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Quem
ri quando goza
é poesia
até quando é prosa
(do livro Desorientais)
om
poucas palavras, quanta coisa se pode dizer.
Mas trabalhar com essas formas mínimas,
compondo poemas deliciosamente consistentes
e sonoros, não é tarefa simples.
É tarefa para mestre – para
Alice
Ruiz, mestre em hai-kais.
“É assim que ela vem nos proporcionando
lampejos de intensidade concentrada, de
uma forma muito peculiar, isto é,
com muita naturalidade (...) Como alguém
que cuida há anos do seu jardim dos
fundos, podando limpando semeando regando
um espaço que se vai dominando sem
domar”, escreveu Arnaldo
Antunes, para quem
ela, por sua vez, já escreveu várias
letras de música.
Natural
de Curitiba, Paraná, poeta, haicaísta,
letrista, tradutora, publicitária,
Alice tem mais de 15 livros publicados.
Entre eles, vários de poesia, como
Pelos Pêlos, Vice-Versos
(prêmio Jabuti em 1989), Desorientais
e Yuuka;
algumas traduções de hai-kais;
um livro de letras musicadas, Poesia
pra tocar no rádio;
e um de literatura infantil, Nuvem
feliz.
Como compositora, tem diversas parcerias,
com Itamar Assumpção, Arnaldo
Antunes, José
Miguel Wisnik,
Zeca
Baleiro, entre
outros. São 50 canções
já gravadas, outras tantas à
espera, além do CD Paralelas
(de música e poesia), que reúne
as parcerias feitas com Alzira Espíndola,
e de outro que está a caminho, de
Rogéria Holtz interpretando composições
suas.
Desde os primeiros
poemas, publicados aos 26 anos, a influência
do simbolismo e da poesia oriental já
se evidenciava, priorizando aspectos como
universalidade, verdade, síntese
e emoção contida – mas
não reprimida. “Acredito que
a poesia é a voz do absolutamente
contemporâneo, nomeia os pensamentos
e sentimentos da época”, observa
a poeta. “Acho inclusive que, se queremos
conquistar leitores, temos de apresentar
aos jovens primeiro o que os seduzirá,
dentro da sua linguagem e do seu contexto,
para depois apresentar novas dicções
e realidades.”
Em
sua trajetória pelo universo da leitura,
Alice ressalta obras e autores que foram
marcantes: “Aos 18 anos, todas as
peças de Sartre
e os primeiros livros de Simone
de Beauvoir me fizeram
perceber o sentido de minhas inquietações
e abriram portas para novas inquietações.
Em seguida, Fernando
Pessoa, James
Joyce, Maiakóvski,
Mallarmé,
Clarice
Lispector, Emily
Dickinson, Virginia
Woolf, Octávio
Paz, Jorge
Luis Borges, Drummond,
João
Cabral de Melo Neto,
os simbolistas todos e, principalmente,
Mario
Quintana. Sem esquecer
Matsuo
Bashô, Kobayashi
Issa, Chiyo-ni
e tantos outros haicaístas que me
trouxeram o zen, o desapego e, portanto,
a felicidade. No momento, são Saramago
e Mia
Couto que dormem ao
meu lado e me acordam para outros lados
da vida. De todos esses, recomendo qualquer
livro, sem exceção.”
A
literatura, a seu ver, possibilita olhar
para as coisas de outro jeito e, assim,
se reinventar. “Através da
leitura, é possível apurar
o olhar para enxergar o que parece ‘invisível’,
mas está o tempo todo diante de nós.
A literatura nos dá um outro ‘ver’,
o ver de verdade”. Entre os livros
que leu recentemente e atraíram seu
interesse, ela sugere:
Vozes
do Brasil,
de Patrícia
Palumbo. Um panorama
de alguns representantes de primeiríssima
linha da nossa MPB hoje. Montado a partir
de deliciosas e despretensiosas entrevistas,
mostra o que realmente importa saber sobre
o assunto.
Brasil
século XX - Ao pé da letra
da canção popular,
de Luciana
Salles Worms e Wellington
Borges Costa. Uma análise
da nossa história nas décadas
de 1950 a 1990, pontuada pelas letras de
algumas das melhores canções
da época. É o que chamo de
didático saboroso.
Sem
receita,
de José
Miguel Wisnik. Saber
profundo em ensaios sobre literatura e música.
Além de canções e letras
inspiradas. Vale ler e reler, sempre haverá
alguma nova sutileza a redescobrir.
Alta
traição,
de Carlos
Felipe Moisés.
Traduções com a necessária
traição, como o título
já diz, para respeitar a estética
dos poemas de autores como Proust,
Alfred
Jarry, Apollinaire,
Vicente
Aleixandre, W.H.
Auden e Carolyn Creedon
– interessantíssima descoberta
do tradutor –, entre outros.
No
Urubuquaquá, no Pinhém,
de João
Guimarães Rosa.
É um prazer enorme, depois de tantos
anos, reler esses contos que me encantaram
e que ressurgem, agora, com absoluto sabor
de novidade.
As
grandes religiões,
organização de Burkhard
Scherer. Nele, as principais
características de cada religião
são levantadas e cotejadas. Um instrumento
importante para quem pesquisa os mistérios
da alma humana.
Coivara
da memória,
de Francisco
J.C. Dantas. Romance
com muito de autobiográfico e escrita
inovadora, sempre a partir das raízes.
Recursos modernos de linguagem, tendo como
fundo a memória e o regionalismo.
Cores
proibidas,
de Yukio
Mishima. O autor tem
a capacidade de combinar sutileza e violência,
análise e sensibilidade, numa ótica
irreverente, mas ao mesmo tempo tradicional.
É sua contradição que
me atrai.
A
vida íntima das palavras,
de Deonísio
da Silva. Fala das
origens e curiosidades da nossa língua.
É um consolo para a enorme carência
que temos de um bom dicionário etimológico.
A raiz das palavras nos dá, além
da poesia que já está ali,
embutida, uma nova compreensão da
linguagem, da fala, da escrita e, portanto,
do pensamento.
Contos
completos,
de Virginia
Woolf. Apesar de preferir
a ficção de maior peso da
autora, é muito enriquecedor viajar
por seus contos, com a mesma análise
delicada, porém contundente, dos
mais simples fatos do cotidiano, e poder
sentir, em alguns deles, o embrião
de seus romances. Além de ser um
exemplar hardcover, da maior elegância
e bom gosto.
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