Falta de espaço e privacidade, excesso de barulho
e distração. Escritores nova-iorquinos
não precisam usar desculpas assim para não
terminar seus trabalhos. Em vez de apartamentos
apertados ou da confusão do café da esquina,
muitos escritores, roteiristas, dramaturgos, poetas
e outros profi ssionais das letras têm optado por
trabalhar em espaços comunitários específicos.
Um deles é o Paragraph, fundado há quatro
anos perto da Union Square, em Manhattan. Um
loft de cerca de 230 metros quadrados foi dividido
em dois espaços distintos: a área de trabalho, com
38 mesas separadas por divisórias e um silêncio de
biblioteca, e a cozinha/lounge, ideal para um café
(grátis) e uma conversa entre colegas. As áreas são
separadas por uma parede à prova de som. A ideia
é ter um espaço ao mesmo tempo caseiro e profi ssional,
à prova de preguiça e outras tentações.
Até jornalistas dividem espaço no Paragraph.
Josie Glausiusz é freelancer de publicações de
ciência e meio ambiente, como Nature, Scientifi c
American Mind e Discover, e bate ponto diariamente
por lá há quase dois anos. “No início da
minha vida de frila, eu trabalhava sozinha em
uma quitinete pequena e escura. Aos poucos,
me dei conta de que estava fi cando louca. Adoro
companhia. Cercada de outros escritores teclando
em seus laptops, me sinto mais feliz e motivada.”
Solidão é um fator a ser considerado. “O Paragraph
é como uma academia de ginástica”, explica
Lila Cecil , que abriu o espaço em parceria com a
escritora e amiga Joy Parisi. “É mais fácil malhar
quando há outras pessoas malhando ao seu lado.
Existe uma motivação.” Para ela, autores estabelecidos
ou iniciantes precisam de uma divisão entre casa
e trabalho. “Se escrever é sua fonte de renda e você
faz tudo de seu apartamento, você nunca vê outras
pessoas. Pode ser uma experiência muito solitária.”
Há, basicamente, dois planos de pagamento: um
que dá acesso 24 horas por dia, 365 dias por ano, e
outro com restrições (de segunda a sexta-feira, das
18 horas às 11 horas; o dia inteiro aos sábados, domingos
e feriados). Quanto maior o comprometimento,
menor o valor a ser pago: para um contrato
de seis meses, por exemplo, a mensalidade é de
R$ 260 para o pacote de acesso total e de R$ 172
para o de acesso restrito. Ambos têm uma taxa de
inscrição de R$ 193. Lockers, onde você pode deixar
seus pertences,
custam R$ 21 por
mês. Os valores
também dão direito
a internet wi-fi
e uso da impressora. Para ser aceito, é preciso preencher
um formulário, dar algumas referências e
fazer uma entrevista simples. No espaço de trabalho,
as regras de uso são óbvias: nada de comida ou
falatório. Atualmente, são cerca de 280 membros.
Outros projetos semelhantes são o Brooklyn Writers
Space e o Writers Room, o pioneiro na cidade.
Este foi fundado em 1978 e tem cerca de 400
membros. O Paragraph também organiza eventos
para seus membros: de mesas-redondas com agentes
literários em busca de novos talentos a leituras
de trabalhos dos participantes. Vários contatos entre
editoras e novos autores começaram por ali. O
mezzanino da área de trabalho, com uma pequena
biblioteca, tem obras de vários autores que escreveram
seus livros no espaço. Uma vez por mês,
membros do Paragraph são chamados para ler
suas criações no palco do bar KGB, no bairro do
East Village. Será que a moda pega no Brasil? ©