●   Home
●   A arte de sublimar a dor
●   A enfermidade na música e na pintura
●   Vitrine
●   Curtas
●   Os caminhos da criação
●   Fiódor Dostoiévski
●   Revista da Cultura
●   Enviar para um amigo
●   Todas as edições









CONJUNTO NACIONAL
Av. Paulista, 2.073
CEP 01311-940
São Paulo, SP
Tel: (11) 3170-4033
Fax: (11) 3285-4457

SHOPPING
VILLA-LOBOS

Av. Nações Unidas, 4.777
CEP 05477-000
São Paulo, SP
Tel: (11) 3024-3599
Fax: (11) 3024-3570

MARKET PLACE SHOPPING CENTER
Av. Dr. Chucri Zaidan, 902
CEP 04583-903
São Paulo - SP
Tel: (11) 3474-4033
Fax: (11) 3474-4099

BOURBON
SHOPPING COUNTRY

Av. Túlio de Rose, 80
CEP 91340-110
Porto Alegre, RS
Tel: (51) 3028-4033
Fax: (51) 3021-1777

PAÇO ALFÂNDEGA
R. Madre de Deus, s/n
CEP 50030-110
Recife, PE
Tel: (81) 2102-4033
Fax: (81) 2102-4200

CASAPARK
SHOPPING CENTER

SGCV/Sul
Lote 22
CEP 71215-100
Brasília - DF
Tel: (61) 3410-4033
Fax: (61) 3410-4099


DIREÇÃO GERAL:
Pedro Herz

Coordenadora administrativa:
Milena Tincani

Coordenadora editorial:
Thaís Arruda

Editor:
Sérgio Miguez

Editor-adjunto:
Ruy Barata Neto

Assistente de redação:
Camila Azenha

Revisoras:
Mirian Paglia Costa e Potira Cunha

COLABORADOR:
Luciana Christante

Ilustração da capa e contra-capa:
José Carlos Lollo

Produtora gráfi ca:
Elaine Beluco


Agradecimentos:
Carol Grespan e Lourenço Mutarelli

WEB DESIGN:
Leonardo C. Lazo
Rafael D. Bento

OUTUBRO 2008 - Nº 15






A doença sempre foi uma musa inspiradora para cientistas e escritores. Musa indesejada e inconveniente, que se instala na vida das pessoas sem permissão, deflagrando uma guerra que a medicina combate com evidências, hipóteses, intervenções objetivas, raciocínio analítico; ao passo que a literatura responde com as emoções, com a beleza destilada a partir da dor e do absurdo, com o discurso poético ou a narrativa ficcional que comove leitores de qualquer época. Para Thomas Mann, a doença é o lado reversível do amor, uma paixão transformada. E é esse caráter transformador e transcendente, para além dos sintomas e dos remédios, que com regularidade tem levado diversos escritores a realizar obras extraordinárias, lições de vida indicadas a qualquer pessoa, saudável ou não, sem efeitos colaterais.

Na literatura brasileira, Manuel Bandeira é um dos mais notáveis exemplos. Desenganado aos 18 anos com o diagnóstico de tuberculose, o poeta interrompeu o curso de Arquitetura em São Paulo para se internar em sanatórios em regiões montanhosas como Campos de Jordão, cujo clima ameno e ar puro eram indicados para quem sofria desta moléstia, na época incurável, e tão ou mais assustadora que o câncer nos dias de hoje. “A poesia de Bandeira nasceu desses momentos de reclusão e ócio, dessa proximidade com a morte, da percepção de que cada segundo pode ser o último”, explica Yudith Rosenbaum, psicanalista e professora de literatura da Universidade de São Paulo. Além da enfermidade, a solidão foi outro aspecto marcante na vida do poeta recifense. Com a perda sucessiva de pessoas da família e sem nunca ter se casado, teve a doença como sua mais íntima e fiel companheira. E o que poderia ter sido motivo de desespero e até suicídio, como era comum entre tuberculosos na virada do século 20, foi transfigurado em epifania poética. “É admirável como ele transformou a melancolia em luto, o que é uma forma saudável de elaborar as perdas”, diz Rosenbaum. Segundo a pesquisadora, isso fica evidente ao longo de sua obra. Em A cinza das horas (1917), seu primeiro livro, Bandeira trata a doença como um destino trágico: “Sou bem-nascido, Menino/Fui, como os demais, feliz./Depois, veio o mau destino/E fez de mim o que quis”. Anos mais tarde, já como um autêntico modernista, mostrase fortalecido, por vezes irônico, capaz até mesmo de gozar da morte e de si mesmo, como em Libertinagem (1930): “Quando a indesejada das gentes chegar/(Não sei se dura ou caroável)/Talvez eu tenha medo./Talvez sorria, ou diga:/-Alô, iniludível!”. Bandeira viveu até os 82 anos.

SENTIDO AGUDO DA VIDA
A tuberculose deixou marcas na vida e na obra de muitos escritores: Álvares de Azevedo, Castro Alves, Edgar Allan Poe, Franz Kafka, Anton Tchékhov, Lord Byron, Robert Louis Stevenson, entre tantos outros. De forma mais ou menos explícita, todos eles manifestaram “esse estado febril, esse sentido agudo da passagem da vida quando se tem uma doença grave”, afirma o escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar, autor de A paixão transformada, uma coleção de ensaios sobre a história da medicina na literatura.

Essa urgência de vida também aparece em textos literários de autores que padeceram de outras enfermidades, mas principalmente daquelas que carregam estigmas e preconceitos, como foi o caso do também gaúcho Caio Fernando Abreu e sua batalha contra a Aids. “A vida me dava pena, eu não sabia que o corpo podia ser tão frágil e sentir tanta dor. Certas manhãs chorei (...) Mas à noite, quando os néons acendiam, de certo ângulo a Doutor Arnaldo me parecia o Boulevard Voltaire, em Paris, onde vive um anjo sufista que vela por mim. Tudo parecia em ordem então. Sem rancor nem revolta, só aquela imensa pena da Coisa Vida dentro e fora das janelas, bela e fugaz feito as borboletas que duram um só dia depois do casulo. Pois há um casulo rompendo-se lento, casca sendo abandonada”, escreveu no jornal O Estado de S. Paulo dois anos antes de sua morte em 1996. A literatura da doença é também de resistência e transformação social.




MACHADO E DOSTOIÉVSKI
A epilepsia foi outro mal que influenciou a obra de alguns autores, dos quais os maiores expoentes são Machado de Assis e Fiódor Dostoiévski. O escritor russo criou dois personagens epiléticos: Kirilov, de Os demônios (1872), e o príncipe Michkin, de O idiota (1869), descrevendo em ambos a aura extática, fenômeno visual presente em algumas formas do distúrbio, explica Elza Márcia T. Yacubian, neurologista do Fleury Medicina e Saúde e especialista em história da epilepsia.

A convivência de Machado com as convulsões foi dramática, especialmente no fim da vida, quando se tornaram mais freqüentes. “Ele fez tudo para esconder a doença, o que é compreensível, já que naquele tempo a epilepsia era erroneamente associada a uma personalidade criminosa e, além do mais, ele já carregava o estigma de ser negro”, diz a neurologista. Provavelmente por isso, o bruxo do Cosme Velho não tenha retratado a enfermidade explicitamente em sua ficção; em compensação, a medicina está presente em muitos de seus livros, sempre de forma crítica e com a ironia que lhe era característica, como em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), O alienista (1882) e Memorial de Aires (1908). Em Quincas Borba (1891), escreveu: “Fique desde já admitido que, se não fosse a epidemia de Alagoas, talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catástrofes são úteis, e até necessárias”. Nas crônicas, ele foi um ardente defensor da homeopatia, pois conhecia bem os efeitos colaterais dos remédios alopáticos da época. “Eu vejo Machado como uma pessoa que venceu a doença com sua literatura. Um exemplo para os pacientes que ainda hoje enfrentam muitos preconceitos”, conclui Yacubian.

TEMPOS DE PESTE
A literatura também foi um importante instrumento de registro histórico das grandes epidemias que assolaram o mundo ao longo dos tempos. Um exemplo, entre os clássicos, é Decameron, do italiano Giovanni Boccaccio, uma coleção de cem novelas escritas entre 1348 e 1353 que relatam a peste negra, a pior epidemia de peste bubônica já registrada e que dizimou até um terço da população européia. Em A peste (1947), o francês Albert Camus usa a mesma doença para criar uma narrativa em que os habitantes de Oran, na Argélia, descobrem a solidariedade e refletem sobre a condição humana enquanto convivem com a ameaça da infecção na cidade isolada, o que também pode ser entendido como uma metáfora da guerra.

Para Celso Granato, infectologista do Fleury Medicina e Saúde, conhecer estas histórias ajuda a relativizar as ameaças da atualidade, como a gripe aviária. “As epidemias sempre existiram, mas a atual facilidade de comunicação encurtou distâncias e às vezes isso gera uma reação desproporcional nas pessoas”, diz. Segundo ele, é preciso lembrar que não só a medicina está muito mais preparada para combater esses problemas, como também tais eventos foram importantíssimos para impulsionar os avanços médicos. Um exemplo é a história da poliomielite, cuja vacina criada por Albert Sabin, em 1960, é resultado da pressão da população americana por uma solução para a doença que afetava principalmente crianças, mas que chocou a todos quando o presidente Franklin Roosevelt foi vítima do mesmo problema. “Os americanos não se conformavam em perder a batalha para um vírus depois de ter vencido a Segunda Guerra”, explica o infectologista.

REMÉDIO PARA A ALMA
De certa forma, uma estante de livros funciona como uma prateleira de remédios. Muitas vezes escolhemos o título ou o autor como se fossem o princípio ativo que poderá aliviar conflitos existenciais ou suprir o déficit daquela vitamina essencial que se chama poesia. Tem gente que fica até “viciada” nela – talvez o único vício saudável de que se tenha notícia. Os antigos gregos já diziam que as palavras eram um verdadeiro remédio para as mentes sofredoras e não é de admirar que a leitura tenha se tornado um recurso terapêutico. No livro O terapeuta e o lobo – A utilização do conto na psicoterapia da criança, o psiquiatra, poeta e escritor Celso Gutfreind fala da importância das narrativas curtas como antídoto contra o medo e para o reforço da identidade das crianças. Vários psicoterapeutas prescrevem textos literários também a seus pacientes adultos, o que tem sido chamado de “biblioterapia”. “A literatura proporciona esse apoio psicológico e não é por outro motivo que os livros de auto-ajuda se tornaram tão populares”, diz Moacyr Scliar. Nessa imensa farmácia para a alma que é uma livraria, cabe a cada um encontrar o produto mais adequado a suas necessidades. Neste caso – e apenas nele – a “automedicação” é altamente recomendável.





Site: www.livrariacultura.com.br
E-mail: livros@livrariacultura.com.br
ReadOZ