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Atiq Rahimi, 47 anos, nasceu em Cabul, Afeganistão, filho de uma família ocidentalizada e liberal. Seu pai era monarquista, governador de uma província, e a mãe, professora (ambos moram atualmente nos EUA). Mas a boa condição social não suportou os mais de 40 anos de guerra e luta pelo poder no país: o pai foi preso depois de um golpe de estado, o irmão comunista foi assassinado durante a invasão soviética e ele, anarquista, fugiu a pé, andando por nove dias e nove noites até a fronteira com o Paquistão, onde pediu asilo político na embaixada francesa. Ele conta rindo, apesar de os olhos transmitirem uma intensa tristeza, que sempre foi um bom menino e sua sorte foi ter frequentado uma escola francoafegã. Em 2004 Rahimi apresentou no Festival de Cinema de Cannes a adaptação de seu livro Terra e cinzas e ganhou o prêmio Regard d’Avenir. Seu primeiro romance em francês – os outros surgiram em persa e só depois foram traduzidos – é Syngué sabour – Pedra-de-paciência, que levou o Goncourt em 2008, a mais importante honraria literária da França. O autor esteve na 7ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em julho, de onde falou sobre sua trajetória.

Você voltou a viver no Afeganistão? Voltei nos anos da ocupação soviética, sem nunca parar de escrever, mas censuravam meus textos e a cidade havia sido destruída. Em 1984, saí clandestinamente e pedi asilo político. Em Paris, parei de escrever um período e passei a me dedicar ao cinema.

Foi possível esquecer seu país natal? Até o golpe do Taleban, em 1996, mantive distância. Com esses fanáticos no poder e a falta de atenção do mundo, voltei a me preocupar e me perguntava: O que se passa neste país que sai de uma guerra e entra em outra? Concluí, então, algo importante sobre o luto. O povo afegão não soube fazer o luto após a saída do exército soviético, e, quando isso acontece, a gente se lança em vingança. É fundamental que uma nação viva o luto depois de uma guerra. A falta disso nos levou à guerra civil e, pela posição geopolítica, vieram os Estados Unidos e criaram o monstro do Taleban. Eles deram armas à milícia e incentivaram a violência. Tudo isso me empurrou para o tema do luto, que está no livro Terra e cinzas. A palavra escrita, a língua, manteve minha ligação com o lugar onde nasci.

Você esteve em Cabul depois da queda do Taleban? Estive em 2002 para fazer um documentário e encontrei as ruínas do que foi minha casa. Não podia acreditar em tanta miséria, no medo e no ódio nos rostos das pessoas. Era preciso retomar o sonho e alguma esperança e, por isso, escrevi meu último livro em persa publicado em francês sob o título Le retour imaginaire (O retorno imaginário).

Fale um pouco sobre Pedra-de-paciência. Este livro tem como mote uma fábula do imaginário popular afegão que diz que, quando uma pessoa encontra a pedra-de-paciência, ela pode depositar nesta pedra todos seus males, angústias, segredos... A pedra escuta e absorve os sentimentos ruins da pessoa até o momento em que explode e aí a liberta de suas culpas. O livro é uma homenagem à poeta afegã Nadia Anjuman, assassinada por seu marido com o aval de sua mãe, que a achava “liberal” demais.

Como foi esse assassinato? Nadia organizava um festival de literatura em Herat, para o qual eu havia sido convidado. Alguns dias antes de embarcar, recebi a notícia de sua morte. Viajei mesmo assim e consegui ver seu marido assassino, que estava em coma porque havia tentado se matar na prisão, injetando gasolina na veia. É uma história de clã, da qual, por segurança, preciso manter certa distância. Isso tudo não tem nada a ver com o livro, que é uma ficção de narrativa libertadora, como a pedra-de-paciência. ©
 
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