DEZEMBRO -  2006     N 150
 VITRINE
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leitura se confunde com a minha vida, sempre foi assim", diz o escritor, poeta e jornalista Moacir Amâncio. "Mergulhei na literatura desde a infância mais remota, com os contos de fadas, Monteiro Lobato, o inesquecível Tesouro da juventude. Tive acesso a uma biblioteca fantástica, o que foi uma sorte, e lembro ainda que, nessa fase de garoto, a descoberta do Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo foi um acontecimento. Passei a lê-lo todas as semanas e aquilo valia por um curso. Acho que jornal, internet e revista são veículos fundamentais na divulgação de cultura, pela democratização e pelo alcance que têm."

Sua formação profissional, conforme enfatiza, está estritamente ligada à leitura: Jornalismo e doutorado em Letras. Moacir atuou durante vários anos como repórter na revista Visão, nos jornais Gazeta Mercantil, O Globo (sucursal), Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e na Rede Globo, até que decidiu enveredar pela área acadêmica. Atualmente, ainda colabora com publicações como a revista Cult e o Estadão, mas sua atividade central passou a ser o ensino de língua e literatura hebraica na USP. "Isso significa simplesmente ler, ler, ler. Estou envolvido com minha própria paixão."

Com vários livros publicados, sua trajetória literária denota esse fascínio pelas palavras, assim como a preocupação estética e o desejo de dizer o não dito, o que está além dos objetos. "No início publiquei novelas experimentais e alguns contos. Eu perseguia a prosa, mas de repente houve um colapso na própria frase e na narrativa, e a linguagem se estilhaçou, impondo novos rumos", conta. "Passei então a pesquisar a linguagem poética e só depois de dez anos, mais ou menos, senti que era o momento de organizar o primeiro volume de poemas: Do objeto útil (estréia premiada com o Jabuti, em 1993)."

A partir daí, num caminho inverso ao de muitos autores, "partindo da prosa para a poesia, da conformação para o experimentalismo", como definiu o escritor Luiz Ruffato, desencadeou-se o processo criativo de uma "rara voz da poesia metafísica no Brasil". Vieram Figuras na sala; O olho do canário; Colores siguientes; Óbvio; Os bons samaritanos e outros filhos de Israel, crônicas sobre a vida em Israel; e Dois palhaços e uma alcachofra, um estudo sobre o romance Adam, filho de cão, do israelense Yoram Kaniuk.

Numa obra, o trabalho com a linguagem é o elemento dominante, a seu ver: "Sem isso nada é possível. Veja a pintura ou a música. O traço é a própria pintura; a seqüência de notas, a própria música. Não há como separar conteúdo e forma. Sem a chamada forma, ou seja, as palavras com seus ritmos e conotações, não se tem literatura". Ele alerta, no entanto, para o risco de ficar arraigado a pontos de vista rígidos, não levando em conta proposições diversas apenas porque contrariam nosso gosto ou porque utilizam uma linguagem própria e estranha para nós, incômoda... "Esse é um desafio irresistível e fundamental".

Moacir ressalta que até os maus autores contribuíram para aguçar seu gosto pela leitura. "Por exemplo, a série Os condenados – A trilogia do exílio, do Oswald de Andrade, que, convenhamos, é de amargar e só continua por aí devido à importância do autor no modernismo", ilustra. "Outro, Canaã, de Graça Aranha, um romance artificial, chato, pretensioso. Mas veja, mesmo esses livros, sempre li com muita atenção. Lendo um mau livro a gente também aprende muito sobre literatura, até pelas falhas, pois isso revela o que as boas obras superam, entre outras coisas. Agora, na parte das grandes obras fica tudo meio óbvio, não? Machado, Dostoiévski, Balzac, Cervantes, Drummond, João Cabral, Murilo Rubião, Ferreira Gullar, García Lorca, Giuseppe Ungaretti, Dante Alighieri, D.H. Lawrence, Henry Miller, Borges, Guimarães Rosa, Juan Rulfo, William Carlos Williams, Dantas Mota etc. etc. etc."

Para ele, "a leitura diverte, revoluciona de modo constante. É um processo vital, um desafio constante". Suas indicações:

Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco. Há, neste livro, um sopro trágico muito forte. E há a linguagem de Camilo, que considero o maior prosador da língua portuguesa. Recomendo também uma comédia maravilhosa do autor, A queda dum anjo.

Memórias do subsolo, de Dostoiévski. É o embate entre a razão e as energias "subterrâneas", que permanece.

A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, que tem reedição recente. O tipo do livro que deveria ser leitura obrigatória, pela excelência literária.

Dom Casmurro, de Machado de Assis, uma das melhores histórias de traição do mundo. Mas Machado é mais que isso, claro.

Pedro Páramo, de Juan Rulfo, outro exemplo excepcional da arte romanesca do nosso tempo.

Sobre heróis e tumbas, de Ernesto Sábato. Um painel histórico da Argentina, com aqueles personagens todos, a Alejandra, Martin, o terrível Vidal Olmos, os cegos...

Bartleby, de Melville, uma novela sobre a percepção da inutilidade, da futilidade, do artificialismo em que somos levados a viver. O personagem percebe que tudo é um teatrinho fajuto, no trabalho, nas relações pessoais..., e simplesmente prefere não fazer mais nada.

A divina comédia, de Dante. Inacreditável como um homem, sozinho, tenha escrito tudo aquilo.

Poemas de Emily Dickinson. Sei que é idiossincrasia, mas para mim é a maior obra poética de alguém nascido nos Estados Unidos.

Obras completas, de Jorge Luis Borges, um desses autores que ninguém pára de ler. A sensação é de que ele sempre continua a escrever – mas os imitadores são insuportáveis.

Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato. Um romance urbano atualizado.

Faltou falar de Ulisses, do James Joyce, de Light in August, de Faulkner, de Novelas de Jerusalém, do Shmuel Yosef Agnon, bem, isso não pára mais...

 
 
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