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á circunstâncias que levam
as pessoas a dar uma guinada na vida.
Foi o que aconteceu com Zeca do Thalassa.
Após descobrir que estava com leucemia
e sofrer um transplante de medula, o advogado
(que pediu para não ter o nome
divulgado) passou a repensar seus valores.
Para comemorar o que chama de “retorno
à vida” e agradecer a Nosso
Senhor do Bonfim, embarcou num veleiro
e viajou sozinho de São Paulo até
Salvador, enfrentando tempestades, ondas
gigantes e a fraqueza que a doença
deixou. Ele faz um relato do que passou
nestes dois últimos anos:
"O
tormento começou em janeiro de
2004, quando descobri que estava com uma
leucemia rara e extremamente letal. Foram
meses de quimioterapia em doses altíssimas,
até me submeter a um transplante
de medula, um dos procedimentos mais arriscados
da medicina, que faz o Cabo Horn –
o terror dos navegantes – parecer
brinquedo de criança. Para se ter
uma idéia, apenas 30% dos que tentam
cruzar esse caminho conseguem ultrapassar
os três primeiros meses.
Sou o único
sobrevivente daquela época de hospital
e não sei dizer por quê.
As outras pessoas que fizeram transplante
comigo, inclusive mais jovens, não
resistiram. Comparo os horrores que vivi
aos dos campos de concentração,
às histórias relatadas por
Primo
Levi em vários
livros, como Os
afogados e os sobreviventes
e É
isto um homem?.
Com uma diferença: Primo Levi
diz que se o campo de concentração
de Auschwitz existe é porque Deus
não existe; na minha viagem, descobri
que se meu Auschwitz existiu é
porque Deus existe. Nesse caminho, eu,
que era agnóstico e marxista, virei
religioso e espiritualista. Posso dizer
que me transformei em outra pessoa.
Eu era ateu
e vi milagres. Como naquela música
maravilhosa do Caetano
Veloso, agora eu
conheço Deus. Além disso,
eu era um advogado combativo, muitas vezes
até cruel, e não quero mais
ser assim. Não tenho mais paciência
para brigas com estelionatários
e psicopatas, para cinismos e hipocrisias.
Parar tudo e construir uma nova história,
hoje, é investir na minha possibilidade
de viver.
Em meio
à angústia do hospital,
coloquei na minha cabeça que tinha
de ir até a Bahia, fazer essa viagem
como um astronauta que viesse à
Terra. Apesar dos protestos e da fraqueza
gerada pela doença, embarquei sozinho
no meu veleiro, o Thalassa (significa
mar em grego antigo), com destino a Salvador.
Peguei chuva, vento, ondas de mais de
três metros de altura, quase tive
de retornar para o hospital. Eu navegava
um trecho, voltava de avião para
consultar o médico, depois continuava.
Mas eu tinha que fazer essa viagem. E
consegui.
Foi uma
experiência maravilhosa. Quando
se está sozinho no mar, nas noites
escuras, é impossível separar
o que é mar do que é céu.
Você está navegando dentro
do nada. O único som que eu ouvia
era o das espumas batendo no barco. Thalassa,
thalassa, thalassa... A sensação
que eu tinha era de estar viajando em
direção às estrelas,
para um outro mundo. Passei momentos difíceis,
com o barco adernado, duro de comandar,
pulando em cima do convés, manejando
a vela. Às vezes, a condição
física não ajudava, eu sentia
um esgotamento enorme. Mas cheguei e me
senti plenamente realizado. Emocionei-me
demais ao ver a igreja de Nosso Senhor
do Bonfim, que é lindíssima,
uma imensa contradição de
riqueza em meio à miséria.
Aquilo me fez sentir extremamente vivo,
começar a apreciar a minha experiência,
gostar até de ter ficado doente.
E de ter vivido. O que passei não
foi um feito para a história da
navegação, mas, nas minhas
condições, foi um feito
para a história da oncologia.
Sempre tive
medo de tragédias que pudessem
estar atrás da porta. Quando a
doença veio, ela entrou no quarto,
passou a andar ao meu lado. Foi então
que pensei: se não me superar,
não ousar desafiar meus limites,
o medo vai continuar. Fui em busca de
autoconfiança, do entendimento
do que aconteceu comigo. Era importante
compreender a lógica dessa aleatoriedade
toda que me escolheu como sobrevivente,
assim como escolhe todos nós como
sobreviventes das experiências pelas
quais passamos todos os dias. Deve haver
uma razão, e essa razão
é um pouco a nossa história
de navegantes na Terra.
Aprendi
muita coisa nessa fase difícil.
Uma delas, a principal, é que eu
precisava mudar. A doença interrompe
um projeto de vida e nos leva a reencontrar
o próprio caminho, a dar uma guinada.
Daqui pra frente, com meus 48 anos, pretendo
curtir muito mais minha família,
a mulher maravilhosa que me deu tranqüilidade
para enfrentar tudo isso e meus quatro
filhos (de 27, 13, 11 e 6 anos), que foram
a razão de eu continuar lutando.
O importante não é sobreviver,
mas a maneira como a pessoa sobrevive
e no que se transforma. É preciso
enfrentar o novo, se expor às vicissitudes.
Isso é viver. Minha vida sempre
foi muito recatada, cheia de rotina, de
compromissos. Talvez até uma fuga
para não defrontar o inusitado.
Chega uma hora, entretanto, em que se
descobre que é necessário
mudar.
Durante
todo esse percurso, os livros foram ótimos
companheiros. Ler é uma de minhas
atividades prediletas. Por isso sempre
freqüentei – e pretendo continuar
freqüentando por muitos anos –
a Livraria
Cultura.
É o parque de diversões
de meus filhos, que vão lá
desarrumar as estantes, escolher o que
mais os atrai e comprar também
CDs. E eu fico namorando os livros, até
que um me fisga. O lugar é agradável,
e gosto muito do Pedro Herz. Acho fascinante
a história de seus pais que, quando
vieram para o Brasil, conseguiram trazer
a biblioteca da família e passaram
a alugar os livros. A Livraria
Cultura
é uma referência.”
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