MAIO -  2006     N 143
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Maio 2006 - Nº 143

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Carlos Felipe Moisés:
“A poesia de Fernando Pessoa põe a nu aquilo
que cada um de nós é”

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei...
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas.
(Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, “Passagem das horas”)

om uma linguagem enganadoramente simples e substancialmente enigmática, a poesia de Fernando Pessoa nas vozes de suas diversas personae, é acima de tudo um desafio. “Pessoa não nos acaricia a sensibilidade nem nos convida ao devaneio. Ele simplesmente provoca nossa capacidade de raciocínio,

 
 

sempre na direção de dúvidas e perplexidades”, analisa o escritor e crítico literário Carlos Felipe Moisés autor de Mensagem de Fernando Pessoa: roteiro de leitura e Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos.

Como explicar o imenso fascínio que a poesia de Fernando Pessoa exerce sobre o leitor?
Acho que “fascínio” designa bem a reação da maioria dos leitores. Não é um poeta que apenas agrada ou sensibiliza, que desperta interesse ou curiosidade: é um poeta que fascina, no sentido de que incomoda e perturba, feito um polvo de mil tentáculos que se agarra à consciência e à sensibilidade do leitor – e este não consegue (nem quer) se libertar. Por quê? Bem, eu poderia imaginar várias explicações, mas fico só com uma: todos os leitores de Fernando Pessoa (desde os que convivem com o poeta há décadas até os que acabaram de ler um ou outro poema) percebem ou pelo menos intuem que toda essa fantasia dos heterônimos revela a realidade que nos constitui, com muito mais lucidez do que, por exemplo, o divã do psicanalista, o confessionário, a auto-análise, ou qualquer que seja o caminho que busquemos no encalço do autoconhecimento. O convívio com a poesia de Fernando Pessoa põe a nu aquilo que cada um de nós é, mesmo que não se desse conta antes. Não é a única, mas acho que é uma boa explicação para o fascínio.

Qual o significado da criação de seus heterônimos?
Em primeiro lugar, os heterônimos não são apenas “nomes falsos”, isto é, pseudônimos, mas equivalem a personagens de ficção, com identidade, personalidade e estilo próprios. Em vez de escrever um romance, por exemplo, ou vários, de que Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e os outros fossem os protagonistas, Pessoa inventou os personagens e escreveu os poemas de cada um. Em segundo lugar, os heterônimos definem o processo criador geral de toda a obra pessoana, ou seja, tudo quanto ele escreveu é heteronímico, incluindo aquela parte da obra assinada com o seu nome de batismo – à qual ele se refere, ironicamente, como “Fernando Pessoa Ele-Mesmo”. Esse “ele-mesmo” é tão ficcional quanto Caeiro, Campos ou Reis. Qual o significado disso? Tem que ver, claro, com a complexidade e as contradições do homem moderno. Em outras palavras: a criação heteronímica é uma espécie de diagnóstico da crise da subjetividade, cada vez mais acentuada no mundo contemporâneo. A unidade do “ego” de cada um de nós não passa de aspiração ou nostalgia; o que nos caracteriza enquanto indivíduos (tal como acontece com a poesia de Fernando Pessoa) é a desconcertante multiplicidade de caminhos e possibilidades: ninguém consegue ser igual a si mesmo em todos os lugares e a todo momento. O “ego” do homem moderno é um ego mutante. Pessoa anteviu tudo isso, há mais de 70 anos, sendo essa a razão de sua obra ser, paradoxalmente, cada vez mais atual.

É possível definir as principais características do estilo de Fernando Pessoa?
Essa talvez seja a questão básica: o estilo. A criação poética, concebida por Pessoa como processo heteronímico, depende fundamentalmente da linguagem – do estilo, portanto. Cada heterônimo tem seu estilo próprio porque é aí mesmo, na maneira de utilizar as palavras, que se configura a visão de mundo de cada um, mais do que nas idéias, no pensamento ou na filosofia de vida. Em conseqüência, ao contrário do que acontece com a maioria dos poetas de todos os tempos, não existe “o” estilo de Fernando Pessoa: cada faceta de sua obra ou cada heterônimo tem o seu – e nisso consiste, aliás, a maior originalidade do poeta português: um poeta sem estilo próprio, mas que criou, para cada heterônimo, um estilo inconfundível. Haveria algum denominador comum entre os heterônimos? Talvez. Quem sabe o alto poder de concisão; quem sabe a mescla invariável de emoção e razão, ou sentimento e reflexão, que caracteriza praticamente todos os versos e todas as frases que ele escreveu. Simplificando: Pessoa é um poeta que pensa – o que vem a ser outra marca de sua originalidade.

O que o leva a ser tão cultuado no meio intelectual e, ao mesmo tempo, tão popular?
Essa é uma característica de toda obra de gênio: fala, ao mesmo tempo, a todos os leitores, do mais culto e exigente ao mais despreparado. Cada qual encontrará, na obra lida, um estrato, um nível ou uma dimensão que lhe diga respeito – e todos esses níveis, estratos e dimensões são legítima e autenticamente pessoanos. Não importa, por exemplo, que o leitor ingênuo se deixe iludir pela falsa ingenuidade do pastor Alberto Caeiro. Se ele insistir, e chegar a se dar conta de que os poemas de Caeiro refletem, por exemplo, o ego transcendental da fenomenologia husserliana, ou o satori da iluminação zen – isso não eliminará a dimensão de ingenuidade que esses mesmos poemas continuam a abrigar.

Qual o heterônimo que mais se aproxima do cidadão Fernando Pessoa?
Essa é talvez a pergunta mais difícil. De bate-pronto eu diria: nenhum. O cidadão Fernando Pessoa está por trás de todos os heterônimos que criou; cada qual representa uma das facetas que integram a sua personalidade múltipla e fragmentada, e todas têm a mesma presença e a mesma intensidade. No entanto (eu achei isso durante muito tempo, depois mudei de idéia, depois voltei a achar... em suma: não sei), quem sabe a faceta mais “Pessoa” de todas seja Álvaro de Campos. É o heterônimo mais sintonizado com os tempos modernos, com a grande urbe industrializada; é o heterônimo da consciência angustiada, perdida no anonimato da multidão e mergulhada na vertigem do ceticismo e na busca da Verdade impossível.

O que a poesia pessoana instiga mais: os sentimentos e as emoções, ou o intelecto e a reflexão?
Eu diria que isso depende, primordialmente, das expectativas do leitor: quanto mais desprevenido e espontâneo for o primeiro contato, mais forte será o impacto emocional. Depende, também, de esse primeiro contato se dar através de Álvaro de Campos, por exemplo, com suas emoções à flor da pele, ou através de Ricardo Reis, no outro extremo, cujas emoções se escondem sob o disfarce do distanciamento e da indiferença. Se eliminarmos essas variações, decorrentes das diferenças individuais e das circunstâncias, eu diria que a poesia pessoana instiga, por igual, os sentimentos e a reflexão.

Existe um caminho mais indicado para iniciar o contato com a obra pessoana?
O caminho é mais ou menos óbvio: começar pela poesia e não pela crítica. Você imagine, por exemplo, alguém que nunca tenha lido Fernando Pessoa mas esteja lendo esta entrevista e, deixando-se levar pelo meu depoimento, exclame: “Epa! Taí um poeta que vale a pena ler”. Eu ficaria muito feliz e acrescentaria: esqueça tudo o que eu disse e vá ler o poeta. Se ele lhe tocar a sensibilidade e despertar sua curiosidade, siga em frente. Se não... E não perca tempo “preparando-se” com a leitura de alguma biografia, algum manual de história literária, para conhecer melhor a época ou a “escola” literária a que ele pertence, e assim por diante. Tudo isso virá como complemento ou como ampliação do conhecimento, mas jamais deverá servir como “base” para o primeiro contato. O melhor caminho, em suma, é ir tateando, sem compromisso – como fazemos, aliás, com tudo o que vale a pena na vida.

Carlos Felipe Moisés publicou também Círculo imperfeito (1978), Subsolo (1989), Lição de casa (1998) e outros livros de poesia, além de várias coletâneas de ensaios literários, como Poesia e realidade (1977), Literatura, para quê? (1996), O desconcerto do mundo (2001). É mestre, doutor e livre-docente em Letras Clássicas e Vernáculas pela USP. É ainda tradutor e autor de livros para crianças e adolescentes.

 
 
 
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