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quem diga que homens e mulheres nunca vão se
entender. Homens vivem com os instintos dominados
"à unha". Mulheres vivem de sensibilidade
e de comunicação. Nada mais interessante,
portanto, do que tentar compreender essas diferenças
mergulhando no universo do outro. Norah
Vincent, autora de Feito
homem – A jornada de uma mulher ao universo
masculino,
pediu licença do emprego como colunista no
Los Angeles Times e resolveu "se tornar
um rapaz" por dezoito meses.
A idéia pairava sobre ela desde a infância.
Norah era uma garotinha que vivia em conflito. Gostava
de brincadeiras de meninos, vestia-se como um, mas
sofria com as zombarias dos irmãos e dos amigos
a respeito de seu corpo impúbere. A adolescência
tardou para redesenhar seu corpo, a tal ponto que
a falta de "feminilidade" lhe rendeu a alcunha
de "Ned", o que a deixava furiosa.
Curiosamente, foi como Ned que Norah decidiu assumir
a persona masculina. Pediu ajuda a um maquiador,
tomou aulas de impostação de voz e,
assim, invadiu o mundo da testosterona. Conviveu com
monges no mosteiro, freqüentou clubes de strip-tease,
jogou boliche, arranjou empregos e teve encontros
românticos com mulheres. Conseguiu até
participar de um seleto grupo de terapia exclusiva
para homens. Em seu delicioso relato, ela compartilha
com os leitores as situações reveladoras
que vivenciou.
Durante as discussões na terapia
de grupo, a jornalista pôde perceber, por exemplo,
um novo padrão de comportamento, muito além
do "metrossexual": o do homem sufocado pelas
obrigações, que necessita de uma descarga
emocional. "Para estes rapazes, ir para o trabalho
e sustentar a família era tarefa do homem. Ainda.
E era uma tarefa dura. Nela não havia férias,
e você não vai encontrar muitas mulheres
que enxerguem ou admitam isso." Sim, a culpa pode
estar nas parceiras, nas mães, nas fêmeas
que acabam se fixando na imagem de "cavaleiro invencível"
e não permitem ao macho qualquer momento de fraqueza
ou dúvida.
Os homens que encontrou no mosteiro
acabaram demolindo a visão pacífica e
acolhedora que Norah tinha a respeito desses lugares.
Ao contrário do que supunha, a autora deparou
com um triste panorama, parecido com o que havia experimentado
na terapia de grupo: indivíduos carentes de afeto,
cujo simples toque ou abraço era muitas vezes
repelido pelo medo da tentação, ou pela
própria condição masculina de ser
impassível, quase insensível. "A
maioria dos homens americanos pode não ser de
monges, mas os monges que conheci eram, certamente,
homens americanos", diz. "Você pode
tirar o homem do seu elemento, mas não pode muito
freqüentemente tirar o elemento do homem".
O mais difícil, para ela, foi
ter de revelar sua identidade. A autora vivia num martírio
silencioso que, no último mês da jornada,
culminou em uma séria estafa mental. Sem nunca
ter sido desmascarada, a jornalista confessa que aprendeu
muito e que, quando abandonou Ned, saiu da aventura
consciente, feliz, orgulhosa de ser mulher. Apesar das
vantagens que o mundo oferece aos homens, permitindo
que sejam vaidosos, arrogantes e até mentirosos,
o preço pago é alto. Exige-se demais deles.
Para mudar isso, a seu ver, é preciso um real
"movimento dos homens", como houve com as
mulheres nos anos 1960 e 1970.
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