JUNHO -  2006     N 144
 VITRINE
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  A aventura no veleiro Thalassa pode ser acompanhada no site viagemdothalassa.com.br

á circunstâncias que levam as pessoas a dar uma guinada na vida. Foi o que aconteceu com Zeca do Thalassa. Após descobrir que estava com leucemia e sofrer um transplante de medula, o advogado (que pediu para não ter o nome divulgado) passou a repensar seus valores. Para comemorar o que chama de “retorno à vida” e agradecer a Nosso Senhor do Bonfim, embarcou num veleiro e viajou sozinho de São Paulo até Salvador, enfrentando tempestades, ondas gigantes e a fraqueza que a doença deixou. Ele faz um relato do que passou nestes dois últimos anos:

"O tormento começou em janeiro de 2004, quando descobri que estava com uma leucemia rara e extremamente letal. Foram meses de quimioterapia em doses altíssimas, até me submeter a um transplante de medula, um dos procedimentos mais arriscados da medicina, que faz o Cabo Horn – o terror dos navegantes – parecer brinquedo de criança. Para se ter uma idéia, apenas 30% dos que tentam cruzar esse caminho conseguem ultrapassar os três primeiros meses.

Sou o único sobrevivente daquela época de hospital e não sei dizer por quê. As outras pessoas que fizeram transplante comigo, inclusive mais jovens, não resistiram. Comparo os horrores que vivi aos dos campos de concentração, às histórias relatadas por Primo Levi em vários livros, como Os afogados e os sobreviventes e É isto um homem?. Com uma diferença: Primo Levi diz que se o campo de concentração de Auschwitz existe é porque Deus não existe; na minha viagem, descobri que se meu Auschwitz existiu é porque Deus existe. Nesse caminho, eu, que era agnóstico e marxista, virei religioso e espiritualista. Posso dizer que me transformei em outra pessoa.

Eu era ateu e vi milagres. Como naquela música maravilhosa do Caetano Veloso, agora eu conheço Deus. Além disso, eu era um advogado combativo, muitas vezes até cruel, e não quero mais ser assim. Não tenho mais paciência para brigas com estelionatários e psicopatas, para cinismos e hipocrisias. Parar tudo e construir uma nova história, hoje, é investir na minha possibilidade de viver.

Em meio à angústia do hospital, coloquei na minha cabeça que tinha de ir até a Bahia, fazer essa viagem como um astronauta que viesse à Terra. Apesar dos protestos e da fraqueza gerada pela doença, embarquei sozinho no meu veleiro, o Thalassa (significa mar em grego antigo), com destino a Salvador. Peguei chuva, vento, ondas de mais de três metros de altura, quase tive de retornar para o hospital. Eu navegava um trecho, voltava de avião para consultar o médico, depois continuava. Mas eu tinha que fazer essa viagem. E consegui.

Foi uma experiência maravilhosa. Quando se está sozinho no mar, nas noites escuras, é impossível separar o que é mar do que é céu. Você está navegando dentro do nada. O único som que eu ouvia era o das espumas batendo no barco. Thalassa, thalassa, thalassa... A sensação que eu tinha era de estar viajando em direção às estrelas, para um outro mundo. Passei momentos difíceis, com o barco adernado, duro de comandar, pulando em cima do convés, manejando a vela. Às vezes, a condição física não ajudava, eu sentia um esgotamento enorme. Mas cheguei e me senti plenamente realizado. Emocionei-me demais ao ver a igreja de Nosso Senhor do Bonfim, que é lindíssima, uma imensa contradição de riqueza em meio à miséria. Aquilo me fez sentir extremamente vivo, começar a apreciar a minha experiência, gostar até de ter ficado doente. E de ter vivido. O que passei não foi um feito para a história da navegação, mas, nas minhas condições, foi um feito para a história da oncologia.

Sempre tive medo de tragédias que pudessem estar atrás da porta. Quando a doença veio, ela entrou no quarto, passou a andar ao meu lado. Foi então que pensei: se não me superar, não ousar desafiar meus limites, o medo vai continuar. Fui em busca de autoconfiança, do entendimento do que aconteceu comigo. Era importante compreender a lógica dessa aleatoriedade toda que me escolheu como sobrevivente, assim como escolhe todos nós como sobreviventes das experiências pelas quais passamos todos os dias. Deve haver uma razão, e essa razão é um pouco a nossa história de navegantes na Terra.

Aprendi muita coisa nessa fase difícil. Uma delas, a principal, é que eu precisava mudar. A doença interrompe um projeto de vida e nos leva a reencontrar o próprio caminho, a dar uma guinada. Daqui pra frente, com meus 48 anos, pretendo curtir muito mais minha família, a mulher maravilhosa que me deu tranqüilidade para enfrentar tudo isso e meus quatro filhos (de 27, 13, 11 e 6 anos), que foram a razão de eu continuar lutando. O importante não é sobreviver, mas a maneira como a pessoa sobrevive e no que se transforma. É preciso enfrentar o novo, se expor às vicissitudes. Isso é viver. Minha vida sempre foi muito recatada, cheia de rotina, de compromissos. Talvez até uma fuga para não defrontar o inusitado. Chega uma hora, entretanto, em que se descobre que é necessário mudar.

Durante todo esse percurso, os livros foram ótimos companheiros. Ler é uma de minhas atividades prediletas. Por isso sempre freqüentei – e pretendo continuar freqüentando por muitos anos – a Livraria Cultura. É o parque de diversões de meus filhos, que vão lá desarrumar as estantes, escolher o que mais os atrai e comprar também CDs. E eu fico namorando os livros, até que um me fisga. O lugar é agradável, e gosto muito do Pedro Herz. Acho fascinante a história de seus pais que, quando vieram para o Brasil, conseguiram trazer a biblioteca da família e passaram a alugar os livros. A Livraria Cultura é uma referência.”

 
 
 
 
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