or
formação, sou jornalista. E tradutora
também. Por causa disso, passei a vida
toda escrevendo, convivendo com a palavra, mas
sempre com o texto alheio. Até o dia em
que comecei a escrever ficção. Isso
aconteceu quando eu já estava com 40 anos,
sem aviso, de forma avassaladora, como uma necessidade
imperiosa. Um jorro repentino que não parou
mais, uma inundação, água
e água e água, fertilizando e afogando,
para o bem e para o mal. Era como se as histórias
pedissem para ser contadas...”
Heloisa
Seixas tem nove livros publicados:
três romances (A
porta,
Diário
de Perséfone
e Pérolas
absolutas),
uma novela (Através
do vidro),
três volumes de contos (Pente
de Vênus,
Contos
mínimos
e Sete
vidas),
um infantil (Histórias
de bicho feio)
e um para jovens (Frenesi),
estes dois últimos lançados no ano
passado. Organizou também diversas obras,
como os quatro volumes de As
obras-primas que poucos leram,
com artigos sobre literatura, e a trilogia de
contos de terror Depois,
Visões da noite
e A
casa do passado,
reunindo mestres do gênero. E tem vários
projetos a caminho, entre eles duas compilações
de contos mínimos, com textos que publicava
no Jornal do Brasil, e a organização
(e, em parte, tradução) de uma coleção
de escritoras inglesas do século 19.
“Sempre gostei de ler, mas
quem despertou meu gosto pela leitura não
foi nem livro, nem autor algum – foi a minha
avó. Ela lia livros para nós quando
éramos crianças e gostava também
de contar histórias que aprendera na infância
com uma babá analfabeta, ex-escrava, chamada
Cunegundes. Muitas delas cantadas em versos, uma
beleza”, lembra.
“É engraçado.
Gosto cada vez mais de ler. Não imaginei
que pudesse ser algo progressivo, mas é.
Depois que comecei a escrever, o gosto foi crescendo,
crescendo. Hoje leio 30, 40, talvez 50 livros
por ano (agora tenho mania de anotar os livros
que leio). Leio dois ou três ao mesmo tempo,
desde alta literatura até as mais deliciosas
porcarias, para as quais os críticos esnobes
viram o nariz. E o que esses livros todos me propiciam
de melhor? Essa capacidade fantástica de
apagar o mundo à nossa volta.”
A escritora salienta que só
gosta de literatura – ou melhor, só
gosta de arte – que provoque algum tipo
de emoção. “Pode ser tesão,
nojo, compaixão, susto, enternecimento
ou horror, não importa. Mas tem de mexer
comigo de alguma forma. Tenho de fechar o livro
e sentir que ficou em mim uma marca qualquer.
Por isso, prefiro escritores viscerais a cerebrais.
Gosto mais dos que contam histórias do
que daqueles que oferecem apenas uma atmosfera.
Prefiro Nabokov
a Tchekhov,
Isak Dinesen
a Virginia Woolf”.
Prazer de ler? “É estar
dirigindo, a caminho de casa, e dar um suspiro,
quase sem sentir, pensando: Oba, vou ler meu livro!
Prazer é fazer economia, ler poucas páginas
de cada vez, temendo que o livro querido acabe.
Prazer é esquecer que o universo existe
na hora da leitura. Isso pode acontecer com a
mais alta literatura ou com um livro de aventura.
Pode ser O
som e a fúria,
de Faulkner,
ou Ela
de H. Rider Haggard.”
Para Heloisa, leitura é mais
do que conhecimento e educação.
“É a possibilidade de sonhar, a porta
para a liberdade. Um dia, numa visita a um presídio,
como parte de um projeto de criação
de bibliotecas, conheci um homem-livro, um detento
que andava de cela em cela, com um carrinho de
mão cheio de livros, oferecendo-os aos
outros presos. Ele disse que fazia isso porque,
ao ler um livro, é como se o preso estivesse
livre. Pode haver contribuição maior
do que esta?”
Sua observação antes
de sugerir alguns livros: “Quero ressaltar
que poderia escolher qualquer conto de Poe
ou de Borges,
qualquer crônica de Nelson
Rodrigues, qualquer trecho de Proust
tirado ao acaso. E que vou deixar de fora, por
óbvios, Eça,
Machado
e Guimarães
Rosa”.
Orgulho
e preconceito,
de Jane Austen.
As romancistas inglesas do século 19 eram
grandes mestras da narrativa, todas elas. Escolhi
a Jane Austen por ser a primeira, nascida
ainda no século 18. Orgulho e preconceito
é um livro tecnicamente perfeito.
A
letra escarlate,
de Nathaniel Hawthorne.
É um livro forte, inquietante e belíssimo.
Deixou uma marca em mim, perene. Aquela menininha
assombrada me acompanha com sua solidão,
que parece a solidão de Perséfone.
Ela,
de H. Rider Haggard.
Mais conhecido como autor de As
minas do rei Salomão,
Rider Haggard é outro mestre da
narrativa, também do século 19 (o
grande século da literatura, para mim).
Só que, por ter escrito histórias
de aventuras, consideradas infanto-juvenis, é
desprezado pelos cânones. Mas é delícia
pura.
O
grande Gatsby,
de F. Scott Fitzgerald.
Foi um soco no estômago. Quando acabei de
ler, fiquei sentada no sofá, sem conseguir
me levantar.
O
som e a fúria,
de William Faulkner.
Levei anos para tomar coragem e ler. Mas valeu
a pena. Só um gênio conseguiria entrar
na cabeça de um débil mental que
sente o gosto das cores e fazer disso as primeiras
40 páginas do seu livro.
Lolita,
de Vladimir Nabokov.
Outro gênio, como Faulkner, que
conseguiu penetrar na cabeça de um louco,
um universo que me fascina e assombra.
De
profundis,
de Oscar Wilde.
Um texto ímpar de Wilde, em que
ele revela um lado mais humano, pungente. Foi
escrito na cadeia, com lágrimas e sangue,
e é um dos mais belos textos que já
li.
As
aves de Cassandra,
de Per Johns.
Um livro feito de camadas, com um ritmo encantatório.
Para mim, Per Johns é um dos maiores escritores
brasileiros vivos (e considero-o brasileiro, embora
dinamarquês de nascença).
Carmen
- Uma biografia,
de Ruy Castro.
Como mulher do Ruy, sei que sou suspeita
ao incluí-lo. Mas acho, de verdade, que
é a melhor biografia já publicada
no Brasil.