ABRIL -  2006     N 142
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história é feita de episódios notáveis e das ocorrências do cotidiano, de grandes personagens e de personagens menores, dos que se destacaram em seu tempo, mas que a crítica e a transformação de valores eclipsaram. É uma pena as novas gerações não terem oportunidade de contato com boa parte dessa produção literária que ficou relegada ao esquecimento. O presente não se explica sem o passado. Acho que olhar os que nos antecederam aumenta nossa compreensão do mundo.”

Movido por essa constatação, o administrador de empresas Cláudio Giordano tornou-se um verdadeiro Dom Quixote em defesa da memória histórico-cultural. Depois de 27 anos trabalhando com computação, decidiu dar uma guinada na vida: montou a Editora Giordano e iniciou a Coleção Memória, com o propósito de publicar obras que propiciam uma visão ampla da cultura universal e foram alijadas dos catálogos das editoras. Resolveu também se dedicar à tradução, ganhando inclusive o prêmio Jabuti de Melhor Tradução/ 1999 com o livro Tirant Lo Blanc, de Joanot Martorell .

A editora acabou cedendo lugar à Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, que, criada em 1999, passou a desenvolver múltiplas atividades no meio literário e co-editou dezenas de obras, entre elas: Iracema, de José de Alencar (fac-símile da primeira edição), Lírica italiana, de Cláudio Manoel da Costa, Crônicas efêmeras, de João do Rio, Cartas na mesa, de Manoel Lobato, Domingo dos séculos, de Rubens Borba de Moraes, Cartas aos amigos Caio Porfírio Carneiro e Fábio Lucas, de João Antônio, e muitas mais. Sem fins lucrativos, a instituição conta com um acervo de 20 mil itens, de livros a manuscritos, entre edições nacionais e estrangeiras. Uma biblioteca curiosa que, de certa forma, espelha o que se leu em diferentes períodos, mostrando um perfil da sociedade no decorrer dos anos.

Apesar das dificuldades e do esforço hercúleo para a realização de seu projeto, Cláudio Giordano não perde o entusiasmo e o desejo de garimpar tantas relíquias que se dispersaram. “Os livros sempre foram meus companheiros inseparáveis, desde a época em que estudei num seminário”, conta. “Neles busquei e continuo buscando o sentido da vida, a descoberta e o entendimento do que somos. Existe sim o prazer estético, mas a inquietação existencial se lhe sobrepõe. É pela leitura, precipuamente de obras autobiográficas (embora a ficção, a filosofia etc. também se prestem a isso), que vou descobrindo minha identidade como ser humano. A convivência social com meus semelhantes é tão conflitante que dificulta essa descoberta. Leitura, para mim, é busca, diálogo, aprendizado, prazer. É como o ar que respiro – não saberia viver sem ela.”
Suas indicações ressaltam algumas das preciosidades produzidas ao longo do tempo:

Apologia de Sócrates, de Platão – Tenho, em Sócrates, a expressão consumada do que entendo por ser humano, ou seja, aquele que se distingue de todos os demais seres pelo exercício da razão. Neste diálogo de Platão, eu o vejo no máximo de sua humanidade, coroada na descrição de sua morte.

O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry - É dos livros mais bem concebidos que já li, pelo sentido humano, candura, poesia, beleza, expressão formal. Nada nele é supérfluo. Sempre novo a cada leitura, não por inesperadas revelações, mas pela permanência de sua mensagem.

Os ensaios, de Montaigne - É uma viagem através do tempo e da cultura, viagem prazerosa, quase gaiata, durante a qual vamos refletindo sobre educação, amor, amizade, glória, sentidos, conversação, livros, medo, canibais, solidão, sono, bebida..., sobre a vida, enfim.

Lições de abismo, de Gustavo Corção - Pelo conteúdo, forma, força vocabular, estilo escorreito, evocando um Machado de Assis mais inquieto e nervoso, considero este romance ponto alto da literatura brasileira.

Grande sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa - Livro único na literatura brasileira: ludismo verbal deslumbrante, a par de elevado conteúdo humano.

O idiota, de Dostoiévski – Marcou minha juventude, juntamente com Os demônios. Reencontrei, por acaso, o exemplar lido em 1962 e percorri passagens então assinaladas. Ah, que vontade de relê-lo por inteiro e quiçá reencontrar aquela emoção juvenil!

Eça de Queiroz/Júlio Pomar, de Eça de Queiroz – Contém um texto belíssimo, Os mortos, que, com freqüência, envio a amigos abatidos pela perda de entes queridos. “Os mortos são felizes”, começa ele dizendo...

Uma paixão no deserto, de Balzac - Tem-se, neste conto, um Balzac insuspeito ou insólito, o mesmo que se encontra noutra narrativa curta, que se costuma rotular de La grande breteche ou A grande ameia. São dois momentos primorosos do que chamamos conto.

Fernando Pessoa, aliás, Alberto Caeiro - Talvez sejam os poemas de Caeiro os de menor expressão poética formal de toda a obra pessoana, mas são carregados de tal beleza espontânea que apaziguam a alma. Fico feliz quando ele diz, por exemplo:

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...

Camilo Castelo Branco - É minha concessão ao puro deleite verbal. Quem sente a magia e o ludismo das palavras e do estilo não pode deixar de lê-lo (qualquer coisa, de preferência textos menores), da mesma forma que não pode deixar de ler Guimarães Rosa, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Rubem Braga...

 
 
 
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