lém de suportar os efeitos da derrota na eleição presidencial, os membros do PSDB precisam de muita paciência para enfrentar os inevitáveis trocadilhos com o nome da ave-símbolo do partido.

Colhidos ao acaso, os títulos de diferentes jornais e revistas demonstram que nem sempre a pretensa originalidade prescinde da repetição: Tucanos trocam bicadas por causa da derrota. / Tucanos não se bicam no próprio ninho. / Tucanos afiam o bico para atacar Lula. / PT estimula bicadas entre tucanos. / Tucanos não poupam bicadas.

Esse tipo de procedimento – como o de relacionar o tucano com seu atributo físico mais evidente, o bico – se torna mais patente com assuntos que freqüentam a imprensa por semanas e mesmo meses.

Imagine que você queira brincar com informações referentes ao setor de aviação. Há meia dúzia de palavras-padrão para isso, se tanto: vôo, voar, decolar, decolagem, espaço, turbulência e asas. O produto? Títulos bastante discutíveis como: Gol e TAM ganham espaço com turbulência da Varig. / Transbrasil voa para a falência. / Orçamento corta as asas dos aviões da FAB. / Interesse da Delta pelo Brasil decola. / Impasse impede decolagem da Varig. / Embraer continua em vôo tranqüilo. Para cada exemplo desses, existem pelo menos dez outros (com predominância absoluta do verbo decolar) de idêntica estrutura.

Às vezes o assunto é uma pessoa: como tem temperamento forte e se chama Emerson Leão, alguém duvida que o técnico de futebol seja um dos recordistas de filigranas verbais na imprensa? Como no caso da aviação, as palavras também não vão muito além da meia dúzia (e rugir é a favorita): Leão não se cansa de rugir contra o apito. / Leão chega, ruge e mostra as garras. / Leão chega enjaulado. / Leão rosna para Serra. / São Paulo apresenta Leão domesticado. / Pelo rádio, Leão ruge com elenco.

A obsessão pelos títulos diferentes pode, inadvertidamente, romper as regras do bom-tom e resvalar pelo preconceito étnico, como na menção aos olhos dos orientais: Conheça os japoneses que vão deixar seu filho de olhos arregalados. / Nem derrota abre os olhos dos chineses. / Companhia de dança de Pequim está de olhos abertos ao contemporâneo. / Sorrisos amarelos para decisão pragmática.

Se alguns temas não excitam a imaginação dos redatores com a mesma intensidade, nem por isso deixam de trilhar o conturbado caminho do trocadilho: Planos de saúde estão doentes. / Foi um domingo bom para cachorro (tratava-se de um passeio canino). / Marisa aos montes: cantora lança dois CDs de uma vez (!). / Brasil bombardeia o Timor (vitória do Brasil no futebol de salão por 76 a 0!!!).

Opiniões divergem, claro, mas o jogo de palavras com mão-de-obra, nos textos de futebol, dificilmente perderá a palma de campeão: Exportação de pé-de-obra bate recorde. / O Brasil anda exportando pé-de-obra como ninguém. / Campeonato Brasileiro ostenta pé-de-obra supérfluo.

Criatividade? Vamos dizer que seja.

Eduardo Martins, jornalista, é autor do Manual de Redação e Estilo, de O Estado de S. Paulo, do livro Com Todas as Letras – O Português Simplificado e Uso do Hífen, além dos Resumões de Língua Portuguesa.