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Diretor geral:
Pedro Herz

Diretora de redação:
Thaís Arruda

Editor-chefe:
Sérgio Miguez

Editor:
Ruy Barata Neto

Assistente de redação:
Camila Azenha

Estagiário:
Pedro dos Santos

Diretora de arte:
Carol Grespan

Revisoras:
Mirian Paglia Costa
e Potira Cunha

Colaboradores:
Bruñel Galhego, Eduardo de Oliveira, Irineu Franco Perpetuo, Kelly de Souza, Sérgio Amaral Silva e Tânia Meinerz

Agradecimentos:
André Abujamra, A Recreativa, Fabrício Carpinejar, George Barcat e Lisia Fernandes

Produtora gráfica:
Elaine Beluco

Projeto gráfico:
SAX Editorial

Pré-impressão:
First Pres

Impressão:
Pancrom

Publicidade:
Eliézer de Souza (comercial@editorasax.com.br)

Jornalista responsável
Thaís Arruda (MTB 27.838)

Web Design:
Leonardo C. Lazo
Rafael D. Bento

Maio 2009 - Nº 22

REVISTA DA CULTURA
é uma publicação mensal da Livraria Cultura S.A.
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução sem autorização prévia e escrita. O conteúdo dos anúncios é de responsabilidade dos respectivos anunciantes. Todas as informações e opiniões são de responsabilidade dos respectivos autores, não refletindo a opinião da Livraria Cultura.

Preços sujeitos a alteração sem prévio aviso. Os preços promocionais para associados do + Cultura são válidos de 4/05 até 4/06

NOSSA CAPA:
Foto de Bruñel Galhego durante ensaio da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) na Sala São Paulo






Recentemente, têm ocorrido no mercado editorial brasileiro diversos lançamentos de livros-reportagens. Escritas quase sempre por jornalistas, as obras, em geral, investigam temas da realidade, com enfoque original, mais detalhado e profundo quando comparadas às matérias veiculadas na imprensa. Estas costumam ser pressionadas por duas variáveis que caracterizam e limitam o jornalismo periódico: prazo e espaço.



A vida que ninguém vê, de Eliane Brum, recentemente nas prateleiras, reúne textos publicados no jornal Zero Hora, da capital gaúcha, no final da década de 1990. A atual repórter especial da revista Época e ganhadora de dezenas de prêmios brasileiros de reportagem, entre eles os mais importantes do país, como o Esso e o Vladimir Herzog, fala de personagens anônimos da cidade grande, como o carregador de bagagens do aeroporto que nunca teve a oportunidade de voar, a menina da FEBEM que pedia dinheiro nos faróis e se afogou no Rio Guaíba ou o mendigo que jamais pediu coisa alguma.

Outro exemplo é Guilherme Fiuza, que acaba de publicar Amazônia, 20º andar. A obra é dedicada à história de dois empresários e sua saga para lançar um produto sofisticado a partir de matérias-primas da floresta. Esse esforço foi feito em sintonia com as ideias do líder seringueiro acreano Chico Mendes, que a dupla havia conhecido no Rio de Janeiro cerca de um mês antes de ser assassinado. O autor pode se dedicar ao texto literário mesmo trabalhando em O Globo e no Jornal do Brasil - hoje ainda mantém um blog no site da revista Época.

Já Júlio Ludemir, atual secretário adjunto de Cultura da cidade fluminense de Nova Iguaçu, acabou ampliando um ensaio sobre o tráfico de órgãos no Brasil, encomendado por uma ONG. O resultado, depois de dois anos de pesquisa, foi o recente Rim por rim. Agora, prepara um próximo livro sobre milícias.



CORRENTES ANTIGAS
As peculiaridades dessas publicações se vinculam a uma extensa corrente cujas origens são muito antigas, haja vista que, já no século 17, o inglês Daniel Defoe, que ficaria famoso como criador das aventuras de Robinson Crusoé (lançado em 1719), publicou Um diário do ano da peste, em que conta os principais acontecimentos envolvendo a epidemia de peste bubônica que provocou cerca de 70 mil mortes em Londres em 1655. Outro título importante foi Hiroshima (1946), que saiu originalmente na revista norte-americana The New Yorker. Nesse trabalho, John Hersey retratava o dia da explosão atômica naquela cidade japonesa, segundo a óptica de seis pessoas comuns que sobreviveram ao ataque. Mas os temas dos pioneiros do gênero não se limitam a grandes catástrofes com milhares de vítimas, como uma peste ou explosão nuclear. Lillian Ross, por exemplo, publicou Filme em The New Yorker (depois convertido em livro) em 1952, sobre os bastidores de uma filmagem do diretor John Huston, enfocando ainda os meandros da indústria de Hollywood.

Entre os precursores, pode-se mencionar ainda Euclides da Cunha, cujo Os sertões, de 1902, reportagem para o jornal O Estado de S. Paulo, abordou a epopeia de Canudos, ou John Reed que, em Dez dias que abalaram o mundo (1919), abordou a revolução russa.

Em 1965, saiu um grande clássico, cujo sucesso estimulou o surgimento de vários outros, num movimento chamado New Journalism, também conhecido no Brasil como Jornalismo Literário. Truman Capote lançou A sangue frio, que batizou de "romance de não ficção". A extensa reportagem, que consumiu quase seis anos em sua elaboração, focalizava o assassinato de quatro membros de uma família numa pequena cidade do Kansas, a reação da comunidade e a história dos dois criminosos, condenados à morte e executados. Outros destacados autores de livros-reportagens ligados a esse movimento foram Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter S. Thompson e Norman Mailer.

No Brasil, um dos que têm obtido grande sucesso nos últimos anos é Fernando Morais, que escreveu títulos como Cem quilos de ouro e Corações sujos. Outros jornalistas-escritores de destaque, entre os brasileiros contemporâneos, são Caco Barcellos (Rota 66, de 1993, e Abusado, de 2003), Eric Nepomuceno e Carlos Dorneles, os dois últimos, finalistas do Prêmio Jabuti em 2008 na categoria, respectivamente com O massacre e Bar Bodega – Um crime de imprensa.



PROCESSO
Segundo Eliane Brum, o processo de apuração de matérias para esse tipo de trabalho é mais artesanal. Para ela, mais importante do que saber perguntar é saber escutar a resposta.

"Eu acredito muito na escuta. E me refiro também à escuta de uma forma mais ampla. Olhar, sentir o cheiro, tocar a textura das histórias, apreender a incrível complexidade do real”, diz a autora, que admite, em geral, demorar a fazer a primeira pergunta justamente para sentir toda a dinâmica do seu objeto. “Fazer reportagem é primeiro um exercício de observação. Só depois a gente entra na cena. Eu gosto de ficar primeiro no canto do quadro, tentando entender o que vejo. Cada história também exige sempre uma apuração diferente”, explica ela, cuja obra foi vencedora do Prêmio Jabuti no gênero em 2007.




Além de fazê-la muito feliz, essa premiação contribuiu para dar mais visibilidade à publicação e, sendo conquistada pelo primeiro lançamento de uma editora de pequeno porte, teve ainda um caráter simbólico. "Além disso, o Jabuti nos ajudou na distribuição do livro, já que muitas livrarias têm preconceitos em relação a editoras pequenas. E, o mais relevante: por ser o prêmio literário mais tradicional do Brasil, é um reconhecimento muito especial e recebê-lo foi um dos momentos mais incríveis da minha vida."

A vida que ninguém vê é a segunda obra da jornalista. O primeiro, Coluna Prestes: o avesso da lenda (esgotado), saiu em 1994. A autora lembra: "Partiu de uma série de reportagens que fiz para a Zero Hora, resultado de uma viagem no início de 1993, em que refiz os cerca de 25 mil quilômetros da marcha da Coluna Prestes, entrevistando uma centena de testemunhas que viviam ao longo do trajeto. O livro é muito mais abrangente que as reportagens publicadas e foi escrito ao longo de meses, acordando às 4h da manhã para escrever antes de ir ao trabalho. Por ele, recebi o Prêmio Açorianos como "autora-revelação".

Sua terceira publicação, na mesma linha das anteriores, é O olho da rua, lançada em novembro de 2008, com prefácio de Caco Barcellos. "Reuni dez grandes reportagens publicadas na Época entre 2000 e 2008. Para cada uma delas, escrevi um texto contando a história dentro da história, em que faço uma reflexão sobre os dilemas, sustos e também os erros que cometi ao longo da apuração. A ideia era fazer um mergulho profundo, o que exigia entrega, sinceridade e até um pouco de despudor. Me esforcei para conseguir. Agora, são os leitores que terão de dizer. Foi escrito para ser lido por jornalistas e estudantes de jornalismo e, também, claro, por qualquer pessoa que goste de histórias reais."

A respeito de projetos de novas publicações, a jornalista afirma: "Eu sempre tenho. Mas, por enquanto, estou naquela confusão necessária que a gente precisa ter de tempos em tempos. Não sei o que vou fazer. Tenho muitas ideias, mas ao mesmo tempo um vazio. Vamos ver. Eu não gosto de fazer muitos planos”.

  DA FLORESTA AO BUNKER
Para escrever Amazônia, 20° andar, Fiuza afirma ter partido de "cerca de 70 horas de entrevistas com personagens da história, no Rio de Janeiro e no Acre, especialmente os empresários Bia Saldanha e João Augusto Fortes, além de antropólogos, índios, seringueiros e outros participantes dessa jornada”.

O principal desafio à concretização do projeto foi, de acordo com o autor, "compreender a lógica da vida amazônica, que obedece a valores e tempos próprios, para dimensionar esse ‘salto do 20º andar’ que os protagonistas dão, ao deixar para trás a vida restrita à cidade e mergulhar no universo da floresta. Não me deparei com grandes dificuldades práticas, salvo situações como congelar de frio na madrugada em plena mata tropical, ou digerir uma massa gigantesca de informações para fazê-las caberem em 270 páginas”.

Fiuza é mais conhecido por seu bem-sucedido Meu nome não é Johnny, que, adaptado, deu origem a um filme assistido por mais de 2 milhões de espectadores. Segundo ele, nesse trabalho, que consumiu um ano em sua elaboração, "fui buscando o máximo de informações sobre o protagonista e suas circunstâncias, buscando também uma narrativa que contasse uma história completa, não apenas um flash. Ficou com jeito de romance, e houve quem afirmasse que eu havia ficcionado a história. Mas ela é absolutamente verdadeira”.

O escritor publicou também 3.000 dias no bunker, que é, em suas palavras, "uma espécie de microcâmera nos bastidores do poder na época do Plano Real e das grandes crises externas. A história política é o pano de fundo para mostrar a vida e os nervos de cada membro daquela equipe que mudou a economia brasileira”.

  ESCRITOR DE REPORTAGENS
Julio Ludemir, o único que não é jornalista desse grupo, também enfrentou dificuldades para entrar em sua história. "Circulei por áreas que não conhecia bem, cujos códigos de sobrevivência não dominava. Também tive que enfrentar a burocracia carcerária, que criou muitas dificuldades para eu entrevistar os personagens presos. Por fim, havia o fato de o processo ter corrido sob segredo de justiça, que termina sendo uma proteção aos criminosos, não ao processo e muito menos aos investigadores."

Ainda sobre a temática da reportagem, ele destaca: "O tema me impressionou mais do que o estilo. Já passei por muitos momentos difíceis do ponto de vista econômico - e jamais me ocorreu me desfazer de um órgão. Vender um órgão sempre me soou como uma questão quase metafísica”.

Segundo o autor, seu trabalho consiste em um híbrido de literatura e jornalismo. “Por conta dos temas com que trabalho na minha literatura, sou confundido com jornalista. Mas, na verdade, sou escritor. Sou, no máximo, um escritor que faz reportagens. Além dos trabalhos que eventualmente publico na mídia, este é o segundo livro-reportagem mais explícito." O primeiro foi O bandido da chacrete sobre um dos fundadores do Comando Vermelho. “Namoro um pouco com o memorialismo, pois, exatamente por conta do tipo de literatura que faço, achei que seria interessante mostrar como se chega - e qual o preço que se paga - a um dos criadores do Comando."

Como ilustram esses poucos exemplos, lançamentos não faltam, nem disposição dos jornalistas-escritores. Estes permanecem empenhados em surpreender o público com uma história curiosa e bem contada, revelando um ângulo ainda inexplorado de nossa realidade, sempre depois de uma cuidadosa apuração. Assim, cabe aos leitores conhecer as novidades desse gênero, que combina qualidades do jornalismo e dos textos literários, e acompanhar com atenção os títulos que chegarão ao mercado nos próximos meses.








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