JUNHO -  2006     N 144
 VITRINE
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Quem ri quando goza
é poesia
até quando é prosa
(do livro Desorientais)

om poucas palavras, quanta coisa se pode dizer. Mas trabalhar com essas formas mínimas, compondo poemas deliciosamente consistentes e sonoros, não é tarefa simples. É tarefa para mestre – para Alice Ruiz, mestre em hai-kais. “É assim que ela vem nos proporcionando lampejos de intensidade concentrada, de uma forma muito peculiar, isto é, com muita naturalidade (...) Como alguém que cuida há anos do seu jardim dos fundos, podando limpando semeando regando um espaço que se vai dominando sem domar”, escreveu Arnaldo Antunes, para quem ela, por sua vez, já escreveu várias letras de música.

Natural de Curitiba, Paraná, poeta, haicaísta, letrista, tradutora, publicitária, Alice tem mais de 15 livros publicados. Entre eles, vários de poesia, como Pelos Pêlos, Vice-Versos (prêmio Jabuti em 1989), Desorientais e Yuuka; algumas traduções de hai-kais; um livro de letras musicadas, Poesia pra tocar no rádio; e um de literatura infantil, Nuvem feliz. Como compositora, tem diversas parcerias, com Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, José Miguel Wisnik, Zeca Baleiro, entre outros. São 50 canções já gravadas, outras tantas à espera, além do CD Paralelas (de música e poesia), que reúne as parcerias feitas com Alzira Espíndola, e de outro que está a caminho, de Rogéria Holtz interpretando composições suas.

Desde os primeiros poemas, publicados aos 26 anos, a influência do simbolismo e da poesia oriental já se evidenciava, priorizando aspectos como universalidade, verdade, síntese e emoção contida – mas não reprimida. “Acredito que a poesia é a voz do absolutamente contemporâneo, nomeia os pensamentos e sentimentos da época”, observa a poeta. “Acho inclusive que, se queremos conquistar leitores, temos de apresentar aos jovens primeiro o que os seduzirá, dentro da sua linguagem e do seu contexto, para depois apresentar novas dicções e realidades.”

Em sua trajetória pelo universo da leitura, Alice ressalta obras e autores que foram marcantes: “Aos 18 anos, todas as peças de Sartre e os primeiros livros de Simone de Beauvoir me fizeram perceber o sentido de minhas inquietações e abriram portas para novas inquietações. Em seguida, Fernando Pessoa, James Joyce, Maiakóvski, Mallarmé, Clarice Lispector, Emily Dickinson, Virginia Woolf, Octávio Paz, Jorge Luis Borges, Drummond, João Cabral de Melo Neto, os simbolistas todos e, principalmente, Mario Quintana. Sem esquecer Matsuo Bashô, Kobayashi Issa, Chiyo-ni e tantos outros haicaístas que me trouxeram o zen, o desapego e, portanto, a felicidade. No momento, são Saramago e Mia Couto que dormem ao meu lado e me acordam para outros lados da vida. De todos esses, recomendo qualquer livro, sem exceção.”

A literatura, a seu ver, possibilita olhar para as coisas de outro jeito e, assim, se reinventar. “Através da leitura, é possível apurar o olhar para enxergar o que parece ‘invisível’, mas está o tempo todo diante de nós. A literatura nos dá um outro ‘ver’, o ver de verdade”. Entre os livros que leu recentemente e atraíram seu interesse, ela sugere:

Vozes do Brasil, de Patrícia Palumbo. Um panorama de alguns representantes de primeiríssima linha da nossa MPB hoje. Montado a partir de deliciosas e despretensiosas entrevistas, mostra o que realmente importa saber sobre o assunto.

Brasil século XX - Ao pé da letra da canção popular, de Luciana Salles Worms e Wellington Borges Costa. Uma análise da nossa história nas décadas de 1950 a 1990, pontuada pelas letras de algumas das melhores canções da época. É o que chamo de didático saboroso.

Sem receita, de José Miguel Wisnik. Saber profundo em ensaios sobre literatura e música. Além de canções e letras inspiradas. Vale ler e reler, sempre haverá alguma nova sutileza a redescobrir.

Alta traição, de Carlos Felipe Moisés. Traduções com a necessária traição, como o título já diz, para respeitar a estética dos poemas de autores como Proust, Alfred Jarry, Apollinaire, Vicente Aleixandre, W.H. Auden e Carolyn Creedon – interessantíssima descoberta do tradutor –, entre outros.

No Urubuquaquá, no Pinhém, de João Guimarães Rosa. É um prazer enorme, depois de tantos anos, reler esses contos que me encantaram e que ressurgem, agora, com absoluto sabor de novidade.

As grandes religiões, organização de Burkhard Scherer. Nele, as principais características de cada religião são levantadas e cotejadas. Um instrumento importante para quem pesquisa os mistérios da alma humana.

Coivara da memória, de Francisco J.C. Dantas. Romance com muito de autobiográfico e escrita inovadora, sempre a partir das raízes. Recursos modernos de linguagem, tendo como fundo a memória e o regionalismo.

Cores proibidas, de Yukio Mishima. O autor tem a capacidade de combinar sutileza e violência, análise e sensibilidade, numa ótica irreverente, mas ao mesmo tempo tradicional. É sua contradição que me atrai.

A vida íntima das palavras, de Deonísio da Silva. Fala das origens e curiosidades da nossa língua. É um consolo para a enorme carência que temos de um bom dicionário etimológico. A raiz das palavras nos dá, além da poesia que já está ali, embutida, uma nova compreensão da linguagem, da fala, da escrita e, portanto, do pensamento.

Contos completos, de Virginia Woolf. Apesar de preferir a ficção de maior peso da autora, é muito enriquecedor viajar por seus contos, com a mesma análise delicada, porém contundente, dos mais simples fatos do cotidiano, e poder sentir, em alguns deles, o embrião de seus romances. Além de ser um exemplar hardcover, da maior elegância e bom gosto.

 
 
 
 
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