|
|

|
|
A doença sempre foi uma musa inspiradora para cientistas e escritores. Musa indesejada e
inconveniente, que se instala na vida das pessoas sem permissão, deflagrando uma guerra
que a medicina combate com evidências, hipóteses, intervenções objetivas, raciocínio analítico;
ao passo que a literatura responde com as emoções, com a beleza destilada a partir
da dor e do absurdo, com o discurso poético ou a narrativa ficcional que comove leitores
de qualquer época. Para Thomas Mann, a doença é o lado reversível do amor, uma paixão transformada.
E é esse caráter transformador e transcendente, para além dos sintomas e dos remédios, que com regularidade
tem levado diversos escritores a realizar obras extraordinárias, lições de vida indicadas a qualquer
pessoa, saudável ou não, sem efeitos colaterais.
Na literatura brasileira, Manuel Bandeira é um dos mais notáveis exemplos. Desenganado aos 18 anos
com o diagnóstico de tuberculose, o poeta interrompeu o curso de Arquitetura em São Paulo para se
internar em sanatórios em regiões montanhosas como Campos de Jordão, cujo clima ameno e ar puro
eram indicados para quem sofria desta moléstia, na época incurável, e tão ou mais assustadora que o
câncer nos dias de hoje. “A poesia de Bandeira nasceu desses momentos de reclusão e ócio, dessa proximidade
com a morte, da percepção de que cada segundo pode ser o último”, explica Yudith Rosenbaum,
psicanalista e professora de literatura da Universidade de São Paulo. Além da enfermidade, a
solidão foi outro aspecto marcante na vida do poeta recifense. Com a perda sucessiva de pessoas da
família e sem nunca ter se casado, teve a doença como sua mais íntima e fiel companheira. E o que
poderia ter sido motivo de desespero e até suicídio, como era comum entre tuberculosos na virada do
século 20, foi transfigurado em epifania poética. “É admirável como ele transformou a melancolia em
luto, o que é uma forma saudável de elaborar as perdas”, diz Rosenbaum. Segundo a pesquisadora, isso
fica evidente ao longo de sua obra. Em A cinza das horas (1917), seu primeiro livro, Bandeira trata a
doença como um destino trágico: “Sou bem-nascido, Menino/Fui, como os demais, feliz./Depois, veio
o mau destino/E fez de mim o que quis”. Anos mais tarde, já como um autêntico modernista, mostrase
fortalecido, por vezes irônico, capaz até mesmo de gozar da morte e de si mesmo, como em Libertinagem
(1930): “Quando a indesejada das gentes chegar/(Não sei se dura ou caroável)/Talvez eu tenha
medo./Talvez sorria, ou diga:/-Alô, iniludível!”. Bandeira viveu até os 82 anos.
SENTIDO AGUDO DA VIDA
A tuberculose deixou marcas na vida e na obra de muitos escritores: Álvares de Azevedo, Castro Alves,
Edgar Allan Poe, Franz Kafka, Anton Tchékhov, Lord Byron, Robert Louis Stevenson, entre tantos
outros. De forma mais ou menos explícita, todos eles manifestaram “esse estado febril, esse sentido
agudo da passagem da vida quando se tem uma doença grave”, afirma o escritor e médico gaúcho
Moacyr Scliar, autor de A paixão transformada, uma coleção de ensaios sobre a história da medicina
na literatura.
Essa urgência de vida também aparece em textos literários de autores que padeceram de outras enfermidades,
mas principalmente daquelas que carregam estigmas e preconceitos, como foi o caso do
também gaúcho Caio Fernando Abreu e sua batalha contra a Aids. “A vida me dava pena, eu não sabia
que o corpo podia ser tão frágil e sentir tanta dor. Certas manhãs chorei (...) Mas à noite, quando os
néons acendiam, de certo ângulo a Doutor Arnaldo me parecia o Boulevard Voltaire, em Paris, onde
vive um anjo sufista que vela por mim. Tudo parecia em ordem então. Sem rancor nem revolta, só
aquela imensa pena da Coisa Vida dentro e fora das janelas, bela e fugaz feito as borboletas que duram
um só dia depois do casulo. Pois há um casulo rompendo-se lento, casca sendo abandonada”, escreveu
no jornal O Estado de S. Paulo dois anos antes de sua morte em 1996. A literatura da doença é também
de resistência e transformação social.
|
MACHADO E DOSTOIÉVSKI
A epilepsia foi outro mal que influenciou a obra de alguns autores, dos quais os maiores expoentes são
Machado de Assis e Fiódor Dostoiévski. O escritor russo criou dois personagens epiléticos: Kirilov, de
Os demônios (1872), e o príncipe Michkin, de O idiota (1869), descrevendo em ambos a aura extática,
fenômeno visual presente em algumas formas do distúrbio, explica Elza Márcia T. Yacubian, neurologista
do Fleury Medicina e Saúde e especialista em história da epilepsia.
A convivência de Machado com as convulsões foi dramática, especialmente no fim da vida, quando se
tornaram mais freqüentes. “Ele fez tudo para esconder a doença, o que é compreensível, já que naquele
tempo a epilepsia era erroneamente associada a uma personalidade criminosa e, além do mais, ele já carregava
o estigma de ser negro”, diz a neurologista. Provavelmente por isso, o bruxo do Cosme Velho não tenha
retratado a enfermidade explicitamente em sua ficção; em compensação, a medicina está presente em muitos
de seus livros, sempre de forma crítica e com a ironia que lhe era característica, como em Memórias
póstumas de Brás Cubas (1881), O alienista (1882) e Memorial de Aires (1908). Em Quincas Borba
(1891), escreveu: “Fique desde já admitido que, se não fosse a epidemia de Alagoas, talvez não chegasse a
haver casamento; donde se conclui que as catástrofes são úteis, e até necessárias”. Nas crônicas, ele foi um
ardente defensor da homeopatia, pois conhecia bem os efeitos colaterais dos remédios alopáticos da época.
“Eu vejo Machado como uma pessoa que venceu a doença com sua literatura. Um exemplo para os pacientes
que ainda hoje enfrentam muitos preconceitos”, conclui Yacubian.
TEMPOS DE PESTE
A literatura também foi um importante instrumento de registro histórico das grandes epidemias que assolaram
o mundo ao longo dos tempos. Um exemplo, entre os clássicos, é Decameron, do italiano Giovanni
Boccaccio, uma coleção de cem novelas escritas entre 1348 e 1353 que relatam a peste negra, a pior epidemia
de peste bubônica já registrada e que dizimou até um terço da população européia. Em A peste (1947), o
francês Albert Camus usa a mesma doença para criar uma narrativa em que os habitantes de Oran, na Argélia,
descobrem a solidariedade e refletem sobre a condição humana enquanto convivem com a ameaça da
infecção na cidade isolada, o que também pode ser entendido como uma metáfora da guerra.
Para Celso Granato, infectologista do Fleury Medicina e Saúde, conhecer estas histórias ajuda a relativizar
as ameaças da atualidade, como a gripe aviária. “As epidemias sempre existiram, mas a atual facilidade
de comunicação encurtou distâncias e às vezes isso gera uma reação desproporcional nas
pessoas”, diz. Segundo ele, é preciso lembrar que não só a medicina está muito mais preparada para
combater esses problemas, como também tais eventos foram importantíssimos para impulsionar os
avanços médicos. Um exemplo é a história da poliomielite, cuja vacina criada por Albert Sabin, em
1960, é resultado da pressão da população americana por uma solução para a doença que afetava
principalmente crianças, mas que chocou a todos quando o presidente Franklin Roosevelt foi vítima
do mesmo problema. “Os americanos não se conformavam em perder a batalha para um vírus depois
de ter vencido a Segunda Guerra”, explica o infectologista.
REMÉDIO PARA A ALMA
De certa forma, uma estante de livros funciona como uma prateleira de remédios. Muitas vezes escolhemos
o título ou o autor como se fossem o princípio ativo que poderá aliviar conflitos existenciais
ou suprir o déficit daquela vitamina essencial que se chama poesia. Tem gente que fica até “viciada”
nela – talvez o único vício saudável de que se tenha notícia. Os antigos gregos já diziam que
as palavras eram um verdadeiro remédio para as mentes sofredoras e não é de admirar que a leitura
tenha se tornado um recurso terapêutico. No livro O terapeuta e o lobo – A utilização do conto na
psicoterapia da criança, o psiquiatra, poeta e escritor Celso Gutfreind fala da importância das narrativas
curtas como antídoto contra o medo e para o reforço da identidade das crianças. Vários psicoterapeutas
prescrevem textos literários também a seus pacientes adultos, o que tem sido chamado
de “biblioterapia”. “A literatura proporciona esse apoio psicológico e não é por outro motivo que os
livros de auto-ajuda se tornaram tão populares”, diz Moacyr Scliar. Nessa imensa farmácia para a
alma que é uma livraria, cabe a cada um encontrar o produto mais adequado a suas necessidades.
Neste caso – e apenas nele – a “automedicação” é altamente recomendável.
|
|

|
|