de
orgulho para ele: “São pessoas
de todos os estratos sociais, de várias
gerações diferentes, homens,
mulheres, crianças, gays, brancos
e pretos. Isso me agrada profundamente,
eu detestaria ser um artista de guetos.
Acho também que não conseguiria
me acomodar num emprego medíocre
só para sobreviver, acabaria me
tornando uma dessas pessoas amargas. Como
disse Bob
Dylan,
‘se um homem acorda, vai à
noite para a cama e, nesse ínterim
faz o que gosta, então ele é
bem-sucedido’. Nesse ponto, tive
sucesso, pois sempre investi no meu prazer.
O que se conquista deve ser fruto de alguma
pertinácia; no meu caso, garanto
que é.”
Maranhense
de São Luís, Zeca Baleiro
viveu até os 8 anos na cidade de
seus pais, Arari, localizada às
margens do rio Mearim, região de
um imaginário muito fértil
e cultura popular riquíssima. “Às
vezes de maneira explícita, às
vezes de modo mais simbólico, é
inevitável que a cultura maranhense
perpasse todo o meu trabalho. Vi muita
coisa bela e única na minha infância
– terreiros de umbanda, brincadeiras
de bumba-meu-boi, tambor de crioula, procissões
e cortejos fúnebres cinematográficos.
Ainda que diluídas, todas essas
informações estão
na minha música. Encontro inspiração
na rua, nos bares, nos jornais, nas minhas
experiências e nas vivências
alheias, na imaginação,
que não deve ter limites...”
A música
sempre fez parte de sua vida: “Em
casa, todas as reuniões familiares
se desenrolavam ao som de uma roda de
violões. Minha mãe cantava
muito bem e tinha um repertório
fabuloso de marchinhas, valsas e sambas
de Noel Rosa, Ismael Silva, Wilson Batista,
os bambas todos. Meus dois irmãos
mais velhos tocavam, as irmãs cantavam
e as tias soltavam a voz na igreja. Afora
isso, o rádio ficava ligado o dia
inteiro e eu ouvia de tudo – Adoniran
Barbosa, Odair José, Sérgio
Sampaio, Luiz Gonzaga. Aos 18 anos, entrei
na roda, comecei a tocar em festivais,
shows universitários e bares, até
que me mudei para Belo Horizonte, onde
aprendi bastante e passei a conviver com
ótimos músicos. Em 1991
mudei para São Paulo e, em 97,
depois de uma longa e árdua jornada,
gravei meu primeiro CD.”
O sucesso
foi instantâneo. Por
onde andará Stephen Fry
conquistou o público e também
um Disco de Ouro. Assim como os outros
lançamentos do artista, entre os
quais Vô Imbolá
(1999), Líricas (2000),
PetshopMundoCão
(2002), Raimundo Fagner e
Zeca Baleiro (2003). O mais
recente é Baladas do
asfalto & outros blues
(2005). Baleiro já ganhou cinco
Discos de Ouro, assim como três
prêmios Sharp. Já fez mais
de 500 shows, vendeu cerca de 600 mil
CDs e se apresentou para mais de 800 mil
pessoas. Um mecenas do mundo musical,
sempre procurou incentivar outros artistas,
entre eles Antonio Vieira e Décio
Rocha.
No momento,
ele está produzindo os CDs do compositor
maranhense Lopes Bogéa e da cantora
e compositora paulistana Vanessa Bumagny
e planeja fazer um CD infantil. “Meu
objetivo é sobretudo viver bem
e fazer o que gosto”, afirma. “Quero
retomar o Baile do Baleiro (agregando
várias tribos e vertentes musicais
num show com formato de baile do passado),
fazer muitos shows (é melhor do
que psicanálise!) e dar seqüência
ao trabalho de produção
e gravação de discos. Criei
um selo, a Saravá Discos, pelo
qual pretendo realizar ainda muitos projetos
especiais”. A gravadora foi inaugurada
com chave de ouro: o CD póstumo
de Sérgio Sampaio, Cruel,
e Ode descontínua e
remota para flauta e oboé de Ariana
para Dionísio, em
que Baleiro musicou magistralmente alguns
poemas de Hilda
Hilst.
Quando
não está pensando em música,
o que é raro, Zeca Baleiro gosta
de jogar futebol, ver cinema, cozinhar
e pensar na vida... Começou a escrever
um livro sobre culinária no início
dos anos 1990, projeto que, segundo ele,
“está congelado, com o perdão
da palavra. Mas estou reelaborando a idéia
e vou fazê-lo, sim. Não é
um olhar de gastrônomo, pois não
sou profissional. Sou é um bom
garfo, que adora comida, de preferência
a mais simples possível. Vou falar
de histórias e personagens genuínos.”
Na opinião
de Zeca Baleiro, escrever tem ligação
direta com a leitura. “É
claro que um compositor popular não
precisa ter lido Shakespeare
para fazer canções, mas
ler ajuda a ter fluência. Isso quando
o talento já existe, senão
qualquer leitor seria poeta ou qualquer
cinéfilo seria um grande cineasta.
Sempre gostei de ler, muito por influência
de meu pai, que nos doutrinava constantemente
nesse sentido, desde o Almanaque do
Biotônico Fontoura até
Dostoievski.
Mas li menos do que gostaria, sempre fui
um pouco preguiçoso e tenho várias
falhas no meu currículo: nunca
li Os
sertões
ou Hamlet,
por exemplo.”
Desde que
mudou para São Paulo, o compositor
passou a freqüentar a Livraria
Cultura.
“Vivia pelos lados da Paulista e
a Livraria
Cultura
era uma parada quase que obrigatória.
Depois mudei para longe e ficou mais difícil,
mas ainda vou lá. Acho a Cultura
uma das livrarias mais simpáticas
da cidade. Sua localização,
seu acervo e o atendimento dos vendedores
são ótimos.”
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