ABRIL -  2006     N 142
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s regras práticas existem para simplificar a vida das pessoas que se empenham em falar ou escrever de maneira adequada. Um grande risco desse tipo de regra, porém, é tentar ser prática demais e, ao invés de ajudar, dificultar a compreensão de questões complexas de linguagem.

Um bom exemplo desse fato é o uso das formas por que, por quê, porque e porquê. Ainda existe quem determine: o por que é separado nas perguntas e junto (porque) nas respostas. Certo? Nem sempre.

Uma regra mais precisa seria, talvez: usa-se por que, separado, sempre que estiverem subentendidas na frase as palavras razão ou motivo. E o porque, em uma palavra só, nas respostas. Mesmo assim, há casos que não se encaixam na regra. Então, o melhor é entender cada um dos diversos porquês.

1) Por que. Usa-se o por que, separado e sem acento, em dois casos: a) Sempre que estiverem claras ou subentendidas as palavras razão ou motivo. Assim: Por que (razão) você não chegou antes? / Por que (motivo) há tanta violência nas ruas hoje em dia? / Não sei por que (razão) você se afastou de nós. (Neste caso, a interrogação é indireta. Como se fosse: Por que você se afastou de nós?) Outro exemplo: O ministro não conseguiu explicar por que (motivo) os juros não caíam.

b) Emprega-se o por que quando essa forma equivale a para que ou pelo qual, pela qual, pelos quais e pelas quais: Lutavam por que (para que) houvesse menos injustiças. / Estavam ansiosos por que (para que) ela voltasse. / Este é o caminho por que (pelo qual) seguiu. / Mataram a cobra por que (pela qual) a criança fora picada. / Eram os apelidos por que (pelos quais) todos as conheciam.

2) Por quê. É o mesmo caso do item anterior, mas o acento se impõe quando o por que encerra a frase: Eles erraram tudo na prova. Por quê? / A empresa os demitiu e eles nem perguntaram por quê (foram demitidos). / Protestaram, mas não havia por quê (protestar). / Vocês se atrasaram tanto, meu Deus, por quê?

3) Porque. Aparece em dois casos: a) Nas respostas, quando equivale a pois, portanto, pelo fato de que. Exemplos: Compre logo a entrada para o espetáculo porque (pois) o teatro vai ficar lotado. / Disse que queria porque (pelo fato de que) queria sair. / Não gostou do livro porque (pois) era difícil de ler.

b) Nas perguntas, quando se sugere uma resposta: Você não veio porque perdeu o ônibus? / Eles recusaram o emprego porque a sede da empresa ficava longe?

4) Porquê. É usado quando, como substantivo, substitui (e não deixa implícitas apenas) as palavras razão, motivo, causa e pergunta: Não explicaram o porquê (razão, motivo) da decisão. / Havia poucas respostas para muitos porquês. / É uma pessoa cheia de porquês (perguntas). / É bom esclarecer todos os porquês (causas) do caso.

Como se vê, a simplificação exagerada não explica o por que separado em texto sem ponto de interrogação (trata-se de uma indagação indireta) nem o porque junto em texto com interrogação.

Eduardo Martins, jornalista, é autor do Manual de Redação e Estilo, de
O Estado de S. Paulo, do livro Com Todas as Letras – O Português Simplificado
e dos Resumões de Língua Portuguesa.

 
 
 
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