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Myrian
Romero: “Através da
arte
é possível externar
os sentimentos
de forma espontânea” |
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telefonema para um
amigo, no jeito de cumprimentar... Quanto
mais você fizer as mesmas coisas
de maneiras diferentes, deixando fluir
o novo, mais vitalidade, alegria e força
psíquica terá.”
Sensação de vazio, desmotivação,
incapacidade de cultivar o prazer, de
rir e se encantar com coisas simples,
na avaliação da arteterapeuta,
são sinais evidentes de que está
na hora de sair da rotina, de vitalizar
o corpo e a mente. Tirando os casos de
problemas físicos ou psicológicos
graves, se a pessoa sente uma leve depressão,
em geral é porque está num
estado de mesmice há muito tempo.
Ficar arraigado a hábitos e comportamentos
que não têm nada a ver com
seus verdadeiros desejos é limitador
e impede o crescimento pessoal.
“Um
pouco de método e disciplina é
necessário para alcançar objetivos.
Mas isso não significa ser rígido”,
explica. “Ser disciplinado e ter um
propósito não quer dizer ficar
radicalmente aprisionado a idéias
preconcebidas. É importante exercitar
a flexibilidade. Até porque essa
é uma exigência profissional
hoje. As empresas mudam com extrema velocidade;
quem não se atualiza e resiste a
rever conceitos, a se abrir para o novo,
acaba gerando conflitos e se tornando inadequado,
mesmo que tecnicamente seja competente.”
O que leva
o indivíduo a uma rotina nociva,
a seu ver, é o fato de estar desconectado
de si mesmo e agir de acordo com o script
cultural ou social, deixando de fazer escolhas
conscientes. “A gente pode começar
cada dia como um novo dia ou fazer tudo
sempre igual. Posso expressar minha alegria
chegando ao trabalho com flores ou com um
chocolate para os colegas”, exemplifica,
“como posso dar um bom dia menos efusivo,
externando minha tristeza também
de modo criativo, até brincando com
aquilo em vez de ficar com a cara fechada.
Mas seu eu estiver no piloto automático,
sem saber se estou triste ou alegre, provavelmente
vou dar o mesmo bom dia viciado de todos
os dias, no mesmo tom, na mesma seqüência,
sem sequer prestar atenção
nas pessoas ao redor.”
A proposta
é: “Aprenda a se perceber melhor
e a usar a intuição, agindo
com autonomia e autenticidade a cada momento.
Tome cuidado com o hábito, pois ele
é mais rápido do que você.
Acostume-se a interferir nas mínimas
coisas. Comece devagar, mas comece. Experimente
dormir do outro lado da cama, pedir um prato
diferente no restaurante, mudar o caminho
para ver outras casas, outras árvores
e pessoas. Teste os limites do próprio
corpo – se você sempre faz as
coisas com a mão direita, por exemplo,
tente fazer com a esquerda, para ver como
funciona, conhecer seu grau de dificuldade
e, quem sabe, descobrir habilidades.”
No trabalho
terapêutico individual e em grupo
que desenvolve há mais de dez anos,
exercitando o contato com o corpo e com
a arte, Myrian percebe que, muitas vezes,
o paciente é movido pelo sistema
há tanto tempo que acha difícil
até identificar as próprias
preferências. Não sabe se prefere
o verde, o azul ou o amarelo, ir ao cinema
ou fazer um esporte radical no fim de semana.
“Procuro aguçar a percepção
da pessoa sobre si e, depois, motivar seu
potencial criativo, a espontaneidade e a
ousadia. Mexer com a arte de um jeito gostoso,
lúdico, lidando com texturas, cores
e formas, propicia externar espontaneamente
os sentimentos e ajuda a resgatar os gostos
esquecidos. É um estímulo
positivo, em especial para aqueles que nunca
foram incentivados a nutrir a criatividade.”
O ponto de
partida, segundo ela, é o autoconhecimento.
Reconhecer-se, conhecer suas qualidades
e dificuldades, trabalhar a auto-estima
para ter coragem de ousar. “Sem isso
você não muda; a vida é
que muda você. Escolha mudar por desejo
de crescimento, permitindo-se arriscar.
O universo nos mostra que tudo muda o tempo
todo: as estações, a lua,
a noite, o dia, o sol, a chuva... Nada é
estático. Há sempre um ciclo
que se fecha, não por ter sido ruim,
mas porque passou. É importante entender
que passou, que é hora de ampliar
seus horizontes e se abrir para novas experiências.
O que você vai escolher fazer daqui
para a frente? Quais são seus sonhos?”
“Mesmo
no campo profissional, você pode se
arriscar em novos desafios”, enfatiza.
“Às vezes a pessoa sente um
certo desânimo, acha que a vida está
chata e, na verdade, não está
é ouvindo seu chamado interno de
que é tempo de renovação.
Como dizer que a vida é sem graça
diante de uma natureza tão exuberante?
O momento atual pode ser trabalhoso, mas
como pode ser sem graça, com tantas
coisas novas para lidar? Tente olhar por
outro ângulo.”
A arteterapeuta
reitera seu ponto de vista de que a mesmice
não é inerente ao ser humano.
Isso fica claro, a seu ver, quando estamos
em harmonia com o corpo e com a natureza.
“O próprio organismo sofre
modificações constantes –
os hormônios mudam, células
se regeneram, cabelos e unhas crescem...
Se aceitarmos nossa humanidade e não
ficarmos presos a estereótipos e
exigências excessivas de perfeição
estética, social, financeira, muito
nutridas pela mídia no mundo contemporâneo,
com certeza teremos mais humor e imaginação
para viver o dia-a-dia. Além disso,
a flexibilidade leva a aceitar melhor o
outro e a julgá-lo menos, entendendo
que o diferente não é ruim,
é apenas diferente, e que visões
diversas podem coexistir.”
Ela constata
que há uma resistência instintiva
a mudanças, por medo do desconhecido,
acomodação, preguiça,
baixa auto-estima. Não é confortável
sair da zona de segurança, desapegar-se
da própria imagem e arriscar-se a
deixar transparecer falhas e dificuldades.
Entretanto, sustenta que essa coragem é
essencial para evoluir e se tornar uma pessoa
melhor. Isso sem falar na possibilidade
de reavivar qualidades e talentos adormecidos.
Foi provado, por meio de pesquisas, que
aqueles que não se enquadram em padrões
predeterminados e constroem valores genuínos
por opção, não por
imposição, vivendo sua verdade
a cada dia, são mais felizes.
“Ser
criativo nada mais é do que ser você
mesmo”, afirma. “Para assumir
seu jeito de ser e expandir sua criatividade,
é necessário primeiro estar
em contato com seu eu interior e com as
transformações que ocorrem
no seu organismo. A partir daí, procure
habituar-se a mudanças, nutrir o
novo. Se você estiver criativo, provavelmente
vai encarar as contrariedades de maneira
mais leve, às vezes até brincando.
Pare e pense: será que isso é
tão importante? Que saídas
eu teria? Exercitando a imaginação,
a gente consegue mudar o estado de espírito.
A criatividade e o bom humor andam de mãos
dadas.”
Nesse processo
de retomada pessoal e renovação,
Myrian Romero considera a leitura imprescindível.
“Leia um livro de filosofia, de mitologia,
de culinária, um bom romance, um
poeta que você não conhece,
um livro em outra língua”,
aconselha. “Não se fixe em
um único gênero, não
fique aprisionado a nada, deixe sua mente
se expandir. Leia algum autor novo que tenha
sido recomendado pela crítica e despertou
seu interesse, veja novas formas de construir
uma história, aprenda novas palavras.
Isso será valioso para ampliar sua
visão de vida.” |