MAIO -  2006     N 143
 VITRINE
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Namoro = quando o universo inteiro em volta importa menos do que abraço
Sedução = mania que têm os olhos, ombros, cintura, os quadris e a voz de brincar de ímã
Melancolia = valsa triste que toca dentro da gente de repente
Belo = tudo o que faz os olhos pensarem que são coração
Paixão = quando apesar da placa “perigo” o desejo vai e entra
(Adriana Falcão, Pequeno dicionário de palavras ao vento)

 

o melhor estilo carioca, a escritora Adriana Falcão é espontânea, alegre, descontraída. As palavras, em seus textos, correm soltas, ganhando vida, colorido e significados surpreendentes, com ar de criança travessa que, brincando, diz verdades que o adulto tenta esconder. Seja qual for o gênero – crônicas, romances, roteiros para televisão e cinema – a sutileza, o humor e a agilidade estão sempre presentes, revelando uma certa maneira infantil – “no melhor sentido da palavra, que já é plena de bons sentidos”, como diz a autora – de enxergar o mundo, os sentimentos, as pessoas.

Seu livro de estréia, A máquina, de tão cativante acabou sendo adaptado para o teatro e agora virou filme, sob a direção de João Falcão, com Paulo Autran, Mariana Ximenes e outros atores de peso no elenco. O primeiro texto infantil, Mania de explicação até hoje é um sucesso. Uma brincadeira bem bolada, que rendeu mais um fruto saboroso: Pequeno dicionário de palavras ao vento, no qual os vocábulos são definidos com uma visão diferente, “meio maluca, meio poética”. Seguiram-se outros livros, como Luna Clara e Apolo Onze (infanto-juvenil); O doido da garrafa (crônicas); PS. Beijei (juvenil, escrito em conjunto com Mariana Verissimo); e o delicioso romance (inspirado em sua mãe) A comédia dos anjos, cheio de reviravoltas sobre as doidices humanas.

Foram os divertidos episódios para tevê que impulsionaram sua carreira literária: “Eu me formei em arquitetura, mas não sei projetar sequer uma casinha de cachorro. Fui produzir teatro. Como adorava escrever, virei redatora publicitária. Então fui convidada para colaborar na Globo, na série A comédia da vida privada. Daí pra frente, fui descobrindo que escrever é a minha paixão. Livros, crônicas, roteiros. Para a televisão, escrevi para os programas Brasil Legal; Mulher; Sexo Frágil e estou em A Grande Família desde o início (2000). Adoro escrever para aqueles personagens do maravilhoso Vianinha. Ultimamente, tenho colaborado também com roteiros de cinema. Comecei com O auto da compadecida, e aí vieram outros: A dona da história; Se eu fosse você; Irma Vap, o retorno; A máquina; Fica comigo essa noite.

Adriana conta que essa intensa relação de amor com as palavras começou cedo. “Li muito quando criança. Aos 16 anos, descobri Fernando Pessoa e me apaixonei perdidamente. Em seguida, li O estrangeiro, de Camus, e a minha vida mudou”, declara. “A literatura me salva. Literalmente. Não sei como seria minha vida sem escrever e sem ler. Uma frase, ou uma palavra, às vezes produzem em mim um efeito devastador e eu sou capaz de ficar dias encantada com aquilo. Se passar um dia sem escrever, tenho a sensação de que vou enlouquecer. Ler e ouvir música me movem, são as coisas que me dão maior prazer na vida (além de amar minhas filhas e de dar/receber um beijo apaixonado). Aliás, acho que a música popular brasileira – Chico, Caetano, Gil e tantos outros – funcionou, na minha geração, como um caminho para a literatura e a poesia.”

De tudo o que os livros proporcionam de bom, o melhor, a seu ver, é a cultura e a fantasia. “A cultura, de que o nosso povo tanto precisa para viver certo, votar certo e ter o básico – saúde, segurança e educação. E a fantasia para agüentar viver num mundo doido desses”. Suas sugestões de leitura:

Dom Casmurro, de Machado de Assis. Sempre que eu leio este livro, penso em como Machado é um mestre inovador.

Livro do desassossego e tudo o mais de Fernando Pessoa. Ele é o filósofo do nosso tempo.

A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada, de Gabriel García Márquez. Amo o realismo mágico. Este é um livro de Márquez que me emociona em particular. E também fiquei encantada com o último: Memória de minhas putas tristes .

O aleph, de Jorge Luis Borges. Além de tudo mais que ele escreveu.

Histórias de cronópios e de famas, de Julio Cortazar. Adoro os contos de Cortázar. Tem um neste livro que eu amo: Instruções para subir uma escada.

O amor acaba, coletânea de crônicas de Paulo Mendes Campos. Acho o Paulo um dos maiores escritores brasileiros.

O tempo e o vento (trilogia O continente, O retrato e O arquipélago), de Erico Verissimo. Quando eu era menina, queria casar com o Capitão Rodrigo.

Luis Fernando Verissimo. Adoro suas crônicas. Ele é um vento bom nessa imprensa cheia de julgamentos de valor e exibicionismos de saber. Ele fala da gente, pra gente. E como é culto e simples.

Rubem Braga e Antônio Maria. Todas as crônicas dos dois autores. Dois gênios!

O estrangeiro, de Albert Camus. Ali, a crueza da vida aponta para a necessidade de a gente se salvar de alguma forma. Foi quando eu decidi escrever e não morrer.

Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, que consegue ser tão moderno e perturbador através dos séculos.

Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector. Vejo todas as mulheres ali, inteiras. Adoro Clarice e suas tempestades.

Finalmente, a poesia de Mário Quintana. Ai, Mário Quintana!

E Manoel de Barros. A linguagem, a delicadeza e a sensibilidade especialíssimas do autor estão presentes em cada poema, em cada texto, em cada suspiro.

 
 
 
 
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