MAIO -  2006     N 143
 VITRINE
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difícil sintetizar, numa única definição, o estilo de Zeca Baleiro. Do samba ao rock, passando por baião, pagode e blues, entre outros ritmos, o que se vê é uma imensa variedade de gêneros. Quando se trata do conteúdo, no entanto, as opiniões são unânimes: suas composições são criativas, poéticas e expressam magnificamente a riqueza musical brasileira. “Criar é algo que, em primeira instância, sugere liberdade”, enfatiza o músico. “Por isso, faço o que me dá na telha, não me prendo a rótulos.”

Irreverente e inovador, o compositor atrai um público heterogêneo, que sabe as letras de suas canções  de  cor  e  gosta  de  cantar   junto.  Motivo

de orgulho para ele: “São pessoas de todos os estratos sociais, de várias gerações diferentes, homens, mulheres, crianças, gays, brancos e pretos. Isso me agrada profundamente, eu detestaria ser um artista de guetos. Acho também que não conseguiria me acomodar num emprego medíocre só para sobreviver, acabaria me tornando uma dessas pessoas amargas. Como disse Bob Dylan, ‘se um homem acorda, vai à noite para a cama e, nesse ínterim faz o que gosta, então ele é bem-sucedido’. Nesse ponto, tive sucesso, pois sempre investi no meu prazer. O que se conquista deve ser fruto de alguma pertinácia; no meu caso, garanto que é.”

Maranhense de São Luís, Zeca Baleiro viveu até os 8 anos na cidade de seus pais, Arari, localizada às margens do rio Mearim, região de um imaginário muito fértil e cultura popular riquíssima. “Às vezes de maneira explícita, às vezes de modo mais simbólico, é inevitável que a cultura maranhense perpasse todo o meu trabalho. Vi muita coisa bela e única na minha infância – terreiros de umbanda, brincadeiras de bumba-meu-boi, tambor de crioula, procissões e cortejos fúnebres cinematográficos. Ainda que diluídas, todas essas informações estão na minha música. Encontro inspiração na rua, nos bares, nos jornais, nas minhas experiências e nas vivências alheias, na imaginação, que não deve ter limites...”

A música sempre fez parte de sua vida: “Em casa, todas as reuniões familiares se desenrolavam ao som de uma roda de violões. Minha mãe cantava muito bem e tinha um repertório fabuloso de marchinhas, valsas e sambas de Noel Rosa, Ismael Silva, Wilson Batista, os bambas todos. Meus dois irmãos mais velhos tocavam, as irmãs cantavam e as tias soltavam a voz na igreja. Afora isso, o rádio ficava ligado o dia inteiro e eu ouvia de tudo – Adoniran Barbosa, Odair José, Sérgio Sampaio, Luiz Gonzaga. Aos 18 anos, entrei na roda, comecei a tocar em festivais, shows universitários e bares, até que me mudei para Belo Horizonte, onde aprendi bastante e passei a conviver com ótimos músicos. Em 1991 mudei para São Paulo e, em 97, depois de uma longa e árdua jornada, gravei meu primeiro CD.”

O sucesso foi instantâneo. Por onde andará Stephen Fry conquistou o público e também um Disco de Ouro. Assim como os outros lançamentos do artista, entre os quais Vô Imbolá (1999), Líricas (2000), PetshopMundoCão (2002), Raimundo Fagner e Zeca Baleiro (2003). O mais recente é Baladas do asfalto & outros blues (2005). Baleiro já ganhou cinco Discos de Ouro, assim como três prêmios Sharp. Já fez mais de 500 shows, vendeu cerca de 600 mil CDs e se apresentou para mais de 800 mil pessoas. Um mecenas do mundo musical, sempre procurou incentivar outros artistas, entre eles Antonio Vieira e Décio Rocha.

No momento, ele está produzindo os CDs do compositor maranhense Lopes Bogéa e da cantora e compositora paulistana Vanessa Bumagny e planeja fazer um CD infantil. “Meu objetivo é sobretudo viver bem e fazer o que gosto”, afirma. “Quero retomar o Baile do Baleiro (agregando várias tribos e vertentes musicais num show com formato de baile do passado), fazer muitos shows (é melhor do que psicanálise!) e dar seqüência ao trabalho de produção e gravação de discos. Criei um selo, a Saravá Discos, pelo qual pretendo realizar ainda muitos projetos especiais”. A gravadora foi inaugurada com chave de ouro: o CD póstumo de Sérgio Sampaio, Cruel, e Ode descontínua e remota para flauta e oboé de Ariana para Dionísio, em que Baleiro musicou magistralmente alguns poemas de Hilda Hilst.

Quando não está pensando em música, o que é raro, Zeca Baleiro gosta de jogar futebol, ver cinema, cozinhar e pensar na vida... Começou a escrever um livro sobre culinária no início dos anos 1990, projeto que, segundo ele, “está congelado, com o perdão da palavra. Mas estou reelaborando a idéia e vou fazê-lo, sim. Não é um olhar de gastrônomo, pois não sou profissional. Sou é um bom garfo, que adora comida, de preferência a mais simples possível. Vou falar de histórias e personagens genuínos.”

Na opinião de Zeca Baleiro, escrever tem ligação direta com a leitura. “É claro que um compositor popular não precisa ter lido Shakespeare para fazer canções, mas ler ajuda a ter fluência. Isso quando o talento já existe, senão qualquer leitor seria poeta ou qualquer cinéfilo seria um grande cineasta. Sempre gostei de ler, muito por influência de meu pai, que nos doutrinava constantemente nesse sentido, desde o Almanaque do Biotônico Fontoura até Dostoievski. Mas li menos do que gostaria, sempre fui um pouco preguiçoso e tenho várias falhas no meu currículo: nunca li Os sertões ou Hamlet, por exemplo.”

Desde que mudou para São Paulo, o compositor passou a freqüentar a Livraria Cultura. “Vivia pelos lados da Paulista e a Livraria Cultura era uma parada quase que obrigatória. Depois mudei para longe e ficou mais difícil, mas ainda vou lá. Acho a Cultura uma das livrarias mais simpáticas da cidade. Sua localização, seu acervo e o atendimento dos vendedores são ótimos.”

 
 
 
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