OUTUBRO -  2006     N 148
 VITRINE
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Era uma vez um rei que tinha sete filhos, cada um nascido num dia da semana. O rei lhes deu o nome do dia em que nasceram: um se chamava Domingo, outro Segundo, outro Terça...
(Lá vem história)

la sabe, como poucos, cativar o público infanto-juvenil. Ágil e imaginativa, Heloisa Prieto é uma talentosa contadora de histórias – dom herdado da família "aventureira", como define, já que cresceu ouvindo todo tipo de contos de fadas e lendas populares de diferentes culturas do mundo.

A premiada escritora começou a criar os próprios enredos há mais de 20 anos, quando, lecionando na Escola da Vila, em São Paulo, inventava situações malucas que divertiam a meninada. O primeiro conto, Uma armadilha para o Conde Drácula (da coletânea Vice-versa ao contrário), foi para o suplemento Folhinha, da Folha de S.Paulo. Desde então, não parou mais de escrever, o que já resultou na publicação de mais de 40 livros. Entre eles, há mitos e lendas universais, como Lá vem história, 32 casos de amor, Divinas aventuras; histórias resgatadas da memória familiar, como Dragões negros, O cachorro que sabia dar risada e A guerra dos gatos contra a bruxa da rua; e narrativas sobre temas contemporâneos polêmicos, como Balada e a série Mano, em co-autoria com o jornalista Gilberto Dimenstein.

Praticante de tai chi e meditação, ela lançou recentemente O imperador amarelo, uma coletânea de fábulas e aforismos dos antigos mestres chineses. Os ensinamentos, compilados em parceria com o psiquiatra e escritor Paulo Bloise, mostram uma visão generosa e bem-humorada da natureza humana. O próximo livro, dando continuidade à série, será A tábua de esmeraldas, com fábulas clássicas dos antigos alquimistas. Além disso, em homenagem ao seu pai, a autora está lançando A panela da paz, contando as peripécias que ele viveu com a "turma do barracão" e a pequena gibiteca que montaram em segredo.

As leituras sempre contribuíram para acentuar sua paixão pela escrita. A começar pelo Sítio do Picapau Amarelo, que ganhou do avô. "Lendo as aventuras de Pedrinho, Emília e Narizinho, eu apreciava cada vez mais o mundo que me cercava, imaginando aventuras, diálogos fictícios com os personagens. Lobato foi uma influência definitiva para mim. A família me presenteava muito com livros e fui percebendo que, ao compartilhar os textos escolhidos por cada um, eu passava também a conhecer outra faceta daquelas pessoas, algo que não transparece no convívio social."

"Nos meus 20 anos, descobri Proust e Jorge Luis Borges, que continuo relendo avidamente até hoje", comenta. "No ano passado me apaixonei pela obra de Sylvia Plath e, atualmente, me divido entre o texto de um grande contador de histórias, o russo Nikolai Leskov, e as sutilezas poéticas de Rainer Maria Rilke."

Para Heloisa, o prazer de ler acontece quando o texto desloca o leitor para além das próprias palavras. Ela conta que, durante a pesquisa para compor A tábua de esmeraldas, leu que nos primórdios da era dos livros, no Antigo Egito, a escrita era considerada como uma forma de alcançar um novo estágio de percepção do mundo, uma espécie de iniciação mágica. "A queima das antigas bibliotecas, a perseguição aos escritores estão relacionadas com o poder mágico que se atribuía ao ato de ler. E a leitura, realmente, contém uma dimensão imprevisível. A união do imaginário do autor com o do leitor desencadeia um jogo infinito e incansável, uma espécie de labirinto fantástico, cujo percurso final é a descoberta de si mesmo, uma das maiores aventuras de toda uma vida".

Suas indicações:

Haroun e o mar de histórias, de Salman Rushdie. Haroun é filho de um contador de histórias que perde o dom da palavra. Para ajudar o pai a recuperá-lo, o garoto viaja até o fantástico mar onde nascem as narrativas. Aventura, encantamento e o talento de um dos maiores escritores contemporâneos.

Meu vô Apolinário, de Daniel Munduruku. Um avô ensina ao neto a arte de conversar com a natureza e aprender com o rio, como fluir no mundo dos adultos e da cidade grande. A sutileza e a percepção aguçada, típicas da cultura indígena, na prosa gostosa de um grande autor nacional.

Histórias maravilhosas de Andersen. Contos que marcaram a infância de várias gerações de leitores na prosa poética incomparável de Hans Christian Andersen.

Meu lugar no mundo, de Sulami Katy. A adolescência e todas as suas descobertas no contexto de uma comunidade indígena. Namoro, iniciação à vida adulta e aventuras na mata narradas pela prosa bem-humorada da jovem potiguara Sulami Katy.

Lúcio vira bicho, de Ricardo Azevedo. Logo após o término da prova do vestibular, um jovem cai na estrada da vida, corre o risco de perder a identidade e mergulha na descoberta do amor. Um resgate do enredo de O asno de ouro, de Apuleius, do século 2 a.C.

O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges. Um portal para o mundo invisível das criaturas mágicas que acompanham a humanidade desde o início dos tempos. O talento incomparável de Borges presta um serviço à criança eterna dentro de todos nós.

Os bichos que tive, de Sylvia Orthof. A lógica infantil contém meandros malucos que Sylvia Orthof captura e traduz em contos irônicos e divertidos, abrangendo desde o bicho-do-pé até o bicho-papão, entre muitas criaturas inesperadas.

A cartola mágica de Lulu, de Susan Meddaugh. Numa família de mágicos itinerantes, como exercer um dom transferido de geração a geração, quando você é um filho adotado? Magia, aventuras e surpresas abordam com muita delicadeza o tema da adoção.

Poemas para brincar, de José Paulo Paes. Se "a poesia é um brinquedo que nunca se gasta", conforme afirma o autor, nada melhor do que esses poemas de puro encanto para enriquecer a sensibilidade desde cedo.

Histórias de quadros e leitores, de Marisa Lajolo. Uma criativa antologia de contos, na qual telas clássicas são pontos de partida para textos deliciosos de autores como Ana Maria Machado, Moacyr Scliar e Luiz Ruffato, entre outros.

A semente que veio da África, de Heloisa Pires Lima. Uma viagem literária ao universo africano que, na verdade, já habita cada criança brasileira. Jogos, contos e fotos são capturados pela autora com muito carinho e cuidado.

 
 
 
 
 
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