de angústia,
mas tenho um objetivo. Vou perder algumas
coisas, porém vou ganhar outras.
Se parei, não ganho mais nada.”
O problema da depressão, segundo
ele, não decorre da crise, e sim
de não saber lidar com a agressividade
e colocar limite no seu espaço vital.
“Há uma linhada que não
vale uma briga, aí há outra
e mais outra e, no fim, você está
todo amarrado e deprimido por linhadas que
não valiam uma briga. Você
não entra em depressão quando
engole um sapo, você entra em depressão
de tanto girino que engole. A agressividade
é fundamental, entretanto, é
preciso usá-la de forma adequada.
Tem que ser duro na bola, não na
canela.”
Ser companheiro
em tempo de crise, a seu ver, é incentivar
o outro a dar um passo à frente.
Essa campanha que muitos fazem para impedir
que o outro entre em crise nada mais é
que “um truque para fugir da própria
crise pessoal”. O apoio afetivo é
importante, e mostrar que você não
concorda com a forma de agir do outro não
significa que você esteja contra ele.
“Amigo não é quem põe
no colo, é quem fala a verdade. Se
estou errado, amigo é quem fala para
mim, inimigo é quem fala de mim,
o resto não importa.”
“Se
eu quiser me arrumar por fora, preciso de
um espelho para poder enxergar”, diz
Paulo Gaudencio. “Se eu quiser me
arrumar por dentro, preciso ainda mais de
um espelho, ou seja, de um amigo que espelhe
para mim a minha maneira de agir, me ajudando
a ver em que ponto meu comportamento é
adequado ou inadequado. Quando você
está em crise, não consegue
enxergar mesmo. Portanto, procure pessoas
para conversar, para ouvir uma opinião
sincera. Mas, pelo amor de Deus, não
peça conselhos sobre como você
deve agir. Cada um tem de ser dono do próprio
destino. Enfrente a crise e não tenha
medo de se desestruturar, pois certamente
você vai se reestruturar sempre melhor.
Crise é o prenúncio de uma
nova vida.”
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