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melhor estilo carioca, a escritora Adriana
Falcão é
espontânea, alegre, descontraída.
As palavras, em seus textos, correm soltas,
ganhando vida, colorido e significados surpreendentes,
com ar de criança travessa que, brincando,
diz verdades que o adulto tenta esconder.
Seja qual for o gênero – crônicas,
romances, roteiros para televisão
e cinema – a sutileza, o humor e a
agilidade estão sempre presentes,
revelando uma certa maneira infantil –
“no melhor sentido da palavra, que
já é plena de bons sentidos”,
como diz a autora – de enxergar o
mundo, os sentimentos, as pessoas.
Seu
livro de estréia, A
máquina,
de tão cativante acabou sendo adaptado
para o teatro e agora virou filme, sob a
direção de João Falcão,
com Paulo Autran, Mariana Ximenes e outros
atores de peso no elenco. O primeiro texto
infantil, Mania
de explicação
até hoje é um sucesso. Uma
brincadeira bem bolada, que rendeu mais
um fruto saboroso: Pequeno
dicionário de palavras ao vento,
no qual os vocábulos são definidos
com uma visão diferente, “meio
maluca, meio poética”. Seguiram-se
outros livros, como Luna
Clara e Apolo Onze
(infanto-juvenil); O
doido da garrafa
(crônicas); PS.
Beijei
(juvenil, escrito em conjunto com Mariana
Verissimo); e o delicioso romance (inspirado
em sua mãe) A
comédia dos anjos,
cheio de reviravoltas sobre as doidices
humanas.
Foram
os divertidos episódios para tevê
que impulsionaram sua carreira literária:
“Eu me formei em arquitetura, mas
não sei projetar sequer uma casinha
de cachorro. Fui produzir teatro. Como adorava
escrever, virei redatora publicitária.
Então fui convidada para colaborar
na Globo, na série A
comédia da vida privada.
Daí pra frente, fui descobrindo que
escrever é a minha paixão.
Livros, crônicas, roteiros. Para a
televisão, escrevi para os programas
Brasil Legal; Mulher;
Sexo Frágil e estou em A
Grande Família
desde o início (2000). Adoro escrever
para aqueles personagens do maravilhoso
Vianinha. Ultimamente, tenho colaborado
também com roteiros de cinema. Comecei
com O
auto da compadecida,
e aí vieram outros: A
dona da história;
Se eu fosse você; Irma
Vap, o retorno; A máquina;
Fica comigo essa noite.”
Adriana
conta que essa intensa relação
de amor com as palavras começou cedo.
“Li muito quando criança. Aos
16 anos, descobri Fernando
Pessoa e me apaixonei
perdidamente. Em seguida, li O
estrangeiro,
de Camus,
e a minha vida mudou”, declara. “A
literatura me salva. Literalmente. Não
sei como seria minha vida sem escrever e
sem ler. Uma frase, ou uma palavra, às
vezes produzem em mim um efeito devastador
e eu sou capaz de ficar dias encantada com
aquilo. Se passar um dia sem escrever, tenho
a sensação de que vou enlouquecer.
Ler e ouvir música me movem, são
as coisas que me dão maior prazer
na vida (além de amar minhas filhas
e de dar/receber um beijo apaixonado). Aliás,
acho que a música popular brasileira
– Chico, Caetano, Gil e tantos outros
– funcionou, na minha geração,
como um caminho para a literatura e a poesia.”
De tudo o que os livros proporcionam de
bom, o melhor, a seu ver, é a cultura
e a fantasia. “A cultura, de que o
nosso povo tanto precisa para viver certo,
votar certo e ter o básico –
saúde, segurança e educação.
E a fantasia para agüentar viver num
mundo doido desses”. Suas sugestões
de leitura:
Dom
Casmurro,
de Machado
de Assis. Sempre que
eu leio este livro, penso em como Machado
é um mestre inovador.
Livro
do desassossego
e tudo o mais de Fernando
Pessoa. Ele é
o filósofo do nosso tempo.
A
incrível e triste história
da Cândida Erêndira e sua avó
desalmada,
de Gabriel
García Márquez.
Amo o realismo mágico. Este é
um livro de Márquez que
me emociona em particular. E também
fiquei encantada com o último:
Memória de minhas putas tristes .
O
aleph,
de Jorge
Luis Borges. Além
de tudo mais que ele escreveu.
Histórias
de cronópios e de famas,
de Julio
Cortazar. Adoro os
contos de Cortázar. Tem
um neste livro que eu amo: Instruções
para subir uma escada.
O
amor acaba,
coletânea de crônicas de Paulo
Mendes Campos. Acho
o Paulo um dos maiores escritores
brasileiros.
O
tempo e o vento (trilogia
O
continente,
O
retrato
e O
arquipélago),
de Erico
Verissimo. Quando eu
era menina, queria casar com o Capitão
Rodrigo.
Luis
Fernando Verissimo.
Adoro suas crônicas. Ele é
um vento bom nessa imprensa cheia de julgamentos
de valor e exibicionismos de saber. Ele
fala da gente, pra gente. E como é
culto e simples.
Rubem
Braga e Antônio
Maria. Todas as crônicas
dos dois autores. Dois gênios!
O
estrangeiro,
de Albert
Camus. Ali, a crueza
da vida aponta para a necessidade de a gente
se salvar de alguma forma. Foi quando eu
decidi escrever e não morrer.
Dom
Quixote de La Mancha,
de Miguel
de Cervantes, que consegue
ser tão moderno e perturbador através
dos séculos.
Uma
aprendizagem ou O livro dos prazeres,
de Clarice
Lispector. Vejo todas
as mulheres ali, inteiras. Adoro Clarice
e suas tempestades.
Finalmente,
a poesia de Mário
Quintana. Ai, Mário
Quintana!
E Manoel
de Barros. A linguagem,
a delicadeza e a sensibilidade especialíssimas
do autor estão presentes em cada
poema, em cada texto, em cada suspiro. |