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As fotografias e o cinema digitais estão aí para comprovar que a tecnologia também está a serviço da arte. E mesmo o que parecia bastante improvável e até impossível aconteceu. O mundo digital chegou ao teatro. Se o teatro convencional é o espetáculo em tempo real com a presença de atores e plateia, o teatro digital pode ser considerado a presença na ausência, segundo especialistas. Em outras palavras, estar em determinado lugar deixou de ser apenas uma condição física. A internet permitiu que os corpos fossem digitalizados e, consequentemente, o próprio teatro.


“Acredito que o teatro digital sugere a utilização da tecnologia como um acessório que não interfere de modo determinante na linguagem do espetáculo. As expressões cênicas mais atuais apropriam-se das tecnologias digitais e as usam como parte do discurso e isso resulta em uma ampliação daquilo que se quer dizer, ou seja, da mensagem que se deseja transmitir ao público”, diz o ator e pesquisador do chamado teatro digital, Rodolfo Araújo. As principais experiências têm sido realizadas com transmissões em tempo real pela web, o que permite que um espectador em Londres, por exemplo, possa assistir a uma peça que está sendo encenada em São Paulo naquele exato momento. “Quando se fala em teatro digital, eu destacaria, em primeiro lugar, a integração – ao vivo e no mesmo espetáculo – entre países ou cidades diferentes por meio da internet. Ou seja, o espetáculo ocorre como uma grande videoconferência”, explica o pesquisador.

EXPERIMENTOS NACIONAIS
Os representantes e pesquisadores desse novo teatro ainda são poucos, mas já existem bons exemplos aqui no Brasil. Idealizado pela atriz e diretora Renata Jesion e pelo fotógrafo e cenógrafo Nelson Kao, o Teatro para Alguém está prestes a completar um ano. A primeira peça foi transmitida em 27 de novembro de 2008. “O teatro é exatamente onde a gente está, este espaço da sala de casa. É aqui e só aqui que encenamos as peças. A maioria de nossas produções é transmitida ao vivo pela internet. Basta acessar nosso site”, fala Renata.

Mas os primeiros a misturar artes cênicas com tecnologia por aqui foram os integrantes da Cia. Phila 7. “Capitaneada pelo diretor Rubens Velloso, a Phila 7 tem desenvolvido um trabalho notável não somente sobre o palco, mas também no que se refere à pesquisa e ao embasamento conceitual dos seus trabalhos. Eles amadureceram muito a visão sobre a união entre artes cênicas e tecnologia nos últimos tempos com a série Play on Earth”, opina Araújo.

O grupo se formou em 2005, porém, foi no ano seguinte – com o primeiro espetáculo da série citada por Araújo – que ele usou a internet para a criação e apresentação de uma peça. Nesta primeira experiência, três elencos em três continentes encenaram simultaneamente o mesmo texto. “As companhias atuavam ao vivo, com público presencial, mas também com recortes estabelecidos com câmeras que mandavam imagens de um lugar para o outro. E isso era construído com um roteiro, como uma coreografia”, conta o diretor Rubens Velloso. Além do paulistano Phila 7, o Station House Opera, em New Castle, na Inglaterra, e a Cia. Theatreworks, em Cingapura, participaram do espetáculo.

A montagem de What’s Wrong with the World, segunda peça da série Play on Earth, foi feita em abril de 2008, no Rio de Janeiro e em Londres. “Não eram imagens pré-gravadas. O sujeito que estava em Londres realmente estava naquela hora ali. Então, ele chegava em termos de imagem, mas a percepção para o público e para nós artistas era de uma presença clara. Ele estava lá. A gente apenas usava um suporte digital para trazer o sujeito de lá para cá”, diz Velloso.



SEM NOME
Toda essa mistura de meios e formas, entretanto, deixa uma dúvida para quem assiste e até mesmo para quem faz. Será que esses espetáculos podem ser realmente considerados teatro? Para Araújo, não. “Sinceramente, os experimentos contemporâneos não podem ser chamados com tanta certeza de teatro, videoarte ou performance. São obras cênicas que descendem da performance, do vídeo, do cinema, dos games, dos remixes, mas se articulam de maneira a produzir algo que, para mim, ainda não tem um nome”, comenta o pesquisador, mas não sem ressaltar que há, inegavelmente, uma forte teatralidade contida.

O próprio nome escolhido para definir esta nova forma de arte é considerado arriscado, pois pode reduzir o real significado dela. Para boa parte das pessoas, digital é entendido como eletrônico e, por isso, o teatro digital seria o teatro tradicional filmado e postado no YouTube. Definitivamente não é. Por isso, Renata prefere falar em teatro virtual. “É mais correto que digital, pelo menos no nosso caso, mas mesmo assim não é completamente certo, porque você também pode assistir à peça aqui no espaço. Quando se fala em digital e virtual, pensa-se que é só dentro da máquina. Mas a coisa é muito mais viva. O virtual é real, porque existe um espaço e existem pessoas que vêm assistir.”

Para transformar em realidade esses espetáculos, os idealizadores também têm de deixar o teatro convencional de lado e precisam estudar novas formas de pensar. “Temos de pensar sobre estas formas que não eram pensadas antes. Para desenvolver o olhar, você tem de buscar novas estruturas de entendimento. Não adianta pensar em teatro, em vídeo, em imagem, tudo separado. Você tem de entender quais são as relações novas, sensíveis e concretas dessas novas formas de aproximação para poder reciclar a forma de ver o mundo”, ensina Velloso.

E parece que toda essa complexidade tem uma explicação bem simples. O teatro digital, ou como você preferir chamá-lo, surgiu para democratizar a cultura. “E a gente tem conseguido. Era uma revolta fazer uma produção enorme, ir atrás de tudo e de todos e entrar numa sala de teatro e ter pouco público. Hoje, são 300 peças em cartaz, se 20 estiverem lotadas é bastante. É muita gente fazendo teatro de qualidade e pouca gente indo, enquanto a gente lota um Sérgio Cardoso por dia. Temos de 800 a 1.200 acessos diários no site”, conta Renata. “Quando não tem público, é porque tem alguma coisa errada acontecendo. A gente está querendo romper todas as barreiras e amarras, criando novos paradigmas para pensar como usar eficientemente dinheiro para a cultura de um país tão pobre”, acrescenta Kao.

Até aonde o teatro digital pode ir é difícil responder. No entanto, suas possibilidades de crescimento são infinitas. Por enquanto, o Teatro para Alguém irá se contentar em entrar em outros canais, como o celular, e integrar o messenger ao site para que os espectadores possam comentar e conversar entre si durante as apresentações “sem atrapalhar os atores”. “Não consigo imaginar um ponto final, mas o horizonte que enxergo contempla uma integração, uma orquestração cada vez maior entre a internet, a manipulação de códigos e algoritmos, a inserção de modificações genéticas, a criação de dispositivos robóticos de extensão do corpo, a presença física do ator, a dramaturgia, a iluminação, a cenografia, o uso do vídeo gravado, dentre outros elementos da linguagem já conhecidos, mas que ainda não se articulam de modo a provocar uma sensação de plena imersão nos conteúdos e experiências. Só espero que seja uma arte acima de tudo sem preconceitos e noção de fronteira. Afinal, a rede é infinita”, completa Araújo. ©
 
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