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Certa vez, perguntaram a Woody Allen se havia algum livro que ele desejaria ter escrito. Allen, sem pestanejar, respondeu: “Como todo o mundo, eu gostaria de ter escrito os romances russos. Eles teriam sido a maior diversão para mim. Nunca pensei em querer ter escrito qualquer outra coisa. Nunca pensei em ter escrito Ulisses, ou os trabalhos de Saul Bellow ou qualquer outra coisa, só os russos”.

É difícil imaginar que um escritor, ao ler uma determinada obra, não tenha por um momento pensado: “Como teria sido bom se o autor desse livro fosse eu”. Seja por vaidade equilibrada, inveja desinteressada, amor à obra, prazer, respeito ou qualquer outro motivo, é absolutamente orgânico que esse pensamento navegue pela mente de diferentes autores.

O escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, autor do romance histórico Elza, a garota, além de O homem que matou o escritor e As sementes de Flowerville, conta que não basta apenas gostar ou até mesmo adorar um livro: “Se a vontade não obedecer a alguma motivação profunda, acabaremos querendo ter escrito bibliotecas inteiras”. Ele, como Woody Allen, também gostaria de ter escrito a obra de um russo, mas não os grandes romances do século 19, e sim o contemporâneo Lolita. “O que mais me impressiona é o fato de Vladimir Nabokov, depois de se exilar nos Estados Unidos como um autor pronto, ter conseguido se recriar como escritor numa língua estrangeira. A maior parte dos autores luta a vida inteira para dominar seu idioma materno e não chega a um triunfo tão acachapante.

Um dos maiores estilistas da prosa de língua inglesa em todos os tempos é russo. Essa construção consciente e paciente de uma nova linguagem, e o domínio técnico que isso exige, são de tirar o fôlego”, esclarece.

Rodrigues, que nutre carinho especial pelos estilistas que fazem da prosa um espetáculo à parte e conseguem, ao mesmo tempo, manter o pulso da narrativa sem cair no hermetismo ou no rebuscamento exagerado, não vê influência direta de Nabokov em seus textos. “O fato de escolher Lolita é sintomático: eu gostaria de tê-lo escrito justamente porque não poderia tê-lo escrito. Prefiro me deixar influenciar no sentido daquilo que está ao meu alcance”, conta.

Luiz Ruffato, autor premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) com melhor ficção de 2005 por Mama, son tanto felice e O mundo inimigo, os dois primeiros volume da série Inferno provisório, defende que todo escritor de alguma maneira passa boa parte do tempo estabelecendo diálogos com seus autores de predileção. Simpatizante de temáticas que envolvem o homem anônimo, desprovido de graça, o escritor aponta Enquanto agonizo, de William Faulkner, como a obra que gostaria de ter escrito. “Ele consegue dar uma dimensão épica a personagens absolutamente comuns em uma história corriqueira”, revela.

Apesar da identificação temática com Faulkner, foi com Dom Quixote, de Cervantes, que o novo livro de Ruffato dialogou. Em Estive em Lisboa e lembrei de você, da série Amores expressos, o autor explora a narrativa tragicômica contando a história de um imigrante brasileiro na capital portuguesa. “É meu primeiro livro em que a questão cômica fica mais evidente, de uma forma bem quixotesca.”



PERSONAGENS SIAMESES
Além de temática, narrativa e linguagem, outra maneira de um escritor arrebatar outro escritor é por meio da semelhança entre seus personagens. Para o porto-alegrense João gilberto Noll, autor de 15 obras – entre elas Acenos e afagos, seu livro mais recente – a escolha de Notas do subsolo, de dostoiévski, é consequência dessa proximidade entre protagonistas. “identifico alguns personagens dele, principalmente com o protagonista dos meus livros, que é praticamente sempre o mesmo. gosto do tipo descrito em Notas, um ser extremamente isolado, que passa metade do tempo fazendo considerações sobre as pessoas que ele vê na rua ou que conhece. É o tipo do personagem visto pelo lado de dentro, pelo avesso”, diz.

Nessa introjeção, em que o autor vê as coisas como se ele fosse o próprio personagem, Noll cita também Angústia, de graciliano Ramos. “tem um personagem dostoievskiano que me marcou muitíssimo. O fim desse livro é uma obraprima, um momento culminante da literatura brasileira, que é exatamente esse monólogo levado às últimas consequências, essa cabeça que não consegue parar de pensar, de atribuir valores às pessoas e ao seu mundo contemporâneo”, ressalta.

EM CASA
A escritora Andréa del Fuego, autora de Minto enquanto posso e dos inéditos Irmãs de pelúcia e Os malaquias (2010), seu primeiro romance adulto, viu na leitura de Detetives selvagens, do chileno Roberto Bolaño, a identidade latina do marido, o fotógrafo André de toledo Sader – que passou parte da infância no Chile. “Sou casada há 17 anos e com Detetives selvagens passei a notar a personalidade chilena do meu marido, mais do que podia imaginar! Existe uma identidade latina que me fez entender melhor o livro através do André. isso nunca tinha acontecido, até porque não leio um livro procurando a minha casa, a minha cama, o meu fogão, a minha vida. É justamente para sair dela que você vai para um grande romance. Mas fiquei com vontade de ter escrito isso, me senti em casa com Bolaño”, relata.

Já para Adriana Lisboa, autora dos romances Os fios da memória, Sinfonia em branco e Um beijo de colombina, entre outros, foi o humor e o mundo nonsense de Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas, que tornou a obra uma de suas preferidas. “tenho histórias com esse livro há muito tempo, entre elas a tentativa de lê-lo em voz alta para meu filho, que nunca quis. Vivo tentando seduzir meu filho e os filhos do meu marido com a Alice, mas eles vão se render, finalmente, agora que vai sair o filme do tim Burton.”

PEQUENOS DELITOS
Se além das características literárias e identificação pessoal somar-se ainda a admiração pelo escritor, não duvide: a combinação pode ser imediata. O caso de ivana Arruda Leite, consagrada contista que lançou, recentemente, seu primeiro romance, Hotel Novo Mundo, vai além da identificação com as obras de Amós Oz. “Ele é um exemplo de integridade, retidão e compromisso: no plano político, um homem que não se cala diante dos clamores da história, do seu povo e do seu tempo; no plano artístico, acredito que em breve o Nobel atestará ao mundo a qualidade de sua produção literária. Acredito que Amós é um modelo a ser seguido por qualquer escritor que se queira à altura do seu ofício.”



Admirada pela maneira aparentemente banal com que Amós escreve, escondendo o sofisticado arcabouço que há por trás de suas letras, o que ivana considera “prova de amor ao leitor”, ela conta situações inusitadas com a obra de Oz. “Quando li A caixa-preta, eu pirei legal. terminei de ler e voltei à primeira página imediatamente. Quando terminei pela segunda vez, li todos os livros do autor de uma enfiada. Quanto mais lia, mais gostava. No meio desse frenesi ‘amosiano’, eu fico sabendo que ele vem pra Flip. imagina minha excitação! Não só fui, como tietei o mestre quatro dias consecutivos. ia aonde ele ia, tirava fotos, bati um papinho com ele, ganhei autógrafo, fiz tudo o que compete a uma fã enlouquecida fazer. dizem que é perigoso você ver seu ídolo, porque tudo pode desmoronar num segundo. Não foi o caso. Ver Amós Oz de perto, falar com ele, acrescentou uma humanidade que ele não tinha. E com isso ele ficou maior ainda.”

Como o “mestre”, ivana diz gostar de contar histórias de maneira simples, sem grandes piruetas nem malabarismos experimentais. “Mas ainda preciso comer muita poeira pra chegar lá”, brinca. Outro escritor adepto da simplicidade é Michel Laub, que gostaria de ter escrito O náufrago(esgotado), de Thomas Bernhard, pela excepcional ideia para um romance. “Ele consegue contar de uma maneira nova e também (aparentemente) simples. imagino o prazer dele ao descobrir isso, e o quanto riu escrevendo a história (que é trágica, mas também muito engraçada). Li esse livro inteiro duas ou três vezes, volta e meia releio algum trecho isolado, e a cada vez o que acho dele vai mudando: a cada vez acho-o menos trágico e mais engraçado.”

O escritor, que lançou recentemente o romance O gato diz adeus, acredita que, se há identificação ou influência de Bernhard em sua obra, certamente, é por meio do narrador. “A história é narrada por alguém evidentemente obsessivo, o que sou um pouco, e que parece se divertir com isso, o que costumo fazer também.”

Já Joca Reiners terron só quer saber de escrever os livros que estão em sua mente. “tenho medo de responder o que penso e me considerarem um convencido, mas, como talvez eu seja isto mesmo, vou falar a verdade: eu gostaria de escrever todos os livros que tenho na cachola, e não de ter escrito o que outros já escreveram. Mas falta tempo.” E logo confessa: “Bem que eu gostaria de ter escrito A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho. Sou um influenciado pudico, daqueles que não confessam quem são as vítimas de seus roubos nem sob tortura”.

A INVEJA NOSSA DE CADA DIA
Terron, que prepara dois lançamentos para o início de 2010, O peso do coração, da coleção Amores expressos, e Guia de ruas sem saída, diz que é fácil sentir admiração por Campos de Carvalho, que é o autor de uma obra curtíssima (4 romances) e com 100% de acerto. “todos os seus livros são obras-primas. Quem dera ter tão poucos e ao mesmo tempo tão bons romances. Morro de inveja.”

Inveja? Sim, ela existe entre os escritores. tão comum que Michel Laub aposta que ocorre o tempo todo. “Mas é do bem, então, não há nada de errado com ela, pelo contrário. Eu costumo torcer pelos livros que estou lendo, gostaria que fossem todos maravilhosos, porque, antes de tudo, sou um leitor.”

Sérgio Rodrigues não deixa por menos e diz que não só existe a inveja “do bem”, como também uma “do mal”. “No primeiro caso, o sujeito lê algo que o impressiona muito e se dedica a fazer melhor – basicamente, esse é o motor que move toda a história da literatura. No segundo caso, o sujeito lê algo que o impressiona muito e sai espalhando que é uma porcaria. isso não leva a lugar nenhum, naturalmente, com exceção de um pugilato eventual”, explica.

Espírito que Rodrigues expressa em seu novo livro, Sobrescritos: 40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos. “É uma coletânea de pequenos contos cômicos em que os heróis e os anti-heróis são todos escritores, editores, críticos... essa fauna. Foi uma série que desenvolvi ao longo dos últimos três anos em meu blog, o todoprosa (www.todoprosa.com.br)”.

Se não há como escapar do tal sentimento de inveja, ivana Arruda Leite dá a receita bem-humorada para lidar com ele: “Amando os nossos inimigos. Quanto mais eu invejo um cara, mais eu me derramo de amor por ele. É o meu jeito de aniquilar a raiva e a vontade de vê-lo morto”, completa. ©


 
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