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| Muitos
anos depois, diante do pelotão
de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía
havia de recordar aquela tarde remota
em que seu pai o levou para conhecer o
gelo. |
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ão
se lê Cem
anos de solidão
impunemente. O universo surpreendente, fantástico
e perturbador, criado pelo escritor colombiano Gabriel
García Márquez para
contar a saga da família Buendía,
envolve o leitor logo nas primeiras páginas
e deixa marcas profundas. Mesclando realidade e
ficção, o autor compõe uma
narrativa rica e vigorosa, considerada uma das mais
inspiradas do século 20.
A consagração
internacional da obra confirma-se mais uma
vez através das inúmeras
homenagens que vêm sendo realizadas
para celebrar os 40 anos de sua publicação.
A primeira edição, lançada
pela Editorial Sudamericana, chegou às livrarias
argentinas em maio de 1967, inaugurando uma nova
tendência: o realismo mágico. Traduzido
posteriormente para mais de 40 idiomas e alcançando
a marca de 30 milhões de exemplares vendidos,
o livro ganha agora uma edição comemorativa
elaborada pela Real Academia Espanhola. Com tiragem
recorde de 1 milhão de exemplares e revisão
do próprio autor, o volume inclui novidades
como uma árvore genealógica da família
Buendía, um glossário de termos caribenhos
e artigos de renomados escritores, entre eles Álvaro
Mutis, Carlos
Fuentes e Mario
Vargas Llosa (com quem García
Márquez nutre há anos uma contenda
até hoje não esclarecida).
Gabriel
García Márquez semeou
essa narrativa durante quase 20 anos até
encontrar o jeito mais interessante de contá-la:
manifestando encantamento diante das coisas cotidianas
e, ao mesmo tempo, uma incrível naturalidade
diante de acontecimentos extraordinários.
Muitos episódios inspiraram-se na experiência
afetiva do autor. A vida em Macondo, cidade fictícia
onde se passa a saga da família Buendía,
retrata, de certa forma, sua infância em Aracataca,
vilarejo na costa da Colômbia – superpovoada
de personagens e casos fantásticos.
Exímio contador de histórias,
ganhador do Prêmio Nobel em 1982, o escritor
diz que herdou o dom dos avós Tranquilina
e Nicolás. No primeiro volume de suas memórias,
Viver
para contar
(2002), confessa: “Não consigo imaginar
um meio familiar mais propício para a minha
vocação do que aquela casa lunática,
em especial pelo caráter das numerosas mulheres
que me criaram”.
A riqueza e a originalidade pontuam
também sua trajetória como jornalista.
García Márquez destacou-se
ainda jovem como correspondente do El Espectador,
principal jornal de Bogotá, e mesmo depois
de se consagrar escritor, nunca deixou de colaborar
com a imprensa. A editora Record acaba de lançar
uma coleção de cinco volumes, que
reúne esse extenso trabalho, oferecendo uma
visão histórica da segunda metade
do século 20.
Os dois primeiros livros, Textos
caribenhos
e Textos
andinos,
trazem resenhas literárias, crônicas
urbanas, textos de opinião e comentários
sobre filmes da época. O segundo inclui a
longa reportagem sobre a agonia de um náufrago.
Da
Europa e da América
representa o trabalho do jornalista como correspondente
internacional, entre 1955 e 1960. O quarto volume,
Reportagens
políticas,
apresenta entrevistas e textos recentes, com opiniões
do autor sobre acontecimentos relevantes na América
Latina, e Crônicas,
o último da coleção, evidencia
sua maestria literária.
É impossível mergulhar
na obra de García Márquez
e não se fascinar com sua arte de contar
histórias. O autor conduz a um mundo surreal,
mas extremamente palpável e coerente. Uma
experiência mágica, que assume contornos
surpreendentes a cada releitura.