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PRODUÇÃO:
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Meinerz, Vanessa Buenot

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PRODUÇÃO GRÁFICA:
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JORNALISTA RESPONSÁVEL:
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JANEIRO 2008 - Nº 06

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Ler histórias em quadrinhos vira lição de casa depois de o governo federal incluir na grade escolar clássicos da literatura como Dom Quixote em HQ, para alegria dos alunos e do mercado

Ninguém tem bola de cristal para dizer, com cem por cento de segurança, o que vai ocorrer na área de quadrinhos em 2008. Mas é possível ler alguns sinais de fumaça no horizonte, que começaram a ficar mais densos nos últimos meses de 2007. Com a decisão do governo federal de incluir adaptações literárias em listas de obras distribuídas em escolas do ensino fundamental, a expectativa é de que aumente significativamente o número de lançamentos do gênero já a partir deste ano. Um pelo menos já está confirmado: a adaptação de Dom Quixote. O clássico de Miguel de Cervantes foi feito em quadrinhos por Bira Dantas e será publicado pela Editora Escala.

A sinalização diz que haverá um aumento no número de produções nacionais mais longas, nos moldes do que é feito há décadas na Europa. Serão narrativas maiores, com mais páginas, que dialogam com a literatura, embora dela difiram por causa do uso da linguagem dos quadrinhos.

Pelo que se lê nos sinais de fumaça, trata-se de mais uma etapa do amadurecimento do mercado de quadrinhos, que invadiu as livrarias de 2005 para cá.

Até alguns anos atrás, as produções estrangeiras eram o chamariz. De material brasileiro, havia pouca coisa nas livrarias. Era possível encontrar alguns relançamentos, como o bom Estórias gerais, de Flavio Colin (1930-2002) e Wellington Srbek –, e obras do ressuscitado gênero literatura em quadrinhos – caso de A relíquia, de Eça de Queirós, refeita pelo desenhista Marcatti, e de O alienista, de Machado de Assis, pelos gêmeos Gabriel Ba e Fábio Moon.

Alexandre Linares, que atua na área editorial da Boitempo, defende que esse novo momento do quadrinho é conseqüência dessas adaptações literárias e das volumosas compras pelo governo (fala-se em mais de 30 mil exemplares de uma só obra).

Linares acompanhou de perto esse momento editorial. Até o ano passado, ele era o gerente de marketing da Conrad, uma das principais editoras do ramo, que publicou em 2007 A relíquia. O livro em quadrinhos bateu recorde de inserções da editora na mídia. “Esse boom fortalece também a produção nacional de quadrinhos”, diz Linares.

É o caminho que a própria Conrad tem seguido. Para este ano, pretende lançar mais três ou quatro livros nacionais de quadrinhos.



O mais próximo a ser lançado deve ser Almirante negro, nome provisório para a história da Revolta da Chibata, ocorrida em 1910. O ponto de vista da narrativa estará em João Cândido, o líder do movimento. O trabalho dos cearenses terá desenhos de Hemetério e texto de Olinto Gadelha.

Outro trabalho da Conrad programado para 2008 é Hi-fi, que será produzido por Marcelo Quintanilha. A obra trará várias histórias sobre o Rio de Janeiro.

Esse aquecimento do mercado levou a carioca Desiderata a criar um setor específico para obras nacionais em quadrinhos. A editora encontrou um nicho nas publicações brasileiras, motivado pelas duas antologias do jornal alternativo Pasquim, que garantiram repercussão – e dinheiro – à empresa. O primeiro lançamento dessa nova safra nacional é A boa sorte de Solano Dominguez, trabalho mais recente do escritor Wander Antunes. É o mesmo Antunes que no meio do ano passado lançou pela Pixel o álbum O corno que sabia demais e outras aventuras de Zózimo Barbosa.



O novo trabalho, feito em parceria com o desenhista Mozart Couto, conta a história de Solano Dominguez, um cafetão que vivia à custa da prostituição da esposa. Com a morte dela, vê na filha a tal “boa sorte” para continuar no ramo com renda fácil.

Outro lançamento da Desiderata é mais uma obra do falecido Flavio Colin. Segundo a editora, parte das páginas é inédita e foi obtida com a viúva do escritor e desenhista. Caraíba, nome do álbum, aborda um tema recorrente em Colin: a natureza e a proteção do meio ambiente; neste caso, da Floresta Amazônica.

Para a editora, as duas obras são apenas o início dos investimentos nos álbuns nacionais. “Vamos publicar outras, várias, muitas, todas que pudermos”, diz Lobo, nome pelo qual é conhecido o editor da área de quadrinhos da Desiderata.

Lobo tem um bom trânsito pela nova geração de autores nacionais. Ele editou, por anos, a extinta e premiada revista independente Mosh!, que revelou uma série de desenhistas brasileiros. Parte deles foi reaproveitada em outro lançamento da editora, que adapta 18 contos dos Irmãos Grimm em quadrinhos. Para o primeiro semestre deste ano, já há outros trabalhos em andamento. Um deles é Copacabana, assinado pelo próprio Lobo e desenhado por Odyr, diretor de arte da editora. Segundo Lobo, conta a história de Diana, uma prostituta da Avenida Atlântica, do Rio de Janeiro.

O cabeleira, outro álbum nacional da Desiderata, terá como foco um bandoleiro mau, que mata todos sem dó nem piedade. A trama se passa no Nordeste brasileiro do século 18 e é produzida por Leandro Assis, Alan Alex e Hiroshi Maeda.




Os heróis do brasil
A paulistana Devir foi uma das primeiras a investir nesse segmento de boas histórias com temas e autores nacionais. Tem no catálogo álbuns de Lourenço Mutarelli, roteirista do filme cult Cheiro do ralo, na fase em que ele ainda fazia quadrinhos (hoje, dedica-se a livros). A editora diz que tem outros planos, mas nada oficializado até o fechamento desta edição.

Uma das novas apostas pode ser o brasileiro Sérgio Macedo. No ano passado, a Devir publicou um dos trabalhos dele, Xingu!, até então uma história feita apenas para gringo ver. O álbum – que conta as viagens de um aventureiro estrangeiro para conhecer as tribos indígenas brasileiras da Amazônia – foi lançado há alguns anos na Europa e só chegou aqui em 2007. Na verdade, o trabalho chegou junto com seu autor.

Macedo – um cinqüentão com pinta de bem mais novo – havia deixado o país na metade da década de 1970. Queria respirar novos ares e encontrar outros caminhos profissionais. Foi acolhido inicialmente na França, mercado onde passou a publicar.

O desenhista voltou ao Brasil em 2007 à caça de editoras interessadas nas produções dele. Macedo prepara outro trabalho em que conta a história das tribos do Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso. Há um acordo verbal dele com a Devir para publicar esse trabalho. Mas o martelo ainda não foi batido.

A Companhia das Letras, tradicional editora de livros, começa a entrar na área de quadrinhos também, inclusive nacionais. A editora tem em catálogo Santô e os pais da aviação, biografia em quadrinhos de Santos Dumont feita por Spacca e a grande premiada de 2006 do Troféu HQMix, principal premiação de quadrinhos do país (venceu em quatro categorias).

O projeto nacional mais recente da Companhia das Letras, lançado na virada do ano, também envolve Spacca. É Dom João carioca – A corte portuguesa no Brasil (1808-1821). A obra vem para marcar os 200 anos da vinda da corte portuguesa ao Brasil. O texto é de Lilia Moritz Schwarcz.

Após esse projeto, Spacca volta à produção de uma obra que mostra como o petróleo pautou parte da vida de Monteiro Lobato. É possível, embora ainda não confirmado, que essa obra seja publicada pela editora.

“Essa é uma área que a gente está descobrindo, na qual temos interesse em fazer mais coisas”, diz Thyago Nogueira, um dos editores da Companhia das Letras. “Temos lido mais sobre o assunto.” ©







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