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Novembro 2008 - Nº 16

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CAPA:
Ilustração de Samuel Casal






Isaac Newton, pai da física moderna, gostava de dizer “hypotheses non fingo”, ou “não faço hipóteses”: a aventura científica, nos rigores mecanicistas newtonianos, era um esforço intempestivamente catalogador de números coletados. No começo do século 20, Albert Einstein, no pleno domínio de sua mente multitudinária, enveredou por caminho oposto. Chamava a si mesmo de “Don Quixote de La Einsta”, tamanha sua capacidade de construir um edifício teórico com base em intuições e paisagens mentais. E, como que numa determinação genialmente enfeitiçada, jogou uma pá de cal sobre Newton ao dizer: “Toda teoria deve ser livremente inventada, repito: livremente inventada”. Colisões à parte, o cânon de ambos avançou para o século 20 e chega ao 21 com outro nome: pensamento sistêmico; e seu maior arauto é, sem dúvida, Fritjof Capra, que estará na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, para ministrar palestra sobre seu mais recente livro, A ciência de Leonardo da Vinci.

Capra jamais abjurou da fé de traduzir temas complexos em leituras agradáveis sem nunca perder a elegância, a eufonia e o ethos de que, afinal de contas, é um cientista de primeira ordem falando a também cientistas e, sobretudo, aos beletristas que aspiram a tal. Sua pesquisa sobre da Vinci não poderia ser diferente. Quem ganha é o leitor, de todas as classes do conhecimento. Para os versados em topologia e matemática, o apêndice da obra, intitulado “A geometria das transformações de Leonardo” é uma genial aula de topologia aplicada à arte.

“Da Vinci foi um gênio único, que inspirava seu trabalho em relações, contextos, processos. A isso chamo de pensamento sistêmico”, disse à reportagem, numa conversa por telefone, de Barcelona (veja entrevista na página 29). Para ele, o método do artista de reavaliar repetidamente suas idéias teóricas em várias áreas significava que ele nunca via qualquer uma de suas explicações como definitiva. “Essa é uma característica geral do método científico moderno”, escreve. “Apesar de cientistas publicarem seus trabalhos em vários estágios de conclusão em ensaios, monografias e livros didáticos, a ciência como um todo é sempre um trabalho em andamento. Velhos modelos e teorias continuam a ser substituídos por novos, que são julgados superiores, mas todavia limitados e aproximados, destinados por sua vez a ser substituídos conforme o avanço do conhecimento”, relata em sua obra.

PRECURSOR
Não é de hoje, justiça seja feita, que Fritjof Capra vem defendendo o chamado pensamento sistêmico, mas é claro que não sustentou esse pensamento sem receber críticas. Muitos filósofos das ciências dizem que, ao defender “holismos”, corre o mesmo risco que o físico Wolfgang Pauli, nascido em Viena, em 1900, cujo trabalho foi apontado como “propenso ao obscurantismo” desde que se aproximou do psicanalista Carl Jung e das suas teorias de sincronicidade. Mas o livro de Capra sobre da Vinci é, de pronto, uma moeda sonante para quem quer estudar filosofia das ciências e, sobretudo, entender o método científico do renascentista.

Detalhista ao extremo, o autor descreve, em algumas passagens, como da Vinci construiu uma trama investigativa em que se entrecruzavam objetos de pesquisa para encontrar similaridades entre eles. “As comparações de Leonardo entre formas orgânicas e processos em diferentes espécies são muito mais do que simples analogias. Quando investiga similaridades entre esqueletos de diferentes vertebrados, estuda o que os biólogos hoje chamam de ‘homologias’ – correspondências estruturais entre espécies diferentes, devido à sua descendência evolucionária de um ancestral em comum”. Dissecando o método do pintor, Capra é taxativo: sem dúvida, ele é o avô espiritual do pensamento e da pesquisa sistêmica.

“As similaridades nas expressões de fúria nas faces de animais e humanos também são homologias, que têm origem em semelhanças na evolução de músculos da face. A analogia entre a pele das veias humanas e a casca de laranjas durante o processo de envelhecimento decorre de que, em todos esses casos, ele estava observando o comportamento de tecidos vivos”, afirma. “Em todos esses casos, ele percebeu intuitivamente que formas vivas em espécies diferentes exibem padrões similares. Hoje, explicamos esses padrões em termos de estruturas celulares microscópicas e de processos metabólicos e evolucionários. Leonardo, é claro, não tinha acesso a esse nível de explanação, mas percebeu corretamente que, ao longo da criação da grande diversidade de formas, a natureza usou muitas e muitas vezes os mesmos padrões básicos de organização”, explica.

A importância de A ciência de Leonardo da Vinci para quem estuda todas as ciências é atestada por quem faz disso sua razão de ensinar, como, por exemplo, Gildo Magalhães – professor livre-docente de História da Ciência na USP e autor de Introdução à metodologia da pesquisa. Gildo ministra em toda a universidade, há mais de dez anos, a disciplina que trata de encetar novas visões na ideologia e na filosofia das ciências. “É no contexto de uma consciência implícita da idéia de progresso que se pode avaliar melhor a importância da obra de artista, de engenheiro e de cientista de da Vinci. Não é aceitável a idéia de que alguns dos grandes nomes do Renascimento não foram homens de ciência apenas porque não criaram um método indutivo ou de formalismo matemático. As sementes do método experimental moderno já se encontravam, até mesmo antes do Renascimento, nos trabalhos de pessoas como o franciscano Roger Bacon”, observa o professor.

“Mas certamente um intelectual do porte de Leonardo, além de sua notável capacidade pictórica e seu gênio como inventor militar, aplicou métodos científicos aos estudos da natureza. A rigor, utilizou um método matemático, não em sua versão puramente algébrica, analítica ou calculatória, mas em sua forma geométrica, sintetizante”, prossegue.

JANELA DA ALMA
Para ele, os estudos de fisiologia e física da visão feitos por Leonardo da Vinci mostram bem o alcance de seu método - como na determinação que fez da curva chamada “cáustica”, que forma a imagem de um “ponto” na retina, na verdade uma região que não é pontual, mas é traduzida pelo cérebro como a idealização de um ponto. “Esse entendimento do funcionamento da visão por da Vinci foge do conceito mecanicista (de Newton, ao estudar a óptica) de que o olho seria uma simples lente, e está mais de acordo com atuais teorias da visão, de que ela se dá no cérebro. O olho, com suas terminações nervosas, integra-se à parte mental, e o artista sintetizava isto com o aforismo de que ‘o olho é a janela da alma’. Seus estudos de perspectiva foram além dos de seus contemporâneos porque se preocupou em reproduzir o efeito não-linear da luz sobre superfícies curvas como o olho”, diz Magalhães.

O professor salienta que há também uma compreensão epistemológica superior nos numerosos estudos de Leonardo sobre fluidos, que pode ser avaliada a partir de seus croquis muito exatos de perfis e vórtices em diferentes regimes de hidrodinâmica - só possíveis no âmbito de estudos de um verdadeiro laboratório de hidráulica, como ele realizou. “O célebre retrato feito de La Gioconda, a Mona Lisa, é uma demonstração de como utiliza a ironia e a metáfora. Os dois espelhos d’água no pano de fundo da pintura, um de cada lado da cabeça, têm níveis diferentes, o que só fará sentido se houver uma obra de engenharia como uma barragem interligando-os – coerente com os diversos trabalhos do artista italiano ao projetar e supervisionar a construção de barragens. E onde está essa barragem? Simplesmente na região por detrás da cabeça da Mona Lisa, como a dizer: é preciso um cérebro para imaginar e projetar tal barragem.”




Magalhães é categórico. “Que não haja dúvida quanto à motivação dessa união entre arte e ciência no Renascimento: não é porque homens como Leonardo eram simplesmente enciclopédicos, acima de quaisquer comparações com as pessoas contemporâneas, ou porque a matéria do conhecimento fosse comparativamente reduzida em relação aos padrões de hoje. É porque sua mente compreendia a realidade como sistêmica, exigindo interdisciplinaridade para ser dominada – algo que continua verdadeiro em qualquer tempo e sob quaisquer condições: não há separação entre o mundo das idéias e o das realizações.”

SISTÊMICO VERSUS CARTESIANO
Um dos maiores fãs do pensamento do cientista é o engenheiro, filósofo e cientista alemão radicado no Brasil, Maximilian Sandor, PhD. Autor de oito livros, atualmente trabalhando para a Power Relations Ltda, um think tank em São Paulo, Sandor aplaude o livro de Capra. “Precisa-se de coragem para pensar o que nunca foi pensado antes, aquilo que não é aceito pelas autoridades intelectuais contemporâneas, além do espírito de época, o Zeitgeist, além das considerações dos outros, mesmo daqueles que são considerados de vanguarda. Fritjof Capra demonstrou esta coragem quando publicou seu primeiro livro, O tao da física, em 1970, elevando-se à altura dos pensadores mais revolucionários da história”, define Sandor.

O cientista alemão indica que a proposta do autor parece simples: o estudo de um conjunto como um inteiro, um “sistema”, é tão ou mais importante que o estudo das suas partes em si mesmas. “Esta abordagem, chamada de 'pensamento sistêmico' ou 'holístico', hoje parece lógica, fácil, até mesmo óbvia. Parece difícil entender a resistência e crítica que o autor encontrou, e ainda encontra, na ciência moderna, quando apresenta as suas observações e conclusões. Mas até poucos anos, o 'pensamento cartesiano' ou 'mecanicista' era tão predominante nas elites do mundo e tão cravado na mente coletiva da humanidade que os poucos audaciosos que ousaram pensar e falar além disso foram ostracizados sem chance de sucesso profissional”, avalia.

Como estudioso da obra de Capra, Sandor afirma que, para muitos, esta proposta nem parece tão importante, entretanto, as implicações são imensas. “Elas tocam praticamente cada aspecto da ciência que, a cada ano, está ainda mais especializada, mais compartimentalizada; elas atingem o próprio fundamento da medicina moderna e mudam a compreensão do que nós chamamos ‘saúde’; e sinalizam a falência da economia de hoje e das estruturas dos governos, sejam locais, nacionais, ou globais, e, claramente, ameaçam nosso meio ambiente”, diz.

Para ele, assim, o pensamento holístico ameaça as próprias estruturas dos sistemas de saúde, educação, política e ciência. “Não é de surpreender que os 'cartesianos', em posições de poder há séculos, seqüestraram este conceito para perpetuarem-se como tais. Está na moda falar da 'nossa mãe terra', de 'salvar o planeta’. Entretanto, a idéia de que é possível salvar o mundo se cada um fizer um esforço por si mesmo é, em si mesma, uma proposta profundamente 'cartesiana', pressupondo que mudando 'as partes', o sistema inteiro poderia ser salvo. Pensando holisticamente, o próprio sistema deve transformar-se. E aí achamos a resistência: nas próprias estruturas de um poder global que não quer permitir esta transformação e usurpa as palavras do pensamento sistêmico.”

Sandor não acha que holismo e cartesianismo se excluam, como academias de todo o mundo parecem indicar. “Para mim, entrar no pensamento sistêmico não significa abandonar o pensamento cartesiano. Isso seria um erro grave. Ambos formam uma polaridade complementar, um precisa do outro para existir e fazer sentido. E, como todas as polaridades, os pensamentos sistêmico e cartesiano sempre aparecem como uma combinação. A polaridade na base desta dicotomia chama-se 'forma e essência' e, neste mesmo grupo, achamos também os conceitos de 'partícula e onda'. Não é por acaso que tantos proponentes do pensamento sistêmico chegaram do campo dos cientistas da física quântica, como Capra”, diz.









Como nasceu o livro? Há mais de 30 anos, eu já me interessava por Leonardo, suas experiências e como interpretava as relações e os processos, numa complexidade genial, que no fundo era achar, com muita simplicidade, as leis sistêmicas da natureza. Eu moro em Los Angeles e, na UCLA (Universidade da Califórnia), encontrei toda a obra de da Vinci em fac-símiles. Como também leio italiano muito bem, fui à Itália buscar mais documentos. Passei cinco anos pesquisando e dois escrevendo o livro. Na Itália, consegui completar tudo o que iniciei na UCLA. Foi um trabalho de campo, a princípio.

Você considera da Vinci o pai do pensamento sistêmico? Ele desvendou o método científico antes de todos, quase 200 anos antes de Galileu e Newton. Seu método não era mecanicista. Foi um gênio único, porque seu trabalho era inspirado em relações, contextos e processos. Ele via relações interligando os fenômenos da natureza. Seus escritos deixam isso muito claro. Eu quis mostrar antes de tudo qual método ele deixou.

Afinal, quem era da Vinci nesse processo? Era um homem muito à frente de seu tempo. Seu approach está sendo redescoberto agora pela ciência. Ele via relações entre tudo, como quando estudou as similaridades de envelhecimento entre uma laranja fresca e o rosto humano. Ele via conexões de sistemas entre várias áreas como ninguém viu. Veja: ele estudou o nervo óptico e ia em busca de onde estava a alma humana, pois achava que ela estava no cérebro. Foi, assim, o precursor dos sistemas neurais, que hoje são tão estudados na ciência moderna. Ele anteviu a ciência moderna, talvez, antes de todos.

Como imagina que ele veria as questões ecológicas do mundo de hoje? Leonardo tinha profundo respeito pela natureza; eu diria que, se estivesse vivo hoje, seria um ecologista de primeira. Mostrou que a natureza é econômica, que nada nela é supérfluo. Mas não se interessava por fenômenos sociais; simplesmente não ligava para política, história ou ciências sociais. Não queria saber nada sobre isso tudo.

O último capítulo de seu livro traz muito de topologia. Por quê? Eu também fui pesquisar topologia, porque tudo em Leonardo é a ciência de formas vivas, é ciência de formas orgânicas, e não mecânicas. Consultei muitos amigos topólogos.

Está preparando alguma outra obra? Talvez eu ainda queira continuar investigando esse gênio; acho difícil sair de Leonardo tão cedo... Penso em dar continuidade a essa pesquisa. Talvez eu investigue a dinâmica dos fluidos, que ele estudou tão genialmente; também penso em me aprofundar em seus estudos sobre botânica.

O que você poderia apontar de bom no Brasil atualmente? Já estive muitas vezes no Brasil e o que mais me encanta no país agora é a organização que foi dada desde que o presidente Lula chegou ao poder. Vejo o Brasil com esses três pilares: governo, negócios e sociedade civil, sobretudo representada por organizações não-governamentais. Digo que não há país do mundo em que essas três esferas estejam funcionando, simultaneamente, tão bem, uma integração rara em todo o mundo.







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