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JULHO 2008 - Nº 12

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Nas cartas, os sentimentos vão assinados e rendem alta literatura. Todos os livros são – na verdade – epístolas secretas ao leitor, roteiros surpreendentes e tensos de emoção. O escritor procura convencer quem vai lê-lo, provar que ele ou sua personagem é real e inadiável

A literatura brasileira começou por uma carta do escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha, ao rei de Portugal, Dom Manuel. Descreve o povo indígena e as exuberâncias inacreditáveis de Porto Seguro, numa tentativa de reconstituir os olhos com as mãos. “Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade... Não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.” Será que não estamos eternamente condenados a respondê-la?

Ao lado do diário, a epístola é um implacável recurso narrativo (pressupõe o diálogo com outrem enquanto o diário cede ao diálogo consigo). Comove e se impõe pela interlocução direta e sincera. Pode-se duvidar de qualquer coisa, menos de sua veracidade. É uma conversa à beira da decisão, demarcando uma despedida, uma confissão ou um pedido de perdão. Algo como um segredo partilhado: taquicardia e mancha. O ficcionista Luiz Ruffato destaca a força de sua transparência: “A narrativa tradicional, mesmo em primeira pessoa, é seletiva - o leitor desconfia que o autor está escondendo algo dele. Na epistolografia, não, a sensação é de que nada nos está sendo omitido.”

O envelope funciona como ponto de encontro dos sedutores e dos angustiados, dos abandonados e dos confiantes. Os apaixonados ultrapassam o certo e o errado, as convenções, para serem fiéis ao seu destino.

Desejo
As privações e tragédias não interrompem o desejo do corpo na escrita. Emblemático é o enlace do filósofo e teólogo francês Abelardo (1079-1142), considerado um dos maiores intelectuais do século 12 e precursor do racionalismo, com sua aluna Heloísa (1100-1164). Diante da trama acidentada deles, Romeu e Julieta parece literatura infanto-juvenil.

Clérigo e cônego, numa época em que se respeitava o voto religioso para ensinar, Abelardo apaixonou-se por Heloísa, vinte anos mais nova. Tiveram um filho, Astrolá-bio, e casaram-se secretamente, colocando em risco a reputação de ambos.

O tio de Heloísa, Fulbert, descontente com as maledicências e fofocas, mandou castrar Abelardo, que tomou o ato como um castigo divino e adotou a vida monástica em Saint-Denis. Para respeitar seu amado, Heloísa entrou para um convento. Distantes, os dois se corresponderam em longas e cáli-das cartas, mas nunca mais se falaram pes-soalmente. A declaração de Heloísa sinaliza a seriedade dos seus múltiplos sacrifícios. Faria (e fez) qualquer coisa por Abelardo, inclusive se negar: “Eu, Deus o sabe, eu não teria hesitado em te seguir ou em te preceder no inferno se me tivesses ordenado a fazê-lo. Não era comigo que estava meu coração, mas contigo. E ainda agora, e mais que nunca, se ele não está contigo, ele não está em parte alguma, pois lhe é impossível ser sem ti.”



Amor proibido
Se não fosse o casal perfeito papel-tinta, nunca se tomaria conhecimento do amor proibido de uma freira portuguesa e de um capitão de cavalaria francês, uma das histórias mais fascinantes de arrebatamento. Mariana Alcorofado (1640-1723) usou a correspondência como último recurso para atenuar a saudade do conde de Chamilly. Nem Deus a proibiu de escrever: “Sei muito bem que é tão fácil para você se deixar levar contra mim quanto eu me deixar levar a seu favor”. Ela lutava esgrima com a pena. “Tenho essa espécie de ciúme de minha paixão por você”, confessa.

Amor impossível combina com selo. Uma amostra são as cartas do jovem Franz Kafka (1883-1924) a Milena Jesenká. A troca de confidências começa respeitosa, sobre assuntos literários, para adquirir um clima apaixonado de doação. Não ficam juntos, pois Milena é casada e “queria muito seu marido para abandoná-lo”. Kafka leva a pior na vida para sempre se dar bem na literatura (será que compensa?)

Sofre-se com o tom declarado e encur-ralado do missivista, que deixa de assinar F. Kafka para rubricar apenas F. “Agora perco também o nome; cada vez se torna mais breve e chegou a ser somente: Teu.”, explica para Milena.

Talvez por isso Marcelo Backes, que conduz um curso sobre os maiores amantes da literatura no Rio, não gostaria de ser nenhum dos seus estudados, apesar da fama e da glória obtidas nas letras. A explicação é simples. “Todos acabam mal, uma necessidade da literatura que se pretende grande. A grande arte tem de revolver o entulho mais recôndito da alma, denunciar suas leviandades e rir de sua perfídia e depois rir de si mesma como parte delas.”

O alcance da palavra
Luxo, ideologia, crenças são postos abaixo no momento do sussurro e do gemido da caneta. Numa representação contemporânea de que as cartas nunca saem de moda, o sociólogo André Gorz, de sisudo trajeto mar-xista, despe suas formalidades para tecer uma homenagem a Dorine, sua mulher durante quase sessenta anos.

A Carta a D. é uma bomba de gás lacrimogêneo, apropriada a sensibilizar rostos intransigentes. Dedica seu derradeiro livro a ser justo com a única mulher de sua vida. “Carrego no meu peito um vazio devorador, que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher”. Derruba, assim, a tese de que a paixão dura apenas dois anos.

Ao cabo, ele comenta: “Se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos.” A fidelidade foi tão imensa que André, enxergando a gravidade da doença de Dorine, decide se matar com ela em 22 de setembro de 2007. Um não iria suportar a morte separado do outro.

Algumas vezes, o papel é mais do que o último recurso. Ultrapassa até o fim. Em 31 de dezembro de 1926, a poeta russa Marina Tsvetáieva manda um apelo ao seu amor, Rainer Maria Rilke.

“Ó Rainer, escreve-me (é por demais estúpido este pedido?)” Rilke já estava morto havia dois dias, e ela já sabia. Mesmo assim, não subestimou o alcance de sua voz. Recapitulando os clássicos, muitos foram erguidos por um castelo de cartas. Os romances, por exemplo, Julia ou a nova Heloísa, de Rousseau, e Pamela, de Richardson. O mais conhecido e divisor de águas terminou sendo Os sofrimentos do jovem Werther (1774), do alemão Goethe (1749-1832), elaborado numa febre de quatro semanas e um dos preferidos até de Napoleão, que se gabava de o ter lido sete vezes.

As cartas são escritas pelo protagonista e organizadas postumamente por um amigo, Guilherme, que apresenta o herói e exerce o papel de editor. Werther detalha os passos de seu amor incompreendido por Carlota. O volume é uma das primeiras demonstrações de influência da literatura na sociedade. Gerou uma onda de suicídios na Alemanha, chegando até a ser proibido. Jovens român-ticos se vestiam de fraque azul e colete ama-relo, como o personagem, e redigiam cartas desesperadas às namoradas.



Devoção que seduz
Se as cartas de amor são ridículas, como preceituava Fernando Pessoa, mais ridículo é quem as despreza. É uma arma da insistência. De tanto bater na porta, a porta se abre. Uma tática da devoção. “Acredito piamente na capacidade de persuasão de uma carta de amor. Uma carta por dia e não há mulher no mundo que não se dobre”, diz Backes. Foi um bilhete posto furtivamente no casaco que baqueou o coração da escritora Martha Medeiros. “Uma vez saí para caminhar com um cara no centro de Porto Alegre, à noite (pro amor sou sempre corajosa). Sem que eu percebesse, ele colocou um papel no bolso do meu casaco. Só li quando cheguei em casa: era um poema escrito por ele, à mão, e lindo... Ele que nem poeta era. Anos depois estávamos casados e ficamos juntos por 21 anos.”, recorda.

Martha Medeiros entende do assunto. Além de já ter publicado os poemas de Cartas extraviadas, lançou o livro Tudo que eu queria te dizer, rodadas de correspondências reunidas pelo sentimento de fim de jogo. São remetentes em situações-limites. “Sou da era pré-internet, então já escrevi e recebi inúmeras cartas, e guardo a maioria delas. A palavra escrita é a prova inconteste do que você vi veu. Hoje me rendo ao e-mail, que é um facilitador de contatos, nada tenho contra a instantaneidade, mas reconheço que as emoções hoje andam tão efêmeras que mal rendem um parágrafo, quanto mais uma lauda toda manuscrita”, confessa a autora.

O ardor pelo artesanato lento da cola-ofício é igualmente partilhado por Luiz Ruffato, que publicou o seu primeiro trabalho juvenil, De mim já nem se lembra. Divulga uma pilha do correio de seu irmão destinado à sua mãe, registrando a tentativa de sobre-vivência financeira de um metalúrgico mi-neiro em São Paulo. O detalhe é que ele próprio inventou as cartas, reconstituindo a informalidade e o afeto da saudade.

“Meu irmão, José Célio, morou em Diadema durante alguns meses de 1974, e morreu em 1978. Eu queria muito recuperar a memória dele, mas também resgatar esse período extremamente importante da história brasi-leira. Nas cartas, que ele infelizmente não es-creveu, procuro assumir a identidade dele e descrever os acontecimentos com os olhos de alguém que, embora não compreendendo o alcance das modificações que se processavam à sua volta, participa efetivamente dessas mo-dificações”, esclarece.



Não deixa de ser curioso que foi uma caligrafia solta dentro de um livro, tal inusitado mar-cador de página, que despertou o desejo de Ruffato de explorar a ficção. “Certa vez, comprei um livro num sebo e, como sempre faço, chegando em casa o submeti a uma limpeza geral. De repente, caiu um papel dobrado em quatro partes, amarelado, mas perfeito. Abri, era uma carta, escrita a caneta tinteiro, uma letra linda, datada mais ou menos da época do livro (década de 30), em que alguém relatava a uma pessoa querida a morte do marido. Um documento de uma sensibilidade raramente encontrada nas pá-ginas dos livros. Curiosamente, coloquei essa carta novamente entre as páginas do livro, pois a sensação que tive era a de que estava maculando a história daquelas pessoas. Nunca mais a encontrei. Por mais que procurasse, era como se ela nunca tivesse existido. Talvez, a minha literatura seja apenas isso: dar áquela carta sua destinação original.”

Esperanças
As cartas iniciam antes de escrevê-las, como revelou o fotógrafo paulista Mário Rui. Está expressa no gesto simbólico dos mais pobres de criar caixinhas de correspondência. Sinal de individualidade e afirmação social.

No livro Quando o carteiro chegar, Rui fotografou diferentes caixas de São Paulo, apa-nhando sua improvisação e a motivação de seus portadores. “Carteiro chega a todo lugar (‘casa do Zé atrás do bar do Mané na favela tal’ já é o suficiente). Eu sempre gostei da minúcia. E a caixa de correio é uma enorme minúcia da casa”, define o artista.

Uma das imagens da obra dimensiona o respeito poético dos moradores pelas cartas. Após finalizar sua caixinha branca, o dono colocou um telhado para protegê-la da chuva. Não desejava desperdiçar sua beleza. Um guarda-chuva permanente para nunca borrar a letra e a esperança por melhores notícias. ©







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