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amelos
também choram registra
o episódio real de uma mãe
camela que, após um parto demorado
e complicado, rejeita seu filhote recém-nascido,
um raro albino. Mas o belíssimo documentário,
rodado durante a primavera no Deserto de
Gobi, no sul da Mongólia, mostra
mais do que o drama animal. São desvelados,
de maneira leve e graciosa, os costumes
e as tradições do povo mongol,
o cotidiano de uma família de pastores
nômades, os contrastes provocados
pela chegada da civilização
e da modernidade em um lugar ermo. O espectador
praticamente não nota interferências
externas – é como se a câmera
fosse um equipamento auto-suficiente e solitário,
gravando cenas no silêncio de um olhar.
A ação
do filme gira em torno do impasse da camela
e de seu filho abandonado, que necessita
de amamentação e carinho materno
para sobreviver. Todas as tentativas dos
criadores para uni-los fracassam. Os anciãos
da família a que pertencem os camelos
decidem, então, recorrer à
sabedoria milenar, passada de geração
em geração, e enviam dois
garotos até a cidade em busca de
um violinista. O músico é
convocado para realizar o ritual Hoos, em
que o som emitido por um violino arcaico,
de duas cordas, acompanhado de um mantra,
é capaz de sensibilizar a mãe
camela e induzi-la a aceitar sua cria. Os
mongóis acreditam que, para cada
animal, existe um som correspondente, ou
seja, um som capaz de emocioná-lo
e fazê-lo sentir-se mais próximo
dos humanos.
Marcada
pela sutileza inerente ao enredo, ao cenário
e aos personagens (todos reais), a produção
convida a uma sensível e exótica
viagem cultural, repleta de descobertas.
Para reforçar a forte ligação
dos mongóis com a natureza, exibe
ainda outro ritual, que celebra os espíritos
da natureza. Segundo a crença mongol,
esses espíritos protegem o homem
do mau tempo e das doenças.
No
decorrer do longa-metragem, também
são contadas curiosas lendas. Entre
elas, a de que o camelo desejava integrar
o zodíaco chinês, e, como não
foi incluído, Deus resolveu compor
seu corpo juntando diferentes partes dos
animais do horóscopo. Outro conto
lendário afirma que o camelo teria
emprestado seus chifres a um veado, para
que este fosse a uma festa. E é por
isso que os camelos vivem com os olhos fixados
no horizonte, à espera de que o veado
regresse e os devolva.
Em
Camelos
também choram,
os animais, além de protagonistas,
transmitem uma lição
de humanidade. Na visão do
italiano Luigi Falorni
– que assina a direção
junto com Byambasuren Davaa,
nascida na Mongólia –,
“é uma história
de salvação, da perda
do amor e da luta para reconquistá-lo”.
O diretor completa: “O pequeno
camelo faminto representa todos
nós, em nossa constante busca
de proteção, necessitando
fazer parte de alguma coisa, ter
seu próprio lugar. Seu destino
é uma prova clara de que
a vida não é possível
sem amor”.
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