OUTUBRO -  2006     N 148
 VITRINE
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costumados a seguir à risca a recomendação de que “o verbo concorda com seu sujeito”, muitos de nós talvez achemos estranhas construções como: Os brasileiros somos céticos a respeito de tudo. / Os jornalistas escrevemos sobre os mais variados assuntos.

O adequado, para cumprir a norma, não deveria ser: Os brasileiros são céticos a respeito de tudo. / Os jornalistas escrevem sobre os mais variados assuntos?

Por mais que a gramática estabeleça regras muito definidas em grande parte dos casos, nem sempre, porém, elas são imutáveis. Em algumas ocasiões, até, seguem figurino bastante diferente do habitual.

Em “os brasileiros somos céticos a respeito de tudo”, o autor do texto recorreu à primeira pessoa do plural (nós) porque se considerou um dos brasileiros céticos. Se dissesse “os brasileiros são céticos...”, não ficaria clara a sua inclusão entre eles. O mesmo ocorre quando eu, por exemplo, como profissional de imprensa, afirmo: “Os jornalistas escrevemos sobre os mais variados assuntos.” Dessa forma pretendo mostrar que faço parte de um grupo que trata das mais diversas questões.

Outros exemplos: Todos decidimos sair (eu com eles ou nós com eles). / Éramos oito na casa. / O problema é mais difícil do que supomos os leigos.

A idéia pode ainda ser o fio condutor na concordância nominal, que define a relação de gênero (masculino e feminino) e número (singular e plural) do adjetivo com o substantivo. O que vale para o adjetivo se aplica também ao pronome, artigo, numeral e particípio.

Um caso característico é o das estruturas reverenciosas de tratamento, em que o adjetivo ou particípio concorda com o sexo da pessoa mencionada, e não com a forma em si: Vossa Majestade é magnânimo (para um rei). / Vossa Majestade é magnânima (para uma rainha). / Vossa Excelência está errado (para um deputado, por exemplo). / Vossa Excelência está errada (para uma deputada).

Com relação ao papa, obviamente, só se adota o masculino: Sua Santidade chegou atrasado. Se a Igreja Católica vier a admitir a presença de uma mulher no cargo máximo do Vaticano, então o correto será: Sua Santidade chegou atrasada. E o mundo terá então uma papesa ou papisa.

O adjetivo, pronome, artigo, etc., pode também concordar com o gênero da coisa subentendida, e não com o nome que a expressa. Por isso, quando se informa que “a Planeta lançou mais cinco livros”, está-se pensando na editora Planeta, e não num astro.

Outros exemplos: A Ipiranga forma uma esquina famosa com a São João (o a indica avenida). Na frase o Joelma foi totalmente reconstruído, o nome de mulher passa a se referir ao edifício.

É possível a mesma denominação levar o adjetivo ou artigo para o feminino ou masculino, conforme o conceito implícito: São Paulo é o mais populoso (Estado). / São Paulo é a mais populosa (cidade). / O sinuoso Paraíba (rio). / A encantadora Paraíba (Estado). / O Fiesta (carro). / A Saveiro (picape).

Eduardo Martins, jornalista, é autor do Manual de Redação e Estilo, de
O Estado de S. Paulo, do livro Com Todas as Letras – O Português Simplificado
e Uso do Hífen, além dos Resumões de Língua Portuguesa.

 
 
 
 
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