JUNHO -  2006     N 144
 VITRINE
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escritor Ignácio de Loyola Brandão, em crônica publicada no Estadão de 28 de abril, demoliu projeto do deputado federal João Hermann Neto (PDT-SP), que pretendia revogar a crase por meio de lei. O grande autor brasileiro pode ficar tranqüilo, porém. A Comissão de Educação e Cultura da Câmara já tomou a medida adequada: mandou a iniciativa para o arquivo.

O erro do congressista foi de conceito, uma vez que a crase não constitui mero acento, mas um fato gramatical, resultado da fusão de duas letras iguais. No caso mais comum no idioma, da preposição a com o artigo feminino a ou seu plural, as.

Repare: Fui à cidade. A frase equivale a: Fui a a cidade. Outro exemplo: Fez referência às amigas. Como se fosse: Fez referência a as amigas.

Regra prática: Para comprovar a presença da crase (o a com acento grave), troque a palavra antes da qual aparece o a ou o as por outra, masculina. Se o a se transformar em ao, existe crase. Do contrário, não.

Assim, nos exemplos acima: Fui à cidade; fui ao bairro. / Fez referência às amigas; fez referências aos amigos. Da mesma forma: Estavam atentos às mudanças; estavam atentos aos processos. / Ficou junto à parede; ficou junto ao muro.

Nomes geográficos: Como é o uso que determina se há artigo antes de nome geográfico, o melhor é recorrer a outro artifício: Chegar da, crase há; chegar de, crase pra quê? Na prática: Chegou da França, da Paraíba; foi à França, à Paraíba. / Chegou de Brasília, de Cuba, de Rondônia; foi a Brasília, a Cuba, a Rondônia.

Outros usos da crase:
1) O a preposição funde-se com o a ou as quando este ocupa o lugar de um substantivo (é pronome): É uma situação semelhante à do pai (como se fosse: É uma situação semelhante à situação do pai – evitou-se apenas repetir a palavra situação).
2) Nas formas àquela, àquelas, àquele, àqueles e àquilo: Deu o livro àquela (a aquela) biblioteca. / Enviou a encomenda àqueles dois amigos. / Não me referi àquilo.
3) Na indicação de horas, quando couber a locução ao meio-dia: Chegou às 10 horas (chegou ao meio-dia). / O trem vai partir à 1 hora (ao meio-dia). / A reunião foi marcada para as 5 horas (e não “para às 5 horas” – não se pode trocar por ao meio-dia).

Um caso especial é o das locuções que têm por base uma palavra feminina (este caso é uma exceção e nem sempre se pode substituir o a por ao): Vire à direita. / Pagamento à vista. / Escrito à máquina. / Ficou à espera do irmão. / Cumpriu a ordem à risca. / Nunca saía à noite.

Se o à é fusão de preposição mais artigo feminino, ele não deve figurar antes de vocábulo masculino: Vou a pé, a cavalo. / Traje a rigor, vestido a caráter. / Entrou a bordo. Só existe uma exceção: quando está implícita na frase uma palavra feminina. Como: Estilo à (moda de) Machado de Assis. / Vou à (editora) Rocco. / Fez alusão à (nave) Apollo 13.

Assunto esgotado? Ainda não. Voltaremos em breve a ele: a falta e o excesso de crase continuam à espreita em muitas outras situações.

Eduardo Martins, jornalista, é autor do Manual de Redação e Estilo, de
O Estado de S. Paulo, do livro Com Todas as Letras – O Português Simplificado
e dos Resumões de Língua Portuguesa.

 
 
 
 
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