ocê pensa sempre onde vai passar o final de semana e fica inquieto quando uma reunião demora para chegar ao final?

As frases mostram um fenômeno curioso das línguas: a partir de determinado momento, uma palavra assume o lugar de outra, estratificada no idioma.

É o caso de final, modismo em alta, porque passa, para muita gente, uma idéia de requinte. Procure, porém, final de semana nos dicionários, por exemplo. Eles só registram fim de semana.

Final cabe, sem restrições, em duas situações: a) Como adjetivo: resultado final, prova final, relatório final. b) Como substantivo, para definir a parte final de alguma coisa ou uma decisão de campeonato: Gostaram muito do final do filme. / A final do torneio será domingo.

Nos demais casos, é fim que convém usar: fim do mês, fim do ano, fim do jogo, fim da questão, fim do trabalho.

Situação idêntica marca o uso da dupla pôr e colocar. Colocar, mais propriamente, significa pôr em algum lugar e se refere basicamente a coisas materiais: Colocou o livro na estante. / Colocou os azulejos na parede. Pôr é o verbo que se emprega nas locuções e frases feitas, no sentido figurado e na definição de coisas abstratas e do espírito: pôr em prática, pôr o dedo na ferida, pôr em xeque, pôr em pratos limpos, pôr a mesa, pôr frente a frente, pôr fogo em.

Apesar disso, hoje em dia, tudo se coloca: colocou a questão em pratos limpos, colocou o dedo na ferida, colocou o adversário em xeque. E, até quando atos inimagináveis entre civilizados são cometidos contra pessoas indefesas, não é raro ler ou ouvir que jovens “colocaram fogo” no mendigo ou no índio, por exemplo.

Pior ainda é a presença de colocar em frases como: “Eu gostaria de colocar uma questão”. / “Sua colocação está equivocada”. Pode-se, isso sim, levantar uma questão, fazer uma sugestão, apresentar uma idéia.

Como vícios de linguagem proliferam sem cessar, um dos mais recentes é a forma irá fazer. O futuro simples, em português, não apresenta dificuldade: eu farei, ele proporá, nós diremos, eles chegarão.

No Brasil, porém, existe resistência a essas formas. Por isso, o futuro é substituído mais comumente, na conversação e na imprensa, pelo verbo ir mais infinitivo: vai iniciar, vamos procurar.

Neste caso, a construção é presente do indicativo mais infinitivo: vou sair, vai andar, vão encontrar. É a que se encontra, na maioria esmagadora das vezes, nos títulos de jornais (governo vai propor reforma, brasileiros vão julgar a maioridade penal). Ela, porém, é cada vez mais substituída, sem razão, por o governo “irá propora reforma, a festa “irá começar” domingo, o banco “irá conceder” o empréstimo.

Se o que se pretende, com o uso da locução, é evitar o futuro simples, ele, de qualquer forma, está presente em “irá propor” ou “irá conceder”. Ou seja, não só não se fugiu do futuro como se cometeu uma redundância. Do jeito que a coisa vai, não demora muito e se trocará o duvidoso “ele vai ir” por “ele irá ir”...

Eduardo Martins, jornalista, é autor do Manual de Redação e Estilo, de O Estado de S. Paulo, do livro Com Todas as Letras – O Português Simplificado e Uso do Hífen, além dos Resumões de Língua Portuguesa.