JUNHO -  2007     N 156
 VITRINE
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or formação, sou jornalista. E tradutora também. Por causa disso, passei a vida toda escrevendo, convivendo com a palavra, mas sempre com o texto alheio. Até o dia em que comecei a escrever ficção. Isso aconteceu quando eu já estava com 40 anos, sem aviso, de forma avassaladora, como uma necessidade imperiosa. Um jorro repentino que não parou mais, uma inundação, água e água e água, fertilizando e afogando, para o bem e para o mal. Era como se as histórias pedissem para ser contadas...”

Heloisa Seixas tem nove livros publicados: três romances (A porta, Diário de Perséfone e Pérolas absolutas), uma novela (Através do vidro), três volumes de contos (Pente de Vênus, Contos mínimos e Sete vidas), um infantil (Histórias de bicho feio) e um para jovens (Frenesi), estes dois últimos lançados no ano passado. Organizou também diversas obras, como os quatro volumes de As obras-primas que poucos leram, com artigos sobre literatura, e a trilogia de contos de terror Depois, Visões da noite e A casa do passado, reunindo mestres do gênero. E tem vários projetos a caminho, entre eles duas compilações de contos mínimos, com textos que publicava no Jornal do Brasil, e a organização (e, em parte, tradução) de uma coleção de escritoras inglesas do século 19.

“Sempre gostei de ler, mas quem despertou meu gosto pela leitura não foi nem livro, nem autor algum – foi a minha avó. Ela lia livros para nós quando éramos crianças e gostava também de contar histórias que aprendera na infância com uma babá analfabeta, ex-escrava, chamada Cunegundes. Muitas delas cantadas em versos, uma beleza”, lembra.

“É engraçado. Gosto cada vez mais de ler. Não imaginei que pudesse ser algo progressivo, mas é. Depois que comecei a escrever, o gosto foi crescendo, crescendo. Hoje leio 30, 40, talvez 50 livros por ano (agora tenho mania de anotar os livros que leio). Leio dois ou três ao mesmo tempo, desde alta literatura até as mais deliciosas porcarias, para as quais os críticos esnobes viram o nariz. E o que esses livros todos me propiciam de melhor? Essa capacidade fantástica de apagar o mundo à nossa volta.”

A escritora salienta que só gosta de literatura – ou melhor, só gosta de arte – que provoque algum tipo de emoção. “Pode ser tesão, nojo, compaixão, susto, enternecimento ou horror, não importa. Mas tem de mexer comigo de alguma forma. Tenho de fechar o livro e sentir que ficou em mim uma marca qualquer. Por isso, prefiro escritores viscerais a cerebrais. Gosto mais dos que contam histórias do que daqueles que oferecem apenas uma atmosfera. Prefiro Nabokov a Tchekhov, Isak Dinesen a Virginia Woolf”.

Prazer de ler? “É estar dirigindo, a caminho de casa, e dar um suspiro, quase sem sentir, pensando: Oba, vou ler meu livro! Prazer é fazer economia, ler poucas páginas de cada vez, temendo que o livro querido acabe. Prazer é esquecer que o universo existe na hora da leitura. Isso pode acontecer com a mais alta literatura ou com um livro de aventura. Pode ser O som e a fúria, de Faulkner, ou Ela de H. Rider Haggard.”

Para Heloisa, leitura é mais do que conhecimento e educação. “É a possibilidade de sonhar, a porta para a liberdade. Um dia, numa visita a um presídio, como parte de um projeto de criação de bibliotecas, conheci um homem-livro, um detento que andava de cela em cela, com um carrinho de mão cheio de livros, oferecendo-os aos outros presos. Ele disse que fazia isso porque, ao ler um livro, é como se o preso estivesse livre. Pode haver contribuição maior do que esta?”

Sua observação antes de sugerir alguns livros: “Quero ressaltar que poderia escolher qualquer conto de Poe ou de Borges, qualquer crônica de Nelson Rodrigues, qualquer trecho de Proust tirado ao acaso. E que vou deixar de fora, por óbvios, Eça, Machado e Guimarães Rosa”.

Orgulho e preconceito, de Jane Austen. As romancistas inglesas do século 19 eram grandes mestras da narrativa, todas elas. Escolhi a Jane Austen por ser a primeira, nascida ainda no século 18. Orgulho e preconceito é um livro tecnicamente perfeito.

A letra escarlate, de Nathaniel Hawthorne. É um livro forte, inquietante e belíssimo. Deixou uma marca em mim, perene. Aquela menininha assombrada me acompanha com sua solidão, que parece a solidão de Perséfone.

Ela, de H. Rider Haggard. Mais conhecido como autor de As minas do rei Salomão, Rider Haggard é outro mestre da narrativa, também do século 19 (o grande século da literatura, para mim). Só que, por ter escrito histórias de aventuras, consideradas infanto-juvenis, é desprezado pelos cânones. Mas é delícia pura.

O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. Foi um soco no estômago. Quando acabei de ler, fiquei sentada no sofá, sem conseguir me levantar.

O som e a fúria, de William Faulkner. Levei anos para tomar coragem e ler. Mas valeu a pena. Só um gênio conseguiria entrar na cabeça de um débil mental que sente o gosto das cores e fazer disso as primeiras 40 páginas do seu livro.

Lolita, de Vladimir Nabokov. Outro gênio, como Faulkner, que conseguiu penetrar na cabeça de um louco, um universo que me fascina e assombra.

De profundis, de Oscar Wilde. Um texto ímpar de Wilde, em que ele revela um lado mais humano, pungente. Foi escrito na cadeia, com lágrimas e sangue, e é um dos mais belos textos que já li.

As aves de Cassandra, de Per Johns. Um livro feito de camadas, com um ritmo encantatório. Para mim, Per Johns é um dos maiores escritores brasileiros vivos (e considero-o brasileiro, embora dinamarquês de nascença).

Carmen - Uma biografia, de Ruy Castro. Como mulher do Ruy, sei que sou suspeita ao incluí-lo. Mas acho, de verdade, que é a melhor biografia já publicada no Brasil.

 
 
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