sempre
na direção de dúvidas
e perplexidades”, analisa o escritor
e crítico literário Carlos
Felipe Moisés autor
de Mensagem
de Fernando Pessoa: roteiro de leitura
e Fernando
Pessoa: almoxarifado de mitos.
Como
explicar o imenso fascínio que a
poesia de Fernando Pessoa exerce sobre o
leitor?
Acho que “fascínio” designa
bem a reação da maioria dos
leitores. Não é um poeta que
apenas agrada ou sensibiliza, que desperta
interesse ou curiosidade: é um poeta
que fascina, no sentido de que incomoda
e perturba, feito um polvo de mil tentáculos
que se agarra à consciência
e à sensibilidade do leitor –
e este não consegue (nem quer) se
libertar. Por quê? Bem, eu poderia
imaginar várias explicações,
mas fico só com uma: todos os leitores
de Fernando Pessoa (desde os que convivem
com o poeta há décadas até
os que acabaram de ler um ou outro poema)
percebem ou pelo menos intuem que toda essa
fantasia dos heterônimos revela a
realidade que nos constitui, com muito mais
lucidez do que, por exemplo, o divã
do psicanalista, o confessionário,
a auto-análise, ou qualquer que seja
o caminho que busquemos no encalço
do autoconhecimento. O convívio com
a poesia de Fernando Pessoa põe a
nu aquilo que cada um de nós é,
mesmo que não se desse conta antes.
Não é a única, mas
acho que é uma boa explicação
para o fascínio.
Qual
o significado da criação de
seus heterônimos?
Em primeiro lugar, os heterônimos
não são apenas “nomes
falsos”, isto é, pseudônimos,
mas equivalem a personagens de ficção,
com identidade, personalidade e estilo próprios.
Em vez de escrever um romance, por exemplo,
ou vários, de que Alberto
Caeiro,
Álvaro
de Campos,
Ricardo
Reis
e os outros fossem os protagonistas, Pessoa
inventou os personagens e escreveu os poemas
de cada um. Em segundo lugar, os heterônimos
definem o processo criador geral de toda
a obra pessoana, ou seja, tudo quanto ele
escreveu é heteronímico, incluindo
aquela parte da obra assinada com o seu
nome de batismo – à qual ele
se refere, ironicamente, como “Fernando
Pessoa Ele-Mesmo”. Esse “ele-mesmo”
é tão ficcional quanto Caeiro,
Campos ou Reis. Qual o significado disso?
Tem que ver, claro, com a complexidade e
as contradições do homem moderno.
Em outras palavras: a criação
heteronímica é uma espécie
de diagnóstico da crise da subjetividade,
cada vez mais acentuada no mundo contemporâneo.
A unidade do “ego” de cada um
de nós não passa de aspiração
ou nostalgia; o que nos caracteriza enquanto
indivíduos (tal como acontece com
a poesia de Fernando Pessoa) é a
desconcertante multiplicidade de caminhos
e possibilidades: ninguém consegue
ser igual a si mesmo em todos os lugares
e a todo momento. O “ego” do
homem moderno é um ego mutante. Pessoa
anteviu tudo isso, há mais de 70
anos, sendo essa a razão de sua obra
ser, paradoxalmente, cada vez mais atual.
É
possível definir as principais características
do estilo de Fernando Pessoa?
Essa talvez seja a questão básica:
o estilo. A criação poética,
concebida por Pessoa como processo heteronímico,
depende fundamentalmente da linguagem –
do estilo, portanto. Cada heterônimo
tem seu estilo próprio porque é
aí mesmo, na maneira de utilizar
as palavras, que se configura a visão
de mundo de cada um, mais do que nas idéias,
no pensamento ou na filosofia de vida. Em
conseqüência, ao contrário
do que acontece com a maioria dos poetas
de todos os tempos, não existe “o”
estilo de Fernando Pessoa: cada faceta de
sua obra ou cada heterônimo tem o
seu – e nisso consiste, aliás,
a maior originalidade do poeta português:
um poeta sem estilo próprio, mas
que criou, para cada heterônimo, um
estilo inconfundível. Haveria algum
denominador comum entre os heterônimos?
Talvez. Quem sabe o alto poder de concisão;
quem sabe a mescla invariável de
emoção e razão, ou
sentimento e reflexão, que caracteriza
praticamente todos os versos e todas as
frases que ele escreveu. Simplificando:
Pessoa é um poeta que pensa –
o que vem a ser outra marca de sua originalidade.
O
que o leva a ser tão cultuado no
meio intelectual e, ao mesmo tempo, tão
popular?
Essa é uma característica
de toda obra de gênio: fala, ao mesmo
tempo, a todos os leitores, do mais culto
e exigente ao mais despreparado. Cada qual
encontrará, na obra lida, um estrato,
um nível ou uma dimensão que
lhe diga respeito – e todos esses
níveis, estratos e dimensões
são legítima e autenticamente
pessoanos. Não importa, por exemplo,
que o leitor ingênuo se deixe iludir
pela falsa ingenuidade do pastor Alberto
Caeiro. Se ele insistir, e chegar a se dar
conta de que os poemas de Caeiro refletem,
por exemplo, o ego transcendental da fenomenologia
husserliana, ou o satori da iluminação
zen – isso não eliminará
a dimensão de ingenuidade que esses
mesmos poemas continuam a abrigar.
Qual
o heterônimo que mais se aproxima
do cidadão Fernando Pessoa?
Essa é talvez a pergunta mais difícil.
De bate-pronto eu diria: nenhum. O cidadão
Fernando Pessoa está por trás
de todos os heterônimos que criou;
cada qual representa uma das facetas que
integram a sua personalidade múltipla
e fragmentada, e todas têm a mesma
presença e a mesma intensidade. No
entanto (eu achei isso durante muito tempo,
depois mudei de idéia, depois voltei
a achar... em suma: não sei), quem
sabe a faceta mais “Pessoa”
de todas seja Álvaro de Campos. É
o heterônimo mais sintonizado com
os tempos modernos, com a grande urbe industrializada;
é o heterônimo da consciência
angustiada, perdida no anonimato da multidão
e mergulhada na vertigem do ceticismo e
na busca da Verdade impossível.
O
que a poesia pessoana instiga mais: os sentimentos
e as emoções, ou o intelecto
e a reflexão?
Eu diria que isso depende, primordialmente,
das expectativas do leitor: quanto mais
desprevenido e espontâneo for o primeiro
contato, mais forte será o impacto
emocional. Depende, também, de esse
primeiro contato se dar através de
Álvaro de Campos, por exemplo, com
suas emoções à flor
da pele, ou através de Ricardo Reis,
no outro extremo, cujas emoções
se escondem sob o disfarce do distanciamento
e da indiferença. Se eliminarmos
essas variações, decorrentes
das diferenças individuais e das
circunstâncias, eu diria que a poesia
pessoana instiga, por igual, os sentimentos
e a reflexão.
Existe
um caminho mais indicado para iniciar o
contato com a obra pessoana?
O caminho é mais ou menos óbvio:
começar pela poesia e não
pela crítica. Você imagine,
por exemplo, alguém que nunca tenha
lido Fernando Pessoa mas esteja lendo esta
entrevista e, deixando-se levar pelo meu
depoimento, exclame: “Epa! Taí
um poeta que vale a pena ler”. Eu
ficaria muito feliz e acrescentaria: esqueça
tudo o que eu disse e vá ler o poeta.
Se ele lhe tocar a sensibilidade e despertar
sua curiosidade, siga em frente. Se não...
E não perca tempo “preparando-se”
com a leitura de alguma biografia, algum
manual de história literária,
para conhecer melhor a época ou a
“escola” literária a
que ele pertence, e assim por diante. Tudo
isso virá como complemento ou como
ampliação do conhecimento,
mas jamais deverá servir como “base”
para o primeiro contato. O melhor caminho,
em suma, é ir tateando, sem compromisso
– como fazemos, aliás, com
tudo o que vale a pena na vida.
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Carlos
Felipe Moisés
publicou também Círculo
imperfeito
(1978), Subsolo
(1989), Lição
de casa
(1998) e outros livros de poesia,
além de várias coletâneas
de ensaios literários, como
Poesia
e realidade
(1977), Literatura,
para quê? (1996),
O
desconcerto do mundo (2001).
É mestre, doutor e livre-docente
em Letras Clássicas e Vernáculas
pela USP. É ainda tradutor
e autor de livros para crianças
e adolescentes.
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