escritor
Ignácio
de Loyola Brandão,
em crônica publicada no Estadão
de 28 de abril, demoliu projeto do deputado
federal João Hermann Neto (PDT-SP),
que pretendia revogar a crase por meio
de lei. O grande autor brasileiro pode
ficar tranqüilo, porém.
A Comissão de Educação
e Cultura da Câmara já
tomou a medida adequada: mandou a iniciativa
para o arquivo.
O erro
do congressista foi de conceito, uma
vez que a crase não constitui
mero acento, mas um fato gramatical,
resultado da fusão de duas letras
iguais. No caso mais comum no idioma,
da preposição
a com o artigo feminino
a ou seu plural, as.
Repare:
Fui à cidade.
A frase equivale a: Fui a
a cidade. Outro
exemplo: Fez referência às
amigas. Como se fosse: Fez
referência a
as amigas.
Regra prática:
Para comprovar a presença da
crase (o a com acento
grave), troque a palavra antes da qual
aparece o a ou o as
por outra, masculina. Se o a
se transformar em ao,
existe crase. Do contrário, não.
Assim, nos exemplos acima:
Fui à cidade;
fui ao bairro.
/ Fez referência às
amigas; fez referências aos
amigos. Da mesma forma: Estavam
atentos às mudanças;
estavam atentos aos
processos. / Ficou junto à
parede; ficou junto ao
muro.
Nomes geográficos:
Como é o uso que determina se
há artigo antes de nome geográfico,
o melhor é recorrer a outro artifício:
Chegar da, crase há;
chegar de, crase pra
quê? Na prática: Chegou
da França, da
Paraíba; foi à
França, à
Paraíba. / Chegou de
Brasília, de
Cuba, de Rondônia;
foi a Brasília,
a Cuba, a
Rondônia.
Outros usos da
crase:
1) O a preposição
funde-se com o a ou
as quando este ocupa
o lugar de um substantivo (é
pronome): É uma situação
semelhante à
do pai (como se fosse: É
uma situação semelhante
à situação
do pai – evitou-se apenas
repetir a palavra situação).
2) Nas formas àquela,
àquelas, àquele,
àqueles e àquilo:
Deu o livro àquela
(a aquela)
biblioteca. / Enviou a
encomenda àqueles
dois amigos. / Não me
referi àquilo.
3) Na indicação de horas,
quando couber a locução
ao meio-dia: Chegou
às 10 horas
(chegou ao meio-dia).
/ O trem vai partir à
1 hora (ao meio-dia).
/ A reunião foi marcada para
as 5 horas (e não
“para às
5 horas” – não
se pode trocar por ao meio-dia).
Um caso especial é
o das locuções que têm
por base uma palavra feminina (este
caso é uma exceção
e nem sempre se pode substituir o a
por ao): Vire à
direita. / Pagamento à
vista. / Escrito à
máquina. / Ficou à
espera do irmão. / Cumpriu
a ordem à risca.
/ Nunca saía à
noite.
Se o à
é fusão de preposição
mais artigo feminino,
ele não deve figurar antes de
vocábulo masculino: Vou a
pé, a cavalo.
/ Traje a rigor,
vestido a caráter.
/ Entrou a bordo.
Só existe uma exceção:
quando está implícita
na frase uma palavra feminina. Como:
Estilo à (moda de) Machado
de Assis. / Vou à
(editora) Rocco. / Fez
alusão à (nave) Apollo
13.
Assunto esgotado? Ainda
não. Voltaremos em breve a ele:
a falta e o excesso de crase continuam
à espreita em muitas outras situações.