Luciana Christante
Talvez você ainda não saiba, mas 2009 reserva uma atração
especial e imperdível: apontar os olhos para o céu noturno e
ver o mesmo que Galileu Galilei viu em 1609, isto é, Vênus, os
anéis de Saturno, Júpiter e suas quatro luas, as manchas do Sol,
as crateras e as montanhas da Lua e a Via Láctea. Obviamente,
será necessário um telescópio, que pode ser encontrado à sua
espera em um dos mais de 200 pontos de observação espalhados
pelo país e que certamente é bem mais sofisticado que a
pobre luneta com a qual o astrônomo italiano abriu as portas
do Universo e da ciência. No ano em que se celebram os quatro
séculos desde as primeiras observações telescópicas feitas
por Galileu, espera-se que pelo menos 1 milhão de brasileiros
tenham essa experiência fascinante.
O Ano Internacional da Astronomia (AIA 2009) é uma iniciativa
da Organização das Nações Unidas e da União Astronômica
Internacional, que começa no dia 19 de janeiro e traz diversos
eventos, como palestras, caminhadas astronômicas e observações
do céu noturno, em vários pontos do país. Veja a programação
completa no site
www.astronomia2009.org.br. Para
Augusto Damineli, coordenador do projeto no Brasil, além da
contemplação do céu e da divulgação da ciência, as atividades
programadas ao longo de todo o ano oferecem uma oportunidade
para as pessoas “redescobrirem suas relações cósmicas”.
“Precisamos lembrar que a matéria de nosso corpo teve origem
nas estrelas e que o céu não é aquela coisa distante, nós
também estamos suspensos nele. Nossa interdependência com
os astros é muito maior do que se imagina”, diz o professor e
pesquisador do Instituto de Astrofísica, Geofísica e Ciências
Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).
PÁLIDO PONTO AZUL
“A astronomia é uma experiência de humildade e formação de
caráter”, dizia o astrônomo e escritor norte-americano Carl Sagan,
que melhor do que ninguém soube narrar a beleza desta que é,
ao lado da física, a mais antiga das ciências. Diante da vastidão
do Universo, os egos dilatados, o individualismo inconseqüente,
o consumismo voraz e as mais diversas intolerâncias caem facilmente
no ridículo. “Talvez não haja melhor demonstração da tolice
das vaidades humanas do que essa imagem de nosso pequeno
mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratar melhor uns
aos outros e de preservar e estimar o único lar que conhecemos”,
escreveu Sagan em O pálido ponto azul (esgotado),
cujo mote é uma fotografia da Terra tirada pela sonda Voyager,
em 1990, a uma distância de 6,4 bilhões de quilômetros.
Embora seja uma ciência bastante complexa, intimamente ligada
à física e à matemática, é o seu aspecto humanista que
cativa tanto as pessoas, explica Tasso Napoleão, engenheiro
aposentado, astrônomo amador e coordenador das atividades
de observação do AIA 2009 no Brasil. Segundo ele, essa atra
ção fatal pelos mistérios do céu costuma evoluir em três fases.
Primeiro é o deslumbramento com as paisagens incomuns reveladas
pelo telescópio. “Depois vem aquela sensação de que
não passamos da ‘mosquinha no cocô do cavalo do bandido’”,
brinca. Por fim, com as emoções realinhadas, o indivíduo se dá
conta do seu lugar no cosmo e dos perigos que ameaçam a paz
e a vida na Terra. Einstein disse certa vez, com boa dose de sarcasmo,
que só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez
humana. Paradoxalmente, o contato com o primeiro é ótimo
antídoto para o último.
AMANTES DO CÉU
Assim como Napoleão, muitas pessoas não resistem aos encantos
desta ciência e a transformam num hobby, que é levado
muito a sério. Só no Brasil há cerca de 4 mil astrônomos amadores,
divididos em 140 grupos especializados (eclipses, planetas,
cometas, astrofotografia etc.) e credenciados na Rede de
Astronomia Observacional, criada em 1988, que reúne exclusivamente
não-profissionais. E não se trata de mero diletantismo.
Em nenhuma outra ciência o trabalho voluntário dos amadores
é tão importante e está tão em sintonia com o dos pesquisadores
profissionais. “Com o desenvolvimento da tecnologia, hoje
dispomos de equipamentos que equivalem aos que os profissionais
usavam há 30 anos, o que nos qualifica para fornecer
aos cientistas os dados que coletamos”, diz o engenheiro, que
vive em São Paulo e nos últimos cinco anos participou da descoberta
de 14 supernovas. Seu grupo é dono de um telescópio
situado em Belo Horizonte e operado remotamente.
A contribuição dos astrônomos amadores também é bem-vinda
porque ajuda a diminuir os custos de pesquisa. “A observação em
um telescópio profissional custa em torno de 1 dólar por segundo,
logo, para descobrir uma supernova seria preciso gastar pelo
menos 500 mil dólares. Mas, como doamos nosso tempo e temos
conhecimento suficiente para operar o equipamento e coletar os
dados, isso sai de graça”, explica Napoleão. Sempre que os amadores
localizam algo diferente, ainda não catalogado, no céu, enviam
as evidências para a União Astronômica Internacional; assim,
os cientistas podem apontar seus potentes telescópios para as
coordenadas indicadas, validando ou não a descoberta. Segundo
Damineli, os astrônomos amadores passam muito mais tempo
olhando para o céu do que os profissionais. “Nós basicamente
ficamos na frente do computador analisando dados. Por isso o
trabalho deles é tão importante”, diz. Obviamente, para chegar
a esse nível e poder contribuir para a catalogação de “espécies”
do Universo, o amador precisa ter muito conhecimento e longo
tempo de janela em observação, coisas que eles acumulam com
prazer, ao mesmo tempo que ensinam aos iniciantes, que, aliás,
não são poucos. As vagas para os cursos de astronomia para leigos
realizados aos sábados na USP, por exemplo, onde Napoleão
dá aulas, são extremamente concorridas.
Outro objetivo das atividades do AIA 2009 é promover e incentivar
a cultura científica. O trabalho de Galileu não apenas
tirou a Terra do centro do Universo, para desgosto e ira da
Igreja, mas foi o pontapé para o desenvolvimento de todas as
ciências. A astronomia, uma das mais refinadas expressões do
intelecto humano, mudou os rumos da física e da matemática,
sem as quais o mundo de hoje não seria o mesmo. De um
exame de ressonância magnética ao celular que tira foto, toca
música e acessa a internet, praticamente tudo o que nos rodeia
se deve à herança galileana. Mas, além de refletir sobre o passado
e o presente, o AIA 2009 também é uma oportunidade de
olhar para o futuro, para as fronteiras do conhecimento que
vêm sendo exploradas pelos astrônomos contemporâneos, o
que inclui, por exemplo, a busca de vida em outros planetas.
Especialista no tema, Damineli explica que esta área, que tem
sido chamada de astrobiologia ou exobiologia, precisa ser vista
com pragmatismo, deixando de lado as imagens fantasiosas da
ficção científica. “Não estamos procurando ETs, mas sinais de
atividade biológica decorrentes da existência de micro-organismos”.
Segundo ele, alguns planetas oferecem, ou já ofereceram
em algum momento, condições ambientais compatíveis com a
vida microscópica. “Acredito que nos próximos 20 anos vamos
ter alguma evidência nesse sentido, mas isso pode acontecer
mais cedo. A ida do homem à Lua, a detecção de planetas pequenos,
entre outros acontecimentos, ocorreram bem antes do que
havíamos previsto”, afirma o pesquisador.
A VEZ DO BRASIL
Engana-se quem imagina que todos os caminhos da pesquisa astronômica
levam à Nasa e que o Brasil, um país com pouca tradição
científica, tenha desempenho medíocre nesse setor. Muito
pelo contrário. Nos últimos anos, os astrônomos brasileiros conquistaram
posição de destaque no cenário internacional. “Até
os anos 1970 a astronomia nacional estava bem atrasada, muito
atrás de países próximos como Chile, Argentina e México, mas
a partir da década de 1990 assumimos a liderança na América
Latina”, conta Damineli. As vagas para os cursos de pós-graduação
nessa área na USP, por exemplo, que têm avaliação máxima
segundo indicadores do Ministério da Educação, são muito
disputadas por alunos brasileiros e também de países vizinhos.
Situação semelhante é vista em outros estados. No geral, o número
de doutores nesta área no Brasil vem crescendo 15% ao ano,
somando atualmente cerca de 500. O crescimento do interesse
pela área também é observado entre os mais jovens. No vestibular
de 2008, o curso da USP, cuja primeira turma começa neste ano,
apresentou relação de dez candidatos por vaga, superando os demais
cursos de ciências exatas puras, como física, matemática e
estatística. “É surpreendente para uma profissão essencialmente
ligada à pesquisa”, reconhece o astrônomo do IAG.
Segundo Damineli, essa trajetória de ascensão da astronomia
brasileira se deve muito aos investimentos contínuos e crescentes
em tecnologia e na formação de pessoas, que permitiram inclusive
que o Brasil seja o sócio majoritário do telescópio SOAR,
instalado nos Andes chilenos, em operação desde 2004 e um
dos melhores em sua categoria. O projeto é uma parceria com
a Universidade da Carolina do Norte, a Universidade Estadual
de Michigan e o Observatório Nacional de Astronomia Óptica,
todos nos Estados Unidos. “Foi um grande desafio de engenharia,
que exigiu muita interação com a indústria e certamente ajudou
a elevar nosso padrão em áreas como eletrônica, óptica e
robótica”, diz o astrônomo. Todo esse esforço não tem passado
despercebido pela comunidade internacional. Não é por acaso
que, neste ano de celebração global, a assembléia geral da União
Astronômica Internacional, o evento mais importante da área,
vai ser realizada no Rio de Janeiro, em agosto próximo. ©