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leitura
se confunde com a minha vida, sempre foi assim",
diz o escritor, poeta e jornalista Moacir
Amâncio. "Mergulhei
na literatura desde a infância mais remota,
com os contos de fadas, Monteiro
Lobato, o inesquecível
Tesouro da juventude. Tive acesso a uma
biblioteca fantástica, o que foi uma sorte,
e lembro ainda que, nessa fase de garoto, a descoberta
do Suplemento Literário do jornal O
Estado de S. Paulo foi um acontecimento.
Passei a lê-lo todas as semanas e aquilo
valia por um curso. Acho que jornal, internet
e revista são veículos fundamentais
na divulgação de cultura, pela democratização
e pelo alcance que têm."
Sua formação
profissional, conforme enfatiza, está estritamente
ligada à leitura: Jornalismo e doutorado
em Letras. Moacir atuou durante vários
anos como repórter na
revista Visão, nos jornais Gazeta
Mercantil,
O Globo (sucursal),
Folha de S.Paulo, O Estado
de S. Paulo e na Rede Globo, até que
decidiu enveredar pela área acadêmica.
Atualmente, ainda colabora com publicações
como a revista Cult e o Estadão,
mas sua atividade central passou a ser o ensino
de língua e literatura hebraica na USP.
"Isso significa simplesmente ler, ler, ler.
Estou envolvido com minha própria paixão."
Com vários
livros publicados, sua trajetória literária
denota esse fascínio pelas palavras, assim
como a preocupação estética
e o desejo de dizer o não dito, o que está
além dos objetos. "No início
publiquei novelas experimentais e alguns contos.
Eu perseguia a prosa, mas de repente houve um
colapso na própria frase e na narrativa,
e a linguagem se estilhaçou, impondo novos
rumos", conta. "Passei então
a pesquisar a linguagem poética e só
depois de dez anos, mais ou menos, senti que era
o momento de organizar o primeiro volume de poemas:
Do objeto útil
(estréia premiada com o Jabuti, em 1993)."
A partir daí,
num caminho inverso ao de muitos autores, "partindo
da prosa para a poesia, da conformação
para o experimentalismo", como definiu o
escritor Luiz
Ruffato, desencadeou-se o processo
criativo de uma "rara voz da poesia metafísica
no Brasil". Vieram Figuras
na sala;
O
olho do canário;
Colores
siguientes;
Óbvio;
Os
bons samaritanos e outros filhos de Israel,
crônicas sobre a vida em Israel; e Dois
palhaços e uma alcachofra,
um estudo sobre o romance Adam,
filho de cão,
do israelense Yoram
Kaniuk.
Numa obra, o trabalho
com a linguagem é o elemento dominante,
a seu ver: "Sem isso nada é possível.
Veja a pintura ou a música. O traço
é a própria pintura; a seqüência
de notas, a própria música. Não
há como separar conteúdo e forma.
Sem a chamada forma, ou seja, as palavras com
seus ritmos e conotações, não
se tem literatura". Ele alerta, no entanto,
para o risco de ficar arraigado a pontos de vista
rígidos, não levando em conta proposições
diversas apenas porque contrariam nosso gosto
ou porque utilizam uma linguagem própria
e estranha para nós, incômoda...
"Esse é um desafio irresistível
e fundamental".
Moacir ressalta
que até os maus autores contribuíram
para aguçar seu gosto pela leitura. "Por
exemplo, a série Os
condenados – A trilogia do exílio,
do Oswald
de Andrade, que, convenhamos,
é de amargar e só continua por aí
devido à importância do autor no
modernismo", ilustra. "Outro, Canaã,
de Graça
Aranha, um romance artificial,
chato, pretensioso. Mas veja, mesmo esses livros,
sempre li com muita atenção. Lendo
um mau livro a gente também aprende muito
sobre literatura, até pelas falhas, pois
isso revela o que as boas obras superam, entre
outras coisas. Agora, na parte das grandes obras
fica tudo meio óbvio, não? Machado,
Dostoiévski,
Balzac,
Cervantes,
Drummond,
João
Cabral, Murilo
Rubião, Ferreira
Gullar, García
Lorca, Giuseppe
Ungaretti, Dante
Alighieri, D.H.
Lawrence, Henry
Miller, Borges,
Guimarães
Rosa, Juan
Rulfo, William
Carlos Williams, Dantas
Mota etc. etc. etc."
Para ele, "a
leitura diverte, revoluciona de modo constante.
É um processo vital, um desafio constante".
Suas indicações:
Amor
de perdição,
de Camilo
Castelo Branco. Há,
neste livro, um sopro trágico muito forte.
E há a linguagem de Camilo,
que considero o maior prosador da língua
portuguesa. Recomendo
também uma comédia maravilhosa do
autor, A
queda dum anjo.
Memórias
do subsolo,
de Dostoiévski.
É o embate entre a razão e as energias
"subterrâneas", que permanece.
A
morte de Ivan Ilitch,
de Tolstói,
que tem reedição recente. O tipo
do livro que deveria ser leitura obrigatória,
pela excelência literária.
Dom
Casmurro,
de Machado
de Assis, uma das melhores
histórias de traição do mundo.
Mas Machado
é mais que isso, claro.
Pedro
Páramo,
de Juan
Rulfo, outro exemplo excepcional
da arte romanesca do nosso tempo.
Sobre
heróis e tumbas,
de Ernesto
Sábato. Um painel histórico
da Argentina, com aqueles personagens todos, a
Alejandra, Martin, o terrível Vidal Olmos,
os cegos...
Bartleby,
de Melville,
uma novela sobre a percepção da
inutilidade, da futilidade, do artificialismo
em que somos levados a viver. O personagem percebe
que tudo é um teatrinho fajuto, no trabalho,
nas relações pessoais..., e simplesmente
prefere não fazer mais nada.
A
divina comédia,
de Dante.
Inacreditável como um homem, sozinho, tenha
escrito tudo aquilo.
Poemas
de Emily Dickinson.
Sei que é idiossincrasia, mas para mim
é a maior obra poética de alguém
nascido nos Estados Unidos.
Obras
completas,
de Jorge
Luis Borges, um desses autores
que ninguém pára de ler. A sensação
é de que ele sempre continua a escrever
– mas os imitadores são insuportáveis.
Eles
eram muitos cavalos,
de Luiz
Ruffato. Um romance urbano
atualizado.
Faltou falar de
Ulisses,
do James
Joyce, de Light
in August,
de Faulkner,
de Novelas
de Jerusalém,
do Shmuel
Yosef Agnon, bem, isso não
pára mais... |
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