| história
é feita de episódios notáveis
e das ocorrências do cotidiano, de
grandes personagens e de personagens menores,
dos que se destacaram em seu tempo, mas
que a crítica e a transformação
de valores eclipsaram. É uma pena
as novas gerações não
terem oportunidade de contato com boa parte
dessa produção literária
que ficou relegada ao esquecimento. O presente
não se explica sem o passado. Acho
que olhar os que nos antecederam aumenta
nossa compreensão do mundo.”
Movido
por essa constatação, o administrador
de empresas Cláudio
Giordano tornou-se
um verdadeiro Dom Quixote em defesa da memória
histórico-cultural. Depois de 27
anos trabalhando com computação,
decidiu dar uma guinada na vida: montou
a Editora Giordano e iniciou a Coleção
Memória, com o propósito de
publicar obras que propiciam uma visão
ampla da cultura universal e foram alijadas
dos catálogos das editoras. Resolveu
também se dedicar à tradução,
ganhando inclusive o prêmio Jabuti
de Melhor Tradução/ 1999 com
o livro Tirant
Lo Blanc,
de Joanot
Martorell .
A editora
acabou cedendo lugar à Oficina do
Livro Rubens Borba de Moraes, que, criada
em 1999, passou a desenvolver múltiplas
atividades no meio literário e co-editou
dezenas de obras, entre elas: Iracema,
de José
de Alencar (fac-símile
da primeira edição), Lírica
italiana,
de Cláudio
Manoel da Costa,
Crônicas
efêmeras,
de João
do Rio, Cartas
na mesa,
de Manoel
Lobato, Domingo
dos séculos,
de Rubens
Borba de Moraes,
Cartas
aos amigos Caio Porfírio Carneiro
e Fábio Lucas,
de João
Antônio,
e muitas mais. Sem fins lucrativos, a instituição
conta com um acervo de 20 mil itens, de
livros a manuscritos, entre edições
nacionais e estrangeiras. Uma biblioteca
curiosa que, de certa forma, espelha o que
se leu em diferentes períodos, mostrando
um perfil da sociedade no decorrer dos anos.
Apesar das
dificuldades e do esforço hercúleo
para a realização de seu projeto,
Cláudio Giordano não perde
o entusiasmo e o desejo de garimpar tantas
relíquias que se dispersaram. “Os
livros sempre foram meus companheiros inseparáveis,
desde a época em que estudei num
seminário”, conta. “Neles
busquei e continuo buscando o sentido da
vida, a descoberta e o entendimento do que
somos. Existe sim o prazer estético,
mas a inquietação existencial
se lhe sobrepõe. É pela leitura,
precipuamente de obras autobiográficas
(embora a ficção, a filosofia
etc. também se prestem a isso), que
vou descobrindo minha identidade como ser
humano. A convivência social com meus
semelhantes é tão conflitante
que dificulta essa descoberta. Leitura,
para mim, é busca, diálogo,
aprendizado, prazer. É como o ar
que respiro – não saberia viver
sem ela.”
Suas indicações ressaltam
algumas das preciosidades produzidas ao
longo do tempo:
Apologia
de Sócrates,
de Platão
– Tenho, em Sócrates,
a expressão consumada do que entendo
por ser humano, ou seja, aquele que se distingue
de todos os demais seres pelo exercício
da razão. Neste diálogo de
Platão, eu o vejo no máximo
de sua humanidade, coroada na descrição
de sua morte.
O
Pequeno Príncipe,
de Saint-Exupéry
- É dos livros mais bem concebidos
que já li, pelo sentido humano, candura,
poesia, beleza, expressão formal.
Nada nele é supérfluo. Sempre
novo a cada leitura, não por inesperadas
revelações, mas pela permanência
de sua mensagem.
Os
ensaios,
de Montaigne
- É uma viagem através do
tempo e da cultura, viagem prazerosa, quase
gaiata, durante a qual vamos refletindo
sobre educação, amor, amizade,
glória, sentidos, conversação,
livros, medo, canibais, solidão,
sono, bebida..., sobre a vida, enfim.
Lições
de abismo,
de Gustavo
Corção
- Pelo conteúdo, forma, força
vocabular, estilo escorreito, evocando um
Machado de Assis mais inquieto e nervoso,
considero este romance ponto alto da literatura
brasileira.
Grande
sertão: Veredas,
de João
Guimarães Rosa
- Livro único na literatura brasileira:
ludismo verbal deslumbrante, a par de elevado
conteúdo humano.
O
idiota,
de Dostoiévski
– Marcou minha juventude, juntamente
com Os
demônios.
Reencontrei, por acaso, o exemplar lido
em 1962 e percorri passagens então
assinaladas. Ah, que vontade de relê-lo
por inteiro e quiçá reencontrar
aquela emoção juvenil!
Eça
de Queiroz/Júlio Pomar,
de Eça
de Queiroz –
Contém um texto belíssimo,
Os mortos, que, com freqüência,
envio a amigos abatidos pela perda de entes
queridos. “Os mortos são felizes”,
começa ele dizendo...
Uma
paixão no deserto,
de Balzac
- Tem-se, neste conto,
um Balzac insuspeito ou insólito,
o mesmo que se encontra noutra narrativa
curta, que se costuma rotular de La grande
breteche ou A grande ameia. São dois
momentos primorosos do que chamamos conto.
Fernando
Pessoa, aliás,
Alberto
Caeiro - Talvez sejam
os poemas de Caeiro os de menor expressão
poética formal de toda a obra pessoana,
mas são carregados de tal beleza
espontânea que apaziguam a alma. Fico
feliz quando ele diz, por exemplo:
Quem me
dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem
pisando...
Quem me
dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à
minha beira...
Quem me
dera que eu fosse os choupos à margem
do rio
E tivesse só o céu por cima
e a água por baixo...
Quem me
dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes
isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
Camilo
Castelo Branco - É
minha concessão ao puro deleite verbal.
Quem sente a magia e o ludismo das palavras
e do estilo não pode deixar de lê-lo
(qualquer coisa, de preferência textos
menores), da mesma forma que não
pode deixar de ler Guimarães
Rosa, Machado
de Assis, Manuel
Bandeira, Rubem
Braga... |