Antes de tudo, Gikovate esclarece a diferença
entre ‘estado de felicidade’
e ‘momentos de felicidade’.
“Estado de felicidade é estar
próximo de um ponto de equilíbrio,
da paz e da harmonia. Algo que os orientais
valorizam e que no Ocidente é visto
como chato, tedioso. Pressupõe
a ausência de desconforto –
fome, sede, dor, sensação
de vazio e de desamparo. Para atingir
esse estágio, é preciso
sair do negativo, zerar, passando de uma
situação ruim para uma melhor.
Um ganho que eu chamo de ‘prazer
negativo’, ou seja, a sensação
agradável de recuperar o equilíbrio.
Já os momentos de felicidade referem-se
a acontecimentos especiais, que não
vêm preencher uma falta, mas acrescentar
uma alegria. Esses são os prazeres
positivos.”
O primeiro requisito para pensar em felicidade,
no seu entender, é aprender a lidar
com o inexorável: frustrações,
contrariedades, sofrimento. “Seria
ingenuidade achar que ser feliz significa
não ter dor nem decepção.
Isso não existe”, diz. “O
problema é que muitos encalham
e perdem tempo demais para digerir os
dissabores. Alguns encalham até
com atividades naturais, como comer ou
dormir. Em vez de curtir o alimentar-se,
o dormir, ficam brigando com a vida, forçando
a própria natureza.”
Um dos aspectos que considera essenciais
nessa questão diz respeito ao dinheiro.
“Muita gente imagina que a fórmula
da felicidade passa por grande quantia
de dinheiro. Claro que, para resolver
desequilíbrios básicos como
saúde e alimentação,
é fundamental ter um mínimo
de condição financeira.
Mas, como fonte de prazer, os benefícios
são bastante duvidosos. Acho importante
pensar a felicidade de uma forma mais
democrática. Se ela dependesse
exclusivamente de fortuna, beleza fora
do comum, talentos excepcionais para os
esportes ou para as artes, enfim, de tudo
que traz notoriedade, 99% da população
estaria condenada à infelicidade.
Felicidade também é ter
orgulho de ser decente, honesto, íntegro,
ter auto-estima, saúde, afeto,
e esses são prazeres democráticos.”
“Infelizmente, nossa sociedade
valoriza muito as propriedades aristocráticas
que poucos podem ter”, constata.
“Estimula em excesso o consumismo,
a beleza, a vaidade e os símbolos
de poder, que, além de estragar
a felicidade, são fatores de tensão
social. As conquistas materiais não
têm fim; novos bens são produzidos
todo dia e fica todo mundo correndo atrás.
O vizinho já tem e eu não
tenho ainda? Comprar passa a ser um vício
e, para o viciado, nunca nada é
suficiente. Com as conquistas eróticas,
acontece o mesmo – o indivíduo
acaba de conquistar alguém e já
está pensando nas outras conquistas
possíveis.”
O amor, da forma como é vivido
pela maior parte das pessoas, como remédio
para a sensação de incompletude
e desamparo, funciona como um prazer negativo,
na percepção de Gikovate.
Cria inclusive dependência sentimental,
semelhante à dependência
de comida ou de bebida, gerando ciúme
e possessividade. Para que isso não
ocorra, é preciso aprender a ficar
melhor consigo mesmo e tentar atenuar
o sentimento de vazio inerente à
condição humana. O amor
tem chance de ser um prazer positivo e
acrescentar alegria quando se baseia mais
nas afinidades do que nas diferenças,
mais na amizade e no erotismo do que na
dependência.
Por falar em amizade, o psicoterapeuta
lembra o quanto esse sentimento, que também
é uma forma de amor, pode trazer
felicidade. As amizades, a seu ver, sempre
acrescentam. Não é preciso
estar mal para curtir um amigo, para achar
graça e ter prazer em conviver.
Sente saudade, mas não dói,
e quando reencontra é uma enorme
satisfação. Não há
cobranças ou possessividade.
Gikovate considera os prazeres intelectuais
como prazeres positivos por excelência.
O gosto e a alegria que se tem com um
bom filme, um bom livro, uma boa conversa,
uma exposição de arte, uma
música que emociona, uma viagem.
Quem nunca presenciou a felicidade de
uma criança quando começa
a descobrir como funcionam as coisas?
O mundo do conhecimento é um mundo
de encantamento.
E há os prazeres do corpo –
sexualidade e práticas esportivas.
A atividade física libera endorfina,
é uma fonte de satisfação
cerebral, além de contribuir para
a saúde do corpo e para a boa disposição.
É um prazer positivo, desde que
não seja competitiva. O erotismo,
por sua vez, proporciona grande alegria
quando ocorre num clima de harmonia e
de confiança. Quando entram em
jogo a vaidade (um dos maiores inimigos
da felicidade), os conceitos de perfeição
física e performance excepcional,
o sexo deixa de ser uma adorável
troca de carícias para se transformar
numa infernal preocupação
com resultados.
Momentos de felicidade não acontecem
todo dia e a toda hora, conforme enfatiza
o psicoterapeuta. O estado de felicidade,
entretanto, é uma conquista perfeitamente
possível, se trabalhado de forma
consciente, com paciência e determinação.
“Para alcançar o equilíbrio
interior, é preciso ter maturidade
emocional, a fim de digerir as dores e
os sofrimentos e dar conta das frustrações
e contrariedades. Não tem jeito
de mudar a situação? Então,
dê baixa o mais rápido que
puder naquilo. Faça sua parte e
aceite com certa docilidade e humildade
o que não depende de você
– distinguir esse limite é
uma sabedoria. Uma maneira de se ajudar
nesse sentido e conquistar serenidade
é fazer um estágio na solidão,
para perceber melhor os próprios
interesses, cultivá-los e manter
a cabeça ocupada, seja com entretenimento,
seja com o trabalho cotidiano.”
Ele aponta o medo como o maior obstáculo
nessa questão: “As pessoas
se assustam quando acontece uma coisa
muito boa e acabam sabotando aquilo. É
a velha história, muita esmola
o santo desconfia, isso não vai
durar, vou levar uma ducha de água
fria... Por que não conseguimos
curtir com gosto, sem reservas, um reencontro
com um amigo, um namorico novo, a emoção
de um bom filme ou de uma viagem? Temos
um mecanismo autodestrutivo, que se ativa
quando não agüentamos aquela
cota de felicidade. Você sabe que,
se agir ou falar de determinada forma,
vai arrumar uma encrenquinha e não
resiste.”
Na sua análise, esse tipo de reflexo,
que se revela na origem de todo pensamento
supersticioso (quando se sente feliz,
o indivíduo bate na madeira, faz
figa, há até rituais de
proteção contra a ira dos
deuses), está relacionado ao trauma
do nascimento. “Estava eu muito
bem e aconchegado no útero e, de
repente, uma ruptura dramática,
o big bang – o nascimento,
o começo de todas as dores. Cada
vez que me aproximo dessa tranqüilidade,
pressinto que explodirá outro big
bang. Além disso, a recusa
ao prazer é um pensamento moral
e religioso. Nossa cultura valoriza mais
o sacrifício e a renúncia
do que a curtição dos prazeres.”
Combater essas fobias requer uma estratégia
de superação gradual e progressiva,
de acordo com o psicoterapeuta. Primeiro,
conhecer os mecanismos e formular uma
compreensão razoável do
conjunto. A partir desse entendimento,
montar uma estratégia gradativa
de avanços. “Vai mudar para
uma casa nova? Então não
compre um carro novo nesse período,
por exemplo. Uma coisa de cada vez”,
aconselha. “É assim que se
trata o medo: etapa por etapa. Acostumou?
Aí vai avançando aos poucos,
sem atropelar, sem se precipitar nem encrencar
com pequenas coisas. Quando tiver uma
relação amorosa de qualidade,
se você não fugir e compreender
como funcionam seus instintos de defesa,
ficará mais tranqüilo e conseguirá
viver aquela felicidade.”
Dentro dessa visão realista, Gikovate
afirma que é possível ser
feliz e reitera as condições
para isso: Ter ampla consciência
de todos os aspectos que interferem nessa
questão, em especial os impulsos
destrutivos. Evoluir moral e emocionalmente,
para poder resolver os problemas sentimentais
e ficar minimamente bem sozinho, conseguindo
lidar com as dores inevitáveis
da vida. Diante dos sucessos e avanços,
não fugir da raia, enfrentando
as novas situações passo
a passo. Não se fiar nos prazeres
aristocráticos e cuidar para não
cair nas armadilhas da vaidade, capazes
de prejudicar até o campo intelectual.
Finalmente, valorizar os prazeres democráticos,
que são muitos e propiciam um estilo
de vida mais feliz e harmonioso.