DEZEMBRO -  2006     N 150
 VITRINE
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á quem diga que homens e mulheres nunca vão se entender. Homens vivem com os instintos dominados "à unha". Mulheres vivem de sensibilidade e de comunicação. Nada mais interessante, portanto, do que tentar compreender essas diferenças mergulhando no universo do outro. Norah Vincent, autora de Feito homem – A jornada de uma mulher ao universo masculino, pediu licença do emprego como colunista no Los Angeles Times e resolveu "se tornar um rapaz" por dezoito meses.

A idéia pairava sobre ela desde a infância. Norah era uma garotinha que vivia em conflito. Gostava de brincadeiras de meninos, vestia-se como um, mas sofria com as zombarias dos irmãos e dos amigos a respeito de seu corpo impúbere. A adolescência tardou para redesenhar seu corpo, a tal ponto que a falta de "feminilidade" lhe rendeu a alcunha de "Ned", o que a deixava furiosa.

Curiosamente, foi como Ned que Norah decidiu assumir a persona masculina. Pediu ajuda a um maquiador, tomou aulas de impostação de voz e, assim, invadiu o mundo da testosterona. Conviveu com monges no mosteiro, freqüentou clubes de strip-tease, jogou boliche, arranjou empregos e teve encontros românticos com mulheres. Conseguiu até participar de um seleto grupo de terapia exclusiva para homens. Em seu delicioso relato, ela compartilha com os leitores as situações reveladoras que vivenciou.

Durante as discussões na terapia de grupo, a jornalista pôde perceber, por exemplo, um novo padrão de comportamento, muito além do "metrossexual": o do homem sufocado pelas obrigações, que necessita de uma descarga emocional. "Para estes rapazes, ir para o trabalho e sustentar a família era tarefa do homem. Ainda. E era uma tarefa dura. Nela não havia férias, e você não vai encontrar muitas mulheres que enxerguem ou admitam isso." Sim, a culpa pode estar nas parceiras, nas mães, nas fêmeas que acabam se fixando na imagem de "cavaleiro invencível" e não permitem ao macho qualquer momento de fraqueza ou dúvida.

Os homens que encontrou no mosteiro acabaram demolindo a visão pacífica e acolhedora que Norah tinha a respeito desses lugares. Ao contrário do que supunha, a autora deparou com um triste panorama, parecido com o que havia experimentado na terapia de grupo: indivíduos carentes de afeto, cujo simples toque ou abraço era muitas vezes repelido pelo medo da tentação, ou pela própria condição masculina de ser impassível, quase insensível. "A maioria dos homens americanos pode não ser de monges, mas os monges que conheci eram, certamente, homens americanos", diz. "Você pode tirar o homem do seu elemento, mas não pode muito freqüentemente tirar o elemento do homem".

O mais difícil, para ela, foi ter de revelar sua identidade. A autora vivia num martírio silencioso que, no último mês da jornada, culminou em uma séria estafa mental. Sem nunca ter sido desmascarada, a jornalista confessa que aprendeu muito e que, quando abandonou Ned, saiu da aventura consciente, feliz, orgulhosa de ser mulher. Apesar das vantagens que o mundo oferece aos homens, permitindo que sejam vaidosos, arrogantes e até mentirosos, o preço pago é alto. Exige-se demais deles. Para mudar isso, a seu ver, é preciso um real "movimento dos homens", como houve com as mulheres nos anos 1960 e 1970.

 
 
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