costumados
a seguir à risca a recomendação
de que “o verbo concorda com seu
sujeito”, muitos de nós
talvez achemos estranhas construções
como: Os brasileiros somos
céticos a respeito de tudo.
/ Os jornalistas escrevemos
sobre os mais variados assuntos.
O adequado,
para cumprir a norma, não deveria
ser: Os brasileiros são
céticos a respeito de tudo.
/ Os jornalistas escrevem
sobre os mais variados assuntos?
Por mais
que a gramática estabeleça
regras muito definidas em grande parte
dos casos, nem sempre, porém,
elas são imutáveis. Em
algumas ocasiões, até,
seguem figurino bastante diferente do
habitual.
Em “os
brasileiros somos céticos
a respeito de tudo”, o autor do
texto recorreu à primeira pessoa
do plural (nós)
porque se considerou um dos brasileiros
céticos. Se dissesse “os
brasileiros são céticos...”,
não ficaria clara a sua inclusão
entre eles. O mesmo ocorre quando eu,
por exemplo, como profissional de imprensa,
afirmo: “Os jornalistas escrevemos
sobre os mais variados assuntos.”
Dessa forma pretendo mostrar que faço
parte de um grupo que trata das mais
diversas questões.
Outros exemplos: Todos
decidimos sair
(eu com eles ou nós
com eles). / Éramos
oito na casa. / O
problema é mais difícil
do que supomos os leigos.
A idéia pode ainda
ser o fio condutor na concordância
nominal, que define a relação
de gênero (masculino
e feminino) e número
(singular e plural) do adjetivo com
o substantivo. O que vale para o adjetivo
se aplica também ao pronome,
artigo, numeral e particípio.
Um caso característico
é o das estruturas reverenciosas
de tratamento, em que o adjetivo ou
particípio concorda com
o sexo da pessoa mencionada,
e não com a forma
em si: Vossa Majestade é
magnânimo
(para um rei). / Vossa Majestade
é magnânima
(para uma rainha). / Vossa Excelência
está errado
(para um deputado, por exemplo). / Vossa
Excelência está errada
(para uma deputada).
Com relação
ao papa, obviamente, só se adota
o masculino: Sua Santidade chegou
atrasado. Se a
Igreja Católica vier a admitir
a presença de uma mulher no cargo
máximo do Vaticano, então
o correto será: Sua Santidade
chegou atrasada.
E o mundo terá então uma
papesa ou papisa.
O adjetivo, pronome, artigo,
etc., pode também concordar com
o gênero da coisa subentendida,
e não com o nome que a expressa.
Por isso, quando se informa que “a
Planeta lançou mais cinco
livros”, está-se pensando
na editora Planeta, e não
num astro.
Outros exemplos: A
Ipiranga forma uma esquina
famosa com a São João
(o a indica avenida).
Na frase o Joelma
foi totalmente reconstruído,
o nome de mulher passa a se referir
ao edifício.
É possível
a mesma denominação levar
o adjetivo ou artigo para o feminino
ou masculino, conforme o conceito implícito:
São Paulo é o mais
populoso (Estado).
/ São Paulo é a mais
populosa (cidade).
/ O sinuoso
Paraíba (rio). / A
encantadora Paraíba
(Estado). / O Fiesta
(carro). / A Saveiro
(picape).