eis
mal escritas não provocam confusões
apenas na vida das empresas ou das pessoas,
mas também no campo da linguagem,
como aconteceu com uma norma de 1971
a respeito da acentuação
de alguns vocábulos.
A reforma
ortográfica de 1943 criou um
mecanismo destinado a distinguir palavras
de grafia igual. Chamado, por isso,
de acento diferencial, ele
introduzia, por exemplo, um circunflexo
em êle, pronome,
por causa de ele (éle),
letra; almôço,
refeição, carregava o
sinal por causa de almoço
(almóço), do verbo almoçar.
Dualidades
como essas dispensavam maior conhecimento
do vocabulário da língua
portuguesa. Não era, porém,
o que ocorria em outros casos. Assim,
tôda (inteira)
tinha acento para diferenciar-se de
toda (tóda),
um passarinho ou língua e povo
da Índia. Estêve, do verbo
estar, levava circunflexo porque existe
esteve (estéve),
do verbo estevar (dirigir o
arado).
Como o
uso correto da regra impunha o conhecimento
da quase totalidade das palavras do
idioma, o governo decidiu simplificar
a situação. Uma lei de
18/12/1971 abolia “o acento circunflexo
diferencial na letra e
e na letra o da sílaba
tônica das palavras homógrafas
de outras em que são abertas
a letra e e a letra o, exceção
feita da forma pôde,
que se acentuará por oposição
a pode”.
A instrução
deixava claro que caía o acento
de timbre fechado (circunflexo)
de palavras que tinham a mesma grafia
de outras de som aberto.
Com a exceção, já
mencionada, de pôde.
O autor do texto, porém,
não levou em conta a existência
do acento diferencial em palavras da
mesma grafia e do mesmo
som, como, por exemplo, pôr,
verbo, acentuado para se distinguir
de por, preposição.
A omissão deixou o verbo pôr
fora da regra. Por isso, ele mantém
o circunflexo, que não existe,
ressalte-se, nos seus derivados: pôr,
mas repor, dispor,
compor, etc.
Pela mesma razão,
pára, do verbo
parar, conservou o sinal que o diferenciava
de para, preposição.
Como ambas as formas têm som aberto,
ainda hoje é preciso escrever:
Ele sempre pára
no sinal fechado. O acento permanece
nas palavras compostas iniciadas por
essa flexão: pára-quedas,
pára-lama, pára-brisa.
Por omissão idêntica,
o sinal persistiu em côa
e côas (verbo
coar ou coação),
por causa das contrações
coa e coas (de som fechado também);
em péla, pélas,
pélo, pêlo
e pêlos (verbo
pelar, ou sinônimo de
bola e jogo, ou ainda cabelo),
por causa das contrações
pela, pelas,
pelo e pelos;
pêra, mas não
peras (fruta, barba
ou interruptor), por causa
de pera (forma antiga
de para); Pêro
(nome próprio ou fruta),
por causa de pero (o
mas arcaico); pólo
e pólos, por
causa das contrações polo
e polos.
Fôrma
poderia ter mantido o acento em razão
de forma (fórma),
evitando confusões como esta
citada pelo dicionário Houaiss:
A forma (ó)
das formas (ô)
de sapato alterou-se com o tempo.
Exigir lógica desse tipo de lei,
no entanto, seria pedir demais.