e pode haver algum consolo, ele também é difícil de ser empregado em francês e inglês. O espanhol, entretanto, conseguiu livrar-se desse sinal que tantas dúvidas causa em português.

No excelente livro Para falar e escrever melhor o português, o filólogo Adriano da Gama Kury chama o hífen de “tracinho trapalhão”,  entre  outras  coisas  porque,  denominado  traço-de-união, “ele nem sempre une, mas também separa”.

Então, não vale a pena se preocupar com o hífen? Ao contrário: ele não apenas existe como os erros que provoca estão entre os três mais comuns da língua portuguesa, ao lado da crase e da concordância.

Na sua função mais formal, o hífen serve para separar as sílabas de uma palavra (ver-ten-te), para ligar os pronomes átonos ao verbo (fazê-lo) e para criar conjuntos de letras e números que representam coisas variadas (AI-5, MPB-4, Atlético-MG, etc.).

É na formação de palavras compostas, porém, que o sinal exerce sua principal finalidade. Por palavra composta, pode-se entender aquela cujos termos “mantêm a independência fonética”, segundo o conceito oficial, e se convertem num conjunto com perfeita “unidade de sentido”. Ela resulta da reunião de vocábulos pertencentes a duas ou mais categorias gramaticais (substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, preposição, etc.).

Essa unidade de sentido pode representar a soma dos significados parciais, como em guarda-civil, matéria-prima, homem-bomba, corre-corre, pára-quedas, decreto-lei, etc.

Num segundo caso, a palavra final pode adquirir sentido figurado, distanciando-se do significado dos termos parciais: cachorro-quente, pé-frio, mesa-redonda, lua-de-mel, mala-sem-alça, etc.

Mala-sem-alça, por exemplo, não é o próprio objeto, mas uma pessoa aborrecida, a mesa-redonda (debate) pode ter qualquer formato, e não é a temperatura do pé que transforma alguém em pé-frio.

Nem sempre o fato de um substantivo estar ligado a outro caracteriza uma palavra composta. O substantivo pode desempenhar a função de adjetivo e nesse caso não existe hífen: carro esporte, marca recorde, comício monstro, funcionário fantasma, fita cassete, etc.

A principal dificuldade no uso do hífen, porém, se dá quando um prefixo se combina com outro elemento para formar um composto. Existe uma lista-padrão de cerca de 30 prefixos que se combinam com uma palavra com ou sem hífen, e cada um desses elementos de composição segue normas próprias, o que leva, por exemplo, anti-social a ter hífen e antidemocrático, não, só para citar um caso.

Ajudar a resolver essas questões é o objetivo do livro Uso do hífen, que este autor acaba de lançar pela Editora Manole. O livro não apenas expõe a teoria do hífen, em linguagem simples, como relaciona 400 prefixos que se ligam com ou sem hífen a outro elemento. E finalmente apresenta uma lista de 21 mil palavras compostas, com seus femininos e plurais. Tudo isso na tentativa de tornar esse tracinho um pouco menos trapalhão.

Eduardo Martins, jornalista, é autor do Manual de Redação e Estilo, de O Estado de S. Paulo, do livro Com Todas as Letras – O Português Simplificado e dos Resumões de Língua Portuguesa.