Como
vê o atual cenário da literatura
brasileira?
O que me chama a atenção
na literatura contemporânea brasileira
é a vitalidade deste momento. Há
um número imenso de novos (e bons)
autores escrevendo ao mesmo tempo e uma
diversidade interessante de vozes. Vejo
também muita diversidade temática,
o que é bom e necessário
para dar conta de um Brasil tão
fragmentado.
Que
caminhos a produção literária
vem percorrendo nas últimas décadas?
Minha formação como escritor
e leitor se deu, sobretudo, na década
de 1970, quando vigorava o conto como gênero
predominante. Foi a época de ouro
do conto brasileiro, com o surgimento de
escritores como Domingos
Pellegrini,
Sergio
Sant'Anna, Caio
Fernando Abreu,
Rubens
Figueiredo e
Roberto
Drummond e a
consolidação da obra de autores
que já vinham publicando anos antes,
como Rubem
Fonseca, João
Antônio,
Dalton
Trevisan, Luiz
Vilela, Ignácio
de Loyola Brandão,
Wander
Piroli e outros.
O conto foi praticamente banido na década
seguinte, quando prosperaram os livros-depoimento
e também o romance histórico.
Nos anos 1990, houve um boom de
novos escritores, sobretudo por conta do
surgimento de um grande número de
pequenas editoras. Hoje há muita
gente escrevendo e publicando e uma indiscutível
variedade de discursos literários.
Claro que é cedo para dizer quem
tem importância ou não neste
panorama – só o tempo vai fazer
essa triagem.
Houve
mudanças significativas na área
editorial?
Acho que hoje em dia é mais fácil
para um autor publicar seu primeiro livro,
pois existe um universo de possibilidades
editoriais entre grandes, médias
e pequenas editoras. A mídia, ao
contrário de outros tempos, quando
só abria espaço para grandes
editoras, hoje trata da mesma forma o autor
que publicou por uma casa tradicional e
aquele que publicou por uma editora nanica.
O
que se faz e pensa em literatura hoje?
Percebo muita gente se queixando de que
a literatura brasileira só se ocupa
do real e só fala da violência
urbana, mas acho que essa é uma visão
equivocada. Há literaturas para todos
os gostos, e a de cunho realista é
apenas uma delas. Outro dado fundamental:
nunca na história da literatura brasileira
houve tantas mulheres escrevendo (e bem)
ao mesmo tempo. Cito algumas cuja literatura
me agrada muito: Ivana
Arruda Leite,
Adriana
Lisboa, Andrea
del Fuego, Tércia
Montenegro,
Índigo,
Cintia
Moscovich.
Quem
são os escritores contemporâneos
de maior destaque?
Pessoalmente, acompanho com atenção
a trajetória de vários autores
contemporâneos. Entre eles, um destaque
é Luiz
Ruffato, escritor
da minha geração com um claro
projeto literário e, mais que isso,
com profundas marcas de humanismo naquilo
que escreve. No momento ele está
envolvido com uma realização
arrojada: um conjunto de cinco livros intitulado
Inferno provisório
(dois volumes já foram publicados,
Mamma
Son Tanto Felice e
O
mundo inimigo),
abordando o processo de transformação
que ocorreu no país nas últimas
décadas. Entre os escritores mais
novos, gosto do carioca João
Paulo Cuenca,
que estreou com um romance muito bom, chamado
Corpo
presente.
Gosto também dos gaúchos Daniel
Galera e Paulo
Scott.
Entre
os clássicos, quais os que resistiram
mais vigorosamente ao tempo ou até
ganharam novo vigor?
O escritor clássico é uma
espécie de matriz, pois sua obra
vai sempre influenciar novas gerações
de escritores. O clássico sempre
poderá ser lido por uma perspectiva
nova, daí ser clássico. Penso
que isso vale para gente como Machado
de Assis, Graciliano
Ramos, Guimarães
Rosa, Drummond,
Jorge
de Lima, Clarice
Lispector, João
Cabral e Osman
Lins. Talvez
seja um pouco ousado, mas eu me arrisco
a pensar que alguns autores relativamente
recentes (estão vivos ainda) têm
uma obra que já dá mostras
de ter entrado para o cânone. Caso
do Raduan
Nassar e suas
duas novelas Lavoura
arcaica
e Um
copo de cólera.
E também do Rubem
Fonseca, que,
a meu ver, já tem lugar garantido
na história da literatura nacional,
entre outras coisas, por ter dado feição
ao moderno conto urbano brasileiro, sobretudo
com a primeira parte de sua obra.
Quais
os gêneros mais expressivos atualmente?
É difícil falar em gênero
predominante, dada a pluralidade de autores
e estilos. Do ponto de vista mercadológico,
entretanto, é possível notar
grande interesse por uma literatura que
fale do real imediato, dessa realidade conflagrada
que estamos vivendo.
Considera
inevitável que o escritor seja influenciado
por sua época?
Um escritor não escapa ao seu tempo.
Para o bem e para o mal. Mesmo que não
se ocupe do real como tema e procure abrigo
literário em outra época,
estilo ou enfoque, ele sempre estará
sujeito ao seu tempo. Ninguém está
livre de suas circunstâncias históricas.
Em alguma instância, a literatura
é também um depoimento sobre
o tempo em que foi produzida. Acredito que
é nesse sentido que o real aparece
quase in natura nos escritos de
vários autores neste momento. Mas
mesmo com o aspecto documental muito pronunciado,
trata-se de literatura, e não de
jornalismo – em muitos casos, de boa
literatura. E é isso que importa.
O
leitor de hoje valoriza a boa literatura?
Acredito que o número de pessoas
que se interessam de verdade por literatura
atualmente corresponda a uma minoria, mas
é uma minoria que vale a pena. Gente
que enxerga a experiência literária
como algo importante para suas vidas. Algo
indispensável. Isso está se
tornando raro, a meu ver. Eu sempre fico
muito triste quando entro pela primeira
vez numa casa e não vejo livros.
Mas hoje em dia, com a internet, o pessoal
não tem nem lista telefônica.
No
atual contexto literário, a poesia
ocupa lugar de destaque?
A poesia, a exemplo da prosa, também
vive um momento muito interessante. Na verdade,
apesar de prosador, gosto muito de ler poemas.
Entre os novos, acompanho com atenção
e gosto do trabalho de gente como Carpinejar,
Ademir
Assunção,
Donizete
Galvão,
Luiz
Guedes, Rodrigo
Garcia Lopes,
Aníbal
Cristobo, Carlito
Azevedo e um
longo etc.
E
a literatura infanto-juvenil, como tem evoluído?
Tive uma boa experiência com a literatura
juvenil: publiquei quatro títulos
na coleção Vaga-Lume,
da Ática. São os chamados
livros paradidáticos, que são
adotados em escolas pelo Brasil todo. Acho
interessante como forma de criar leitores,
embora eu me preocupe quando essa leitura
é imposta ao aluno (são obrigados
a ler e a fazer provas sobre o que leram).
Literatura deve ser sempre fonte de prazer
e deleite, nunca obrigação.
Claro que existem professores criativos
por aí (conheci muitos, felizmente),
que recusam esse modelo e procuram outras
maneiras de seduzir os futuros leitores.
Vi experiências bem interessantes
em minhas andanças por escolas.
Como
definiria a importância do livro para
a evolução de um país?
Um país que abre mão do livro
como instrumento cultural é um país
condenado à obscuridade.
De
que forma se poderia ampliar o acesso ao
livro no Brasil?
Outro dia, eu estava numa palestra com o
escritor Luiz
Ruffato e ele
disse que falta ao Brasil hoje uma política
educacional, e não uma política
cultural. Ele tem razão. Nós
temos sérios problemas de base, que
nem vale a pena ficar arrolando aqui. Como
é que podemos pensar que livro será
importante para pessoas que têm outras
prioridades (todas legítimas e urgentes)?
No Brasil, na minha opinião, houve
um recuo assustador do ponto de vista cultural.
A barbárie, como sabemos, tem triunfado
por aqui. O que existe – e dá
alento – são algumas ilhas.
Mas, repito, são minorias.
Quais
as perspectivas no campo literário?
Acho que é impossível arriscar
qualquer previsão. Apesar de tudo,
acredito que o livro tal qual o conhecemos
hoje nunca desaparecerá. (Note-se
que o e-book, a despeito de todo
alarde, nunca decolou; até mesmo
best sellers como Stephen
King descobriram
isso.) Não importam os avanços
tecnológicos, sempre existirá
alguém interessado em compartilhar
histórias na forma como acontece
hoje: escritor-livro-leitor. Talvez seja
um universo pequeno, mínimo. Não
importa. É com esses leitores que
os escritores estarão dialogando.
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