OUTUBRO -  2006     N 148
 VITRINE
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que leva a maioria das pessoas a sonhar com um sanduíche gorduroso ou um doce de chocolate? O médico inglês Robert Winston, um dos cientistas mais conhecidos na Grã-Bretanha, analisa estas e outras questões em sua obra Instinto humano. O livro discute o quanto do comportamento humano é influenciado por impulsos primitivos. Em outras palavras, como o homem moderno se assemelha ao homem primitivo quando os instintos de sobrevivência estão em jogo.

Sobre o banquete calórico, Winston lembra o dia-a-dia de nossos ancestrais. A combinação "carne e doce" mata a fome mais rapidamente e, naquele tempo, esse tipo de alimento era escasso. Se hoje ficamos felizes quando vemos o anúncio de fast-food é porque se conservou em nosso inconsciente o desejo maior dos homens que habitavam as savanas africanas, nosso berço pré-histórico.

Para o autor, o instinto é uma mão invisível que está presente em toda a nossa vida. O pesquisador acompanha desde os traços mais básicos, como o da sobrevivência – que à luz da genética significa preservar nossos genes e transmiti-los ao máximo de descendentes – até os valores que parecem ter sido moldados pela vida em sociedade: preservação da prole, contenção da violência, senso de família e de grupo.

Como exemplo, ele cita o mito da madrasta má, presente em aldeias indígenas e metrópoles. Padrastos e madrastas "não querem gastar seus preciosos recursos em crianças que não tenham seus genes", diz o autor. A ciência reconhece o instinto, mas padrões de conduta condenam extremos, como o infanticídio. Ainda assim, até hoje, entre os índios Ache, o futuro de uma criança cujo pai morreu é incerto se ela vier a ter um padrasto.

Até o enjôo matinal das grávidas parece ser um instinto preservado. Durante os três primeiros meses de gestação, o corpo da mulher precisa se habituar à presença de uma criança em seu útero. Seu sistema imunológico "baixa a guarda", deixando-a suscetível à invasão de bactérias e vírus. Para evitar doenças, certamente prejudiciais ao bebê nessa fase, a mãe se abstém de prováveis agentes infecciosos. Qualquer indício de contaminação alimentar, por menor que seja, provoca náusea, o que acaba gerando rejeição a alimentos de origem animal como carnes, ovos e leite.

Um dos aspectos curiosos do livro, que originou inclusive uma série exibida no Fantástico da TV Globo, refere-se às teorias sobre o cérebro, órgão superestimado que nos diferencia dos macacos, nossos "parentes" mais próximos. Por que nosso cérebro é três vezes maior que o de um primata? Por que ele se especializou tanto, desenvolvendo uma área enorme para associação e linguagem? O cientista evita respostas conclusivas. Talvez tenhamos um cérebro maior para aumentar nosso sucesso evolutivo no planeta, e por isso aprendemos a nos comunicar – avisar quando há perigo ou quando acabou a comida, por exemplo.

Num outro extremo, é possível dizer que o cérebro – ou o uso adequado dele, perceptível durante um bom papo – funcione como atrativo entre homens e mulheres, um recurso usado para encantar, tal qual a cauda colorida do pavão durante o flerte... Esse é apenas o começo das divertidas observações apresentadas em Instinto humano.

 
 
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